Thursday, September 9, 2010

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Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins, Escrito em vermelho

A Música Que Toca Sem Parar:
do novo disco de Djavan (Ária), retirei esta regravação de Oração ao Tempo (já postada aqui em outras vozes), de Caetano Veloso.


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

24 comments:

Lídia Borges said...

Começo a habituar-me ao bom gosto que se encontra aqui na "Primeira Pessoa".

O poema "Escrito em vermelho" traz-nos, de forma encantatória, a frente e o verso, a cara e a coroa... A dicotomia indispensável para dizer "o indizível"
Saio com "pezinhos de lã" para não acordar o silêncio.


Um beijo

Luiza Maciel Nogueira said...

estamos em sintonia, postei a música no mesmo dia :)

beijos

Pólen Radioativo said...

"Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício"

Como sabê-lo?
Se aquilo que "é maior" é aos olhos invisível ou também não tão claramente tangível? Mesmo que eu possa senti-lo quando Escrito em vermelho...

Estás sempre combinando belezas, querido!

Beijos

Primeira Pessoa said...

moça do pólem (desculpe, nunca sei seu nome),
passando pelo seu blog vi breton e me lembrei de uma musica de vitor ramil, que o cita, também (jokin)...

e fiquei numa vontade imensa de postar a musica aqui no PP.

sempre um luxo, a sua presença.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

luiza,
aquilo que chamamos de transmimento de pensação...rs

conhece a versao da rita ribeiro para a canção?

é a melhor de todas.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

lidia, meu encantamento pelos autores portugueses (principalmente os da segunda metade do seculo passado) sao musica para os meus sentidos.

abraço grande do

r.

Fatima said...

Oi Roberto!
Conheço a versão com o Kleiton e Kledir sim, bem mais rapidinha né?!
Bjs.

Primeira Pessoa said...

tem um formato mais moderno...
eu prefiro mais lentinha, mesmo...
sou fã da dupla, mas esta canção, em particular, ganhou pouco na nova versão.

voce tem bom gosto, fatima!

abração,
r.

Marcantonio said...

Mais do que caetanear prefiro agora albanizar , quase em silêncio. Eu não diria que são pequenas coisas, pois para o poeta as coisas não tem escala. E no que foi dito se agrega o indizível como um avesso. E que na floresta do dia só se perde o rumo do retorno. E que só se acorda o silêncio com o susto de um silêncio maior ainda. Rapaz... Deixa pra lá!

Grande abraço, Roberto!

Daniela Delias said...

Tempo, tempo, tempo, tempo...entoei contigo! Linda postagem, sintonia total. Bjos!

Luciana Marinho said...

"é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio"

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belo poema!
lembrado-me de clarice,
a epifania nos salva.

beijinho

Primeira Pessoa said...

marcantonio,
costumo dizer que o bom poema, por mais que resolva o "assunto", ele deixa perguntas. um bom poema, se não deixa um ponto de interrogação, ele deixa, no mínimo, um cabo de guarda-chuva para eventuais dias molhados.

não, não deixo pra lá.
você, que venha pra cá e dance.

ou, melhor:ALBANIZE!

Primeira Pessoa said...

daniela, é bela a sintonia... a composiçao de caetano... a interpretação de djavan... o poemaço de albano martins...

e a sua presença por aqui.


belos. todos belos.

tão bela, a sintonia.
abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

a poesia nos salva, luciana...
a sensibilidade nos salva.
as boas palavras e o bem querer...

agarrados uns aos outros, haveremos de nos salvar.

beijo meu,

r.

Assis Freitas said...

é deixar o silencio com suas azáfamas e vamos cuidar de nós, rogando tempo ao tempo,


abração

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Sim, a Oração de Caetano é plena, ela já, de sintonias. Você inda consegue amplificar, música para todos os sentidos. Por isso venho sempre aqui, rezar com o vento, albanizar silêncios, amigo...

Abraço meu,
Darrama.

fouad talal said...

tá bom,

não vou elocubrar porque fez silêncio dentro de mim

mas quando li o primeiro verso me veio na hora a lembrança de uma foto do Betinho, segurando nas duas mãos um feixe de arroz.

aqueles olhos calavam fundo. sabiam das pequenas coisas que alteram a realidade.

(essas associações que a gente não explica...)

bjo aí.

Primeira Pessoa said...

as pequenas alteram tudo, fouad.
a grandiosidade da vida vem travestida, num formato mínimo... como a chama que se apaga, quando a gente parte desta para uma outra...

é pequena a chama da vida, já concluí.

vivesse eu um milhão de anos, só apra entender melhor. Deus nao quis negociar. uma pena.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

música para os atentos, da rama.

silêncio pros "atentados"...rs


meu beijo faz um estrondo em sua face de irmão.

outubro?

r.

Mirze Souza said...

AH Roberto!

Lindo demais! Agora é que aumentarei meu tempo de silêncio!

Precioso!

Belo poema e a música nem se fala!

Beijos

Mirze

Primeira Pessoa said...

azáfama. taí outra palavra perfumada (mesmo entendo seu sentido).

quase rima com alfazema...rs

beijão, zé de assis.

r.

Primeira Pessoa said...

mirze,
o silêncio às vezes fala mais alto, dentro de nós.

que reverbere, então, o silêncio.

beijão do

roberto.

Fernando Campanella said...

Maravilha este poema do Albano.
Grande abraço, meu amigo.

Primeira Pessoa said...

abraço retribuído... e com a alegria de que o poema de albano chegou a você.

só assim vale a pena.

abração,

r.