Sunday, September 5, 2010

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As férias brasileiras de Paul McIntire

Paul McIntire é um americano de quatro costados, tataraneto de irlandeses, daquele tipo que sai vestido de druída na parada do Dia de São Patrício, e é fanático por esportes.
É Yankees no beisebol, Knicks no Basquete, Giants naquilo que os americanos chamam de futebol e, até já se meteu numa briga durante uma partida de hóquei sobre gelo, ao torcer pelo Rangers numa semifinal contra o Devils.
Como a maior parte dos americanos, satisfaz-se por aqui mesmo.
Para ele, o Havaí é o que há de melhor. Já esteve lá quatro vezes.
Conhece as ladeiras de San Francisco como a palma de suas mãos, e seus olhos já foram tocados pela beleza das cataratas de Niagara e do Grand Canyon.
Boston é um banho de cultura toda vez que passa por lá e, aventura de verdade, só nos cassinos de Las Vegas, onde vangloria-se de ter já tirado quase 30 mil dólares de uma máquina caça-níquel.
Os desertos do Arizona não são um mistério para ele. Afinal, fez o trajeto da Rota 66 em mais de uma ocasião. Coisa mais linda!
Mas ele ultimamente andava cabisbaixo.
Estava assim desde o seu divórcio com Diana, uma ruiva que conheceu no primeiro dia de aula do ginásio, e com quem veio a se casar, tão logo tirou o canudo de técnico em computação.
O divórcio, após apenas 3 anos de casamento e nenhum filho foi uma pauleira.
Sem destino ao final das jornadas de trabalho, conseguiu abrigo num Go-Go Bar de Newark.
Foi lá que ele conheceu - entre rodadas de uísque e cerveja -, as inigualáveis meninas do Brasil.
E o mito americano começava a desabar.
No início, relutou um pouco.
Recusava-se a comparar as ondas de Honolulu com as da praia da Joaquina.
Foi nos braços de uma loirinha de Maringá, que passou a acreditar que as extintas Sete Quedas, em Foz do Iguaçu, foram mais exuberantes que as rivais de Niagara.
No movimento dos quadris de uma carioca ele teve a certeza de que o carnaval do Rio de Janeiro era o que os americanos chamam de “The Real Thing”. E que o Mardi Gras de New Orleans era uma imitação barata da folia momesca.
Após uma noite com uma mineirinha de Governador Valadares, Paul passou a contemplar a possibilidade de ir ao Brasil, onde teria as mais belas mulheres do mundo ao alcance de suas mãos.
Passou os meses seguintes estudando o país, e teve até algumas discussões com pessoas de sua família.
Ninguém aceitava esse seu arroubo de paixão e compaixão por um país cuja capital era a Argentina.
“Estão vendo? Vocês são uns tapados!”
E foi assim que Paul Mc Intire classificou de propaganda imperialista aquela matéria de página inteira no New York Times. Nela, o jornalista insensível e tendencioso, chamava São Paulo de Capital Mundial dos Seqüestros-relâmpagos e as favelas do Rio de Janeiro de Nova Medelim.
Feliz e animado, ele partiu de New York para um mês de volúpia, caipirinha, pagode, churrasco a rodízio, praia e sol nos doces trópicos.
A viagem não começou muito bem, é verdade.
Sua bagagem foi extraviada, e ele ficou com a mesma roupa durante quase dois dias no calor abafado do Rio de Janeiro.
O que lhe valeu foi aquela camiseta com a estampa da Ararinha Azul, que comprou ainda no aeroporto do Galeão.
Apesar do abafamento, não fez sol durante os primeiros 5 dias.
Neste período, registraram-se as maiores enchentes de toda a história da cidade. Uma lástima!
Foram dias de tédio e mal-entendidos com os funcionários do hotel, que insistiam em comunicar-se com ele em português.
“Droga, o inglês deveria ser obrigatório no resto do mundo”, resmungou para a camareira de sorriso humilde.
No dia em que a chuva parou, Paul McIntire resolveu sair à caça de mulheres pelo calçadão de Copacabana. Agora, sim, finalmente, chegara a sua vez!
Cinco horas depois e já um pouco desapontado por não querer sucumbir aos encantos de uma garota de programa com um suspeitíssimo pomo-de-adão, resolveu voltar ao hotel.
Eram quase 3 da manhã, quando sentiu o cano frio do revólver encostado em sua nuca.
Mesmo sem falar o português, entendeu direitinho o que os assaltantes queriam.
E foi assim, trajando apenas uma prosaica cueca branca, que Paul McIntire chegou à delegacia do bairro para reportar o crime ao cabo de plantão, mas este também não conseguia captar os detalhes de seu infortúnio.
Uma vez mais, a bendita barreira da língua.
Passou os dias seguintes no quarto do hotel, convalescendo daquilo que pensava ser uma feijoada mal digerida.
Não dava mais.
Uma semana após a sua chegada, desiludido e sem bronzeado (continuou chovendo no Rio), Paul Mc Intire voltou aos States.
Três dias em casa, e ele ainda estava febril, com o corpo dolorido. Acabou no leito de um hospital.
O diagnóstico médico causou surpresa entre seus pares, enterrando de vez o fascínio tupiniquim sobre Paul McIntire:
Ele havia sido picado por um mosquito inofensivo, de nome esquisito, um certo Aedes Aegypti.

***

A Música Que Toca Sem Parar:
a baianinha Rosa Passos, em seu disco-homenagem a Tom Jobim, uma releitura de Garota de Ipanema.

12 comments:

Zélia Guardiano said...

Excelente, Roberto!
Sua galeria de personagens incríveis é imensa...
Adorei a crônica! Aliás, como sói acontecer...
Grande abraço, amigo!
Zélia

Primeira Pessoa said...

e os que não existirem, a gente inventa, zélia.

abraço dominical do

roberto.

Marcantonio said...

Olá, Roberto!

Cruel. Rs. E eu imaginando, pelo andar da carruagem, que ao final o McIntire seria compensado e o Rio redimido. Que nada! Sem concessões à fantasia. Rs. Cheguei a vê-lo metido naquela confusão terrível que houve recentemente em São Conrado...
Enquanto lia, pensava em um ator ideal para viver o pobre Paul nessas férias frustradas, talvez o Greg Kinnear, ou o Adam Sandler.

Bem, já começa a mobilização para evitar um nova e avassaladora epidemia de dengue. Pelo jeito essa história nunca ficará datada.

Grande abraço!

Primeira Pessoa said...

meu amigo kiko salles levou o cantor ne-yo ao brasil(acho que é assim que se escreve) e eles estavam hospedados no hotel... na semana seguinte estavam levando lionel ritchie ao rio e sampa e tiveram que mudar de hotel...
isto é ruim demais pro brasil e a imprensa internacional meteu o pau... com olimpísadas e copa do mundo no horizonte, cê ja viu, né?

acabo de chegar de nova york... uma multidão de brazucas esperando carlinhos brown e zezé di camargo e luciano...
sartei fora.
correndinho.
abração, marquinho.

Cacheada said...

MAs eu aposto que valeu a pena...
Ou não!
:S
uiahiuAHIuahuiAH
;)

Primeira Pessoa said...

será que valeu a pena, juliana?
eu tenho minhas dúvidas...rs

abração,

r.

Gerana Damulakis said...

Fiquei com raiva, parece que acontece só para sujar mais ainda a imagem do país. Mas é isso que é bom, ou seja, despertar o leitor, seja qual for o sentimento despertado.

Primeira Pessoa said...

não se entristeça, gerana.
não por isto. não por nada.
com a idade, aprendi a não sofrer com coisas que estão fora do meu controle.

te deixo um abraço.
e muito de afeição.

r.

Mirze Souza said...

Roberto!

Esse cara aí é azarado! Assalto tem em todo o mundo. Chuva também. E aqui no Rio, pivete há muito fala três idiomas.

AHHHHHHHHHHH1 Coitado! Pior foi meu caso: dois dias presa num hotel em Londres por causa de terrorismo.

O terror aqui é fino!

Estou brincando, mas que ele é azarado, isso é.

Beijos

Mirze

Canteiro Pessoal said...

Excelente!

Priscila Cáliga

Primeira Pessoa said...

obrigado, priscila.

seja sempre bem vinda a este canteiro de açucenas.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

mirze,
ele seria o que chamamos de "bunda de foca"...
mais pé frio, impossível.

putz... terrorismo em londres? ou em qualquer lugar, tira o vento de nossa vela, leva um pouquinho de nossa alma...
vi as torres gêmeas desabarem e não foi pela televisão. imagino o que passou (e o que não) pela sua cabeça.

caos perene, sedentário. vira uma tatuagem.

abração do,

r.