Friday, September 10, 2010















No dia 11 de Setembro


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibet, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Ela molhará seus cabelos grisalhos nas águas do riacho, e sentirá escorrendo por seu rosto uma alfazema límpida e confortante.
Tranqüila, entenderá perfeitamente a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale bonito, verdejante, e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.
No limite das duas Coréias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto, carros, buzina e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada rua londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos chilenos.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de idéia e promete plantar um jardim. Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Ariel Sharon receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.


** Essa crônica foi escrita um ano após o ­ataque terrorista de 11 de setembro e será publicada nesta época do ano, enquanto eu viver, como forma de tributo a todos que perderam sua vida no episódio.

Foto de Scott Lewis: David Filipov olha a foto de seu pai, Al Filipov, no painel-tributo erguido no centro de visitação, em Nova York.
Al Filipov era o pilto do primeiro avião da American Airlines Flight a se chocar contra uma das torres do World Trade Center.


A Música Que Toca Sem Parar:
Mark Knopfler e seu inesquecível Dire Straits, Brothers In Arms.

These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arm

Through these fields of destruction
Baptism of fire
I've watched all your suffering
As the battles raged higher
And though they did hurt me so bad
In the fear and alarm
You did not desert me
My brothers in arms

There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones

Now the sun's gone to hell
And the moon's riding high
Let me bid you farewell
Every man has to die
But it's written in the starlight
And every line on your palm
We're fools to make war
On our brothers in arms

33 comments:

Aleatoriamente said...

Que lindo!!! Parece uma oração esse texto.
Nossa! Fiquei emocionada.

Abraço.
Fernanda

Primeira Pessoa said...

texto antigo, fernanda.
até aqui, tenho cumprido a promessa de republicá-lo à esta época do ano.

seja bem vinda!

abração do

roberto.

Pólen Radioativo said...

Crônica de uma delicadeza ímpar...
Traz contentamento pensar que apesar de toda tragédia, a vida segue e oxalá seja clara e florida como as manhãs de setembro (como todo começo de primavera).

Beijos...
Adriana.

Graça Pereira said...

...E, em Portugal, uma mulher abriu uma janela e olhou o céu azul e acendendo uma vela, disse: É proibido esquecer o amor!!!

Adorei o seu texo na Primeira Pessoa e fiquei tua seguidora.
Bj
Graça

Primeira Pessoa said...

graça,
sua emenda ficou melhor, bem melhor, que o meu soneto...rs

belíssima intervenção.

fico feliz com sua presença entre os meus.

abraço grande do


roberto.

Primeira Pessoa said...

adriana,
por aqui é final de verão, inicio de outono, mas lembro-me claramente daquele dia de setembro...
sabe aquelas manhãs radiantes, que tem tudo, absolutamente pra ser uma manhã gloriosa.

não o foi.
juro que não foi.

vi bem de pertinho. uma tragédia devastadora e que deixou um buraco, também em mim.


beijao,

r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Roberto,
Não me canso de ler, reler, tresler, esse teu imenso poema em forma de oração. A bem da verdade, quase num ritual já, aguardo sempre esta época do ano a fim de poder, em meio ao meu aniversário que se dá nesse meado de setembro, ligar o computador e ter com sua crônica na tela, meu presente certo para cada vela que vou assoprando pelos anos de minha precária existência. Mas ante tuas frases em que trazes, feito o beato chamado Lennon, mais uma chance à paz, eu me agiganto como ser humano, e sonho que católicos e protestantes (não só na Irlanda do poeta Yeats...), conversem sem ódio pelo resto dos tempos.
Obrigado pelo presente, amigo. Estarei-me sempre aqui para o receber; e merecer, espero.

Abraço destas bandas de Minas:
Ramúcio, o da rama, que fez 40 (já!) no último 9.

Mirze Souza said...

Nossa ROBERTO! QUE ESPETÁCULO!

Tudo assim em maiúsculo, para que ninguem que por aqui venha, não se aninhe e faça uma prece.

Neste dia e hora, eu cuidava de meu pai já doente. Sem nada saber, saí para comprar um remédio urgente. Ninguém no shopping onde havia a farmácia. Não entendi e saí falando alto: O que aconteceu? Meu pai está passando muito mal, e ninguém aqui me atende? Foi aí que eu soube. Todos estavam de olhos na televisão. Pensei em meu irmão que morava em Nova Jersey mas trabalhava nas imediações do desastre que ainda abala o mundo.

Realmente nunca será apagado este ato de memórias não terroristas.

Belo demais seu texto, ou prece.

Beijos

Mirze

Primeira Pessoa said...

mirze,
eu estava no banho para ir trabalhar, quando um amigo me telefonou dizendo pra correr pra televisão... saí com a toalha enrolada, todo ensaboado...
saí voando de casa e pude ver, já no caminho, o rolo de fumaça saindo da primeira torre e "sujando"o céu, té então imaculadamente azul, naquela manhã.

a partir daí, só o caos.
a fuligem das torres caem, até hoje, sobre nossas cabeças.

beijão, mirze!

Primeira Pessoa said...

da rama, voce e celso adolfo nasceram no mesmo dia.
agora tenho de quem mais me lembrar no dia 9 de setembro.

recebeu as cantigas que te mandei?

beijão,

r.

Ana F. said...

Um dia e um texto para não se esquecer...

Lua Nova said...

Amém!
Emocionante.
Quem dera, um dia, não tenhamos mais que pedir paz entre os povos!
Beijokas.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Esse mero rabiscador de quimeras que ora te digita tá em boa companhia de dia de aniversário, então, uai? Celso Adolfo: sou fã da arte dele, rapaz.
E ser lembrado por você é um imenso jardim da fantasia, flores que comemoro pelo ano inteiro.
E brothers in arms é uma canção que me embalou muito, há muito, e agora de novo aqui: escolha certeira, como de costume.
E outro outubro vem aí, poeta.

Abraço sempre,
Da rama.

Curiosa said...

que belíssima reflexão pela paz da Humanidade, querido ... meu coração se enche de esperanças ao ler algo assim ... fique em paz ...

Primeira Pessoa said...

curiosa,
enquanto os corações se encherem de esperança, há esperança.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

da rama,
tá mesmo... celso adolfo é dos mais talentosos rabiscadores de melodias nas nossas terras altas de minas gerais...

to aqui, na cozinha, com um amigo maluco (faz uns móveis pirantes), fazendo asa de frango recheada com azeitona, bacon e provolone e pastel de jiló...

baixou o espírito de boteco em nós.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

lua nova,
paz é um trem simples demais... pena que compliquem tanto, né?

paz, que não é apenas o oposto da guerra.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

Ana,
são palavras são gentís e colocam um ponto de exclamação neste dia de recordações controversas.

abração do


roberto.

11 de setembro

Aline Veingartner said...

Republicado com muito mérito!
Acho que posso fazer das palavras dos comentários acima as minhas (o pessoal aqui capricha!)
E você foi de uma sensibilidade exemplar com esse texto, é coisa de louco.
Meus sinceros parabéns!

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
este "guga" anda biruta (esta palavra do léxico do português do brasil é uma delícia, verdade? :))! deixa para lá. tu estás sempre presente (eu é que nem por isso; este recomeço lectivo tem sido de arrancar a pele).
nem de propósito: sabes o que estou a escutar neste exacto momento? trovante. ora aí está o polígrafo (transcrito directamente): "não nos venham pedir contas, não venham pôr-nos regras, sabemos que os nossos dias não vão ser gastos assim"!
um forte abraço!

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
e nunca é demais postá-la; e nunca é demais lê-la. aqui, nos caracteres simbólicos da escrita, mas, sobretudo, na vida.
belíssima a mensagem!
um abraço!

Primeira Pessoa said...

este guga anda biruta, jorgíssimo... fazer o que, né?
ele não é maior...rs... não é...
e a gente vai abrasileirando, aportuguesando as coisas... é uma doce vingança...

estamos retomando as coisas ao puquinho e você, aí em portugal, vai molhando as canelas com as coisas da escola... tudo ficará bem, sabemos.

domingão por aqui, dia de futebol e umas cervejas, pois ninguém é de ferro.

abração,

r.

Moni. said...

É isso...o bonde segue sua nau...
Tantos outros atos de violência são cometidos cotidianamente e quantos outros, verdadeiros gritos de paz, tentam neutralizar a força do que não é do bem...

Façamos a nossa parte: contaminemos o mundo com palavras de esperança e 'claridade'

Abraços,
Moni

Primeira Pessoa said...

moni,
ontem os canais de televisao mostraram as solenidades do dia e eu não me contive, chorei minha cota, a cada nome de vítima que ia sendo lido.

sim, fazer nossa parte, sempre. este ploneta tem tudo pra ser um bom lugar pra se viver.

abração,

r.

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, essa crônica é uma oração. Li e reli, desde ontem, e ainda agora meu corpo se arrepia. Essa é uma das tantas cicatrizes que não sai de nós.

mas, para tantos que insistem em complicar a vida, há outros tantos que se levantam para defender a simplicidade da paz.

Que bom que tu está de volta!
eu estava assim, meio ausente de mim, mas também já estou voltando

beijão, querido!

Primeira Pessoa said...

às vezes é assim, andrea, como se tirássemos férias (ou nos internássemos num lugar distante) de nós mesmos...rs

eu também sinto qu estou voltando.

que preciso voltar, já tinha entendido... mas o caminho de volta às vezes é mais longo (e louco!) que o de ida.

pink floyd explica...rs

guardei um beijo procê.

r.

Gerana Damulakis said...

Excelente! Tirei o chapéu para o texto.

Primeira Pessoa said...

gosto muito desta cronica, gerana, mas sempre que a publico, sinto imensa dor.

abração do

roberto.

Fernando Campanella said...

Que os anjos nos ouçam, Roberto, pois esse também é meu desejo: um planeta que sem respeita, de ponta a ponta.
(Ah, e falando disso, que esculhambação está nosso processo político brasileiro, hein? Creio que os 'grandões' deveriam se preocupar um pouco mais com as queimadas, com a violência, com a miséria, e depois pensarem em ser eleitos.)

Grande abraço, meu amigo.

Ester said...

Olá!

Não sei exatamente como cheguei até aqui, mas estou encantada com a sua sensibilidade!
Obrigada por dividir conosco a sua dor que é a nossa também, e a dor maior fica por conta de sermos impotentes diante de uma fatalidade como esta,

Abraços com admiração!

Primeira Pessoa said...

ester,
deve ter chegado aqui pelas maos de algum amigo (ou escutou a musica que toca sem parar, da rua...rs). seja bem vinda. faça-se em casa.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

fernando,
eu estava me perguntando no outro dia: se esse é um problema recorrente todos os anos, porque nao existe uma politica preventiva. outra coisa: multas cavalares pra fazendeiros que transformem floresta em mato. reincidente? perde a terra queimada. ô, não entende piaget? uma overdose de pinochet!

absurdo.

saudaddes de te ler por aqui, fernandíssimo campanella.

abração,

r.

Liza Leal said...

Q sorte a minha, poder repousar-me em teu conteúdo! Fazer a diferença...

BROTHERS IN ARMS é lindíssima!

bj
.
LiZa