Monday, September 10, 2018

Cachecóis


A pele que me acolhe
É cheia de becos escuros
e salas vazias;

O coração em que moro
Tem duas janelas fechadas
E um labirinto de culpas

A veia que jorra
Sangue e gasolina 
Esguicha frustrações
Compradas em feira livre
Desilusões 'veraneiras'
Levadas em banho-maria 
Pecados lavados com cuspe
Desejos molhados de urina
Uma profusão de embustes 
E virtudes de perfumaria 


O espelho agora reflete 
O mapa das ruas na pele
Deserto de tantas miragens
A fonte da qual nada brota
Um cemitério de árvores
e crianças sem voz;
O medo que aniquila
Os poros entupidos
A cabeça dormente
De solidão e morfina
A febre em que ardo
A implacável insônia
O breu estranho das noites
E sua indecente companhia


A fome agora é de nada
E tem a velocidade
De um velho relógio parado
No cadafalso dos dias
A lágrima de água benta 
É ouro que reluz, intruso,
No colar de bijuteria.


Tenho a sede 
dos que sabem nada 
A fortuna dos que nada tem
A hora dos que mais tardam
Danço boleros sozinho,  
Rodopio desajeitado
O corpo disforme que gira
O rosto colado a ninguém 


Coleciono ausências de viço
Profusão de vícios, hábitos ruins
Às vezes sinto que prescrevi;


A alma que visto hoje
Não é um traje de festa
Ficou um silêncio tóxico
Restou a bandeira pirata
E a habilidade inata
De tecer cachecóis de lata
Com a linha invisível da dor.

Wednesday, August 29, 2018

Às vezes morremos







(Para o poeta Sérgio Xarepe, em Portugal)


Às vezes morremos pisoteados por multidões ensandecidas no sanatório das ruas de uma cidade em chamas.
Apagamo-nos, emudecidos, amordaçados por votos de silêncio, que são uma espécie de homilia lavrada de punho próprio.
É amarga a hóstia da culpa.
Somos asfixiados pelo laço da corda dos dogmas que adotamos, temos os joelhos dobrados, enquanto gangorreamos sobre um banquinho de fibra de vidro. 
Tombamos ao som de buzinas, motores de aeronaves que fazem rasantes sobre nossas cabeças cansadas, no limite do enlouquecer.
Findamos com os pulmões negros e enfumaçados.
Caímos de cirrose e sífilis, o fígado em frangalhos, os rins deteriorados e o pâncreas em petição de miséria.
 Carecemos de uma espinha dorsal de titânio e de uma pele mais grossa para resistir.
Às vezes, vamos murchando aos poucos, em conta-gotas, a desilusão diluindo no cadafalso dos dias.
Noutras, nos espatifamos rapidamente na curva de uma estrada perigosa ou desabamos no caos desenfreado de um leilão de misérias.
Finamo-nos dormindo, enfartados, sonhando com praias paradisíacas ou viagens num trem fantasma.

Às vezes nos matamos. 
Suicidamos sem overdose, sem acionar o gatilho ou acender o rastilho.
Somos assassinos silenciosos de nós próprios.
Covardes, sem o grilhão do remorso, somos uma legião de fracassados andando em círculos, sem jamais sair do lugar.
Rastejamos.
Homens-répteis.
Tornamo-nos criaturas insones de olheiras profundas, tristes caricaturas daquilo que nunca conseguiremos ser.
Temos na mão o passaporte para o fracasso, o salvo-conduto da dor.  
Órfãos de nós próprios, somos mortos-vivos perambulando no labirinto das horas.

Morremos de esquecimento. De covardia. De soberba ou arrogância.
Asfixiamo-nos de ganância, ignorância e pela ausência de virtudes.

Falimos.
Falhamos.

Somos interrompidos.
Desconectados.
Morremos.
Às vezes morremos.
Uns pelos outros.
Um para o outro.
Às vezes morremos os dois.
Morreremos sempre.
Nesse filme low budget fadado ao fracasso de bilheteria - que é a vida – não haverá final feliz.
Não, não haverá:
Nenhum de nós dois sorrirá no fim.

Thursday, August 16, 2018

Aretha Franklyn e Deus



Para Aretha, uma saudade anunciada.

Tomara que Ele não me castigue, generoso e bom como é. Mas gostaria de deixar registrado que Deus, em seus momentos de lazer, escuta Aretha Franklyn. 
Acontece naqueles instantes em que Ele não está sendo massacrado com as aprontações de seu inimigo; não está dolorido com nossas fraquezas; e desvia a atenção das traições mais absurdas.
Ele aperta o play e Aretha canta Do Right Woman, Do Right Man.
É quando brotam margaridas na face da terra e arrefecem-se os vulcões. 
São esses os momentos em que coisas boas acontecem para a humanidade. É quando proliferam milagres e os cientistas descobrem a cura para alguma doença. É quando assinam tratados de paz e nascem crianças perfeitas. 
Quando Deus escuta Share Your Love with Me, multiplicam-se os peixes e os pães. 
Eu sinto a presença de Deus quando Aretha Franklyn canta. 
Outro dia, vi um video em que ela interpretava uma canção de Carole King e era Deus quem fazia o duplo papel de ouvinte e de intérprete: na plateia, Ele se emocionava; no palco, tocava piano com um casaco de pele. 
Era Ele que transformava o mundo em um lugar melhor durante os 3 minutos e 48 segundos da música.
Ali, naquele momento, Ele se redimiu de seus falhanços e eu pude esquecer os refugiados sírios, espremidos em uma embarcação, arriscando a vida numa fuga do inferno pelas águas do Mediterrâneo.
Eram homens, mulheres e crianças, todos filhos d'Ele.
Pude desviar a atenção do rapaz descendo do carona da moto com uma arma na mão, durante um sinal vermelho.
Pude esquecer o desejo do homem-bomba de abrir os braços  (como um Cristo Redentor de Kandura) e apertar o detonador em plena Times Square iluminada de ganância e neón.
Esqueci por quase 4 mininutos a fome e a injusta distribuição.
Mas nem só de Aretha Franklyn vive o Todo Poderoso.
Quando Ele se cansa e cochila no serviço, acontecem tsunâmis, Fukushimas, golpes de Estado, negociatas de corrupção e gols-contra no futebol. 
Tenhamos compaixão.
Deus está cansado, não lhe damos sossego. 
Quando Ele chega ao limite do corpo é o momento em que a voz de Aretha se cala e os casais se desentendem, as nações declaram guerras, inventam bombas destruidoras e o pão de queijo carboniza no forno.
O leite derrama quando Ele se cala e Aretha Franklyn fica muda. 
Mas não é só com Aretha que Deus se emociona, pois sinto a sua presença em tantas outras coisas, que cabe aqui enumerar.
Quando o outono decreta o fim do verão e Deus pinta de ouro (e cobre e zinco) a paisagem do norte das Américas, Ele revela – em toda a glória e esplendor  - um momento de divina vaidade.
Eu escuto Deus no discurso do papa Francisco, o papa mais tolerante, mais gente-boa que a humanidade já conheceu.
Escuto Deus na chuva.
Escuto o Seu assovio quando o vento varre os telhados. 
É Ele que assopra a cabeleira dos canaviais e joga anilina no mar.
Ele pinta aquarelas coloridas com as quatro estações e está presente quando vejo um quadro de Portinari ou me lembro de um gol de Pelé.
Quando leio Manoel de Barros e sua simplicidade, eu o sinto.
E em Adélia se derretendo por Jonathan.
Ou quando Cora Coralina fala de biscoitos.
Registro sua presença na voz de meus pais, já velhinhos, ao telefone: sinto-o cristalino quando, na hora da despedida, os dois pedem que Ele me abençoe.
Mas é quando minhas filhas me chamam de pai, que eu escuto mais forte sua voz.
É este o momento da canção em que Aretha Franklyn, muito emocionada, atinge as notas mais altas e arrepia a pele de Deus.

Tuesday, June 19, 2018

O vil perdão



Eu perdoo você

e suas pequenas mentiras,
suas grandes mentiras
e até aquelas
que ainda não contou.


Perdoo
as promessas de campanha,
as promissórias afetivas
seus ‘eujuros’ e 'euteamos'

jamais ditos

Perdoo a nudez fingida,

os seios oferecidos

as felizes geometrias

os trejeitos de Marilyn

e os gozos de festim.


Perdoo as nuvens vazias de chuvas
seus minuanos, tsunamis
perdoo os raros dias de sol
e a ausência de verões
  

Perdoo os seus boleros
e rumbas, suas dores
indolores
e o aço frio dos  punhais.


Perdoo as bandarilhas
ardidas, urdidas
enfiadas
em minhas costas
e esta sangria imposta
tantos uis
tantos ais.


Eu perdoo você como
quem perdoa Judas,


mas perdoo, principalmente,

os seus pra sempre
e o jamais.





Friday, June 8, 2018

Quase um pedido de desculpas a Anthony Bourdain


Para a psicanálise o sonho é um espaço para realizar desejos inconscientes reprimidos. Na visão dos esotéricos, os sonhos podem significar experiências fora do estado de consciência e antecipar acontecimentos na vida da pessoa que sonhou.
A oniromancia, previsão do futuro pela interpretação dos sonhos, tem grande credibilidade nas religiões judaico-cristãs. Não sofro nenhuma influência religiosa, mas acontece algo comigo que me deixa bastante transtornado.
Sonho muito. 
Sou um sonhador, não apenas no sentido poético do verbo, mas também no viés prático. 
Durmo pouco, sonho muito. 
Poucas são as manhãs em que não acordo com algum resquício "quimérico" da noite mal passada. Não raro, a leveza de bons presságios é atropelada por algum pesadelo que deixa marcas terríveis. Já acordei chorando muitas vezes no meio da noite. 
É tão ruim. 
Dá uma sensação de abandono e dor. 
É como ser despertado dentro de uma bolha em que se respira sozinho, se morre só.

No decorrer da vida eu tive alguns sonhos recorrentes que foram desaparecendo com o tempo, mas existe um, em particular, que me atormenta e é sempre aterrador. 
Mesmo pouco afeito a esoterismos, fui procurar o significado em um dicionário de sonhos e a descoberta fez o mais absoluto sentido.
Sempre que sou 'visitado' por uma boca perdendo dentes é sinal de morte em meu entorno. 
Aconteceu na passagem de um amigo de infância, de parentes e pessoas próximas. 
Na noite passada a boca desdentada retornou e eu tive a certeza de que receberia uma notícia ruim antes do café da manhã. 
E foi assim que, mal abri os olhos, recebi telefonema de minha filha Isabella, que havia acabado de chegar à escola.
- Papai, liga no noticiário da TV. Anthony Bourdain cometeu suicídio na França.

Não sou amigo de Bourdain. 
Sequer o vi pessoalmente, mas havia entre nós uma estranha proximidade. Proximidade essa que era estendida a milhões de pessoas em todo o mundo, obviamente. 
Nas duas últimas décadas, ele foi presença cotidiana em minha sala, protagonista de uma das únicas coisas que aprecio ver na tv, o programa Partes Desconhecidas.
E não vem de hoje a admiração.
Tomei conhecimento de sua existência no ano 2000, quando ganhei de presente o best seller Kitchen Confidential. No livro, ele esmiuçou a realidade dos bastidores das cozinhas dos restaurantes nova iorquinos. Um choque de realidade.

Na transição para a telinha, apresentando agora um programa em que viajava pelo mundo experimentando a culinária local, Bourdain inovou trazendo um contexto muito diferente do que se vê na saturada televisão dos dias de hoje. 
Autor dos textos, deixava-me encantado com a prosa espontânea e cheia de nuances, que só os grandes escritores conseguem tecer.
Durante essas quase duas décadas, eu o vi experimentando esquisitices como conserva de ovo de pato fecundado, sushi de carne de cobra e pirarucu, achando sempre um jeito, por exemplo, de jogar luz sobre as feridas da relação EUA-Vietnam, criticar ditadores em suas próprias casas ou achando beleza de lugares esquecidos como Ghana e Etiópia.
Filmou a travessia de indocumentados na fronteira com o México e era um grande defensor da causa dos imigrantes nos EUA.
Foi assim, destemido, que o vi em Beirute, após as gravações serem interrompidas por violentos ataques aéreos israelenses. 
Bourdain dividiu conosco a beleza dos cartões postais dos lugares que visitou, sentando-se com pessoas comuns, dignitários, poetas malditos, refugiados e ícones do cinema e do rock and roll. E era sempre como se o telespectador tivesse um lugar à mesa.
Várias foram as vezes em que ele esteve no Brasil, país que adorava confessadamente. 
Retratou Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, a Amazônia e a minha Belo Horizonte. 
E foi em BH que aconteceu um episódio deplorável, em que uma pessoa brandindo um revólver invadiu o restaurante em que filmavam o segmento. 
Clientes, funcionários e equipe de filmagem se atiraram ao chão buscando abrigo. Foi um caos, retratado por ele com o peculiar senso de humor. Em nenhum momento criticou a cidade e seus cidadãos.
Como mineiro, fiquei envergonhadíssimo, e cheguei a comentar que gostaria de pedir desculpas em nome do meu povo, caso tivesse, um dia, a oportunidade de lhe apertar a mão. 
Não rolou.
Infelizmente, o restaurante da vida fechou as portas para ele.
Bourdain pediu a conta. 
Pagou e subiu, deixando-nos tentando digerir o abismo de uma perda imensurável.


Wednesday, May 9, 2018

Mães interioranas




Eu quis escrever um poema homenageando a minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dózinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.
Dona Cilinha cantava no coro da igreja.
Dona Marocas – mãe das moças mais bonitas – era sábia, dava conselhos, e não carregava tristezas no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja crente.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia compulsivamente.
Dona Socorro fazia biscoitos
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.
Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema pelo ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor infernal das tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scânia Vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um terceiro meio artista.
Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém mais ouviu falar.
Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres. Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos se transformam em santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor mais puro, recheado de oferendas de profunda gratidão.
Santificadas sejam as nossas mães.
Santifiquemos. 
Santificai!

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Tuesday, April 17, 2018

Caixa de suspiros


Acordei no meio da noite com vontade de escrever. A inspiração veio, finalmente, após mais de duas décadas de transpiração.Estou fora de casa e as condições não são as de costume. São três horas da manhã em Portugal e o poema pede urgência. O computador portátil está sem bateria e procuro por uma folha de papel – ou qualquer coisa que lembre uma e que me permita registrar o que o coração dita numa pressa sufocante.
Consigo uma caneta e contento-me com a tampa de uma caixa de suspiros, comprados em uma padaria durante a tarde.
Mesmo aliviado pelo nascimento do poema, encontrei imensas dificuldades para dormir.
Do barulho do mar lambendo as areias da Nazaré, o vento esculpindo as falésias, a lembrança das mulheres dos pescadores com as suas sete saias causando assombramentos, tudo me manteve aceso, apesar do corpo prescrito e em petição de miséria.
Quando acordei, refeito, o sol já ia alto, e os turistas haviam engolido as ruas. Fui até a cozinha e dei com a caixa de suspiros rabiscada com garatujos que mais pareciam hieróglifos, objetos de arquelogia inútil.
Eu nunca tive a letra bonita, embora tenha preenchido inúmeros cadernos de caligrafia e tenha tido uma professora que se esforçou bastante para domar a minha mão.
E ‘aquilo’ ali, na tampa da caixa de guloseimas, é inaceitável para um homem que foi alfabetizado e ganha o pão com as notícias que colhe desde o século passado.
Vi, envergonhado, os versos do improvável poema serpenteando do topo até o abismo que se anunciou na parte inferior da caixa branca ainda com cheiro de confeitaria.
Alinhamento zero.
Letras disformes.
Um A que mais se parecia um E.
E um E que parecia outra letra, que não consegui distinguir.
E isto me transportou a um tempo em que as pessoas tinham o costume de escrever. De manuscrever.
Escreviam umas às outras. Escreviam para apaziguar os corações em cadernos de poesia e em diários que exorcizavam as suas almas.
Escreviam ainda para preencher as fichas nas repartições públicas, desenhavam bilhetes com amenidades e mandavam cartas em papéis perfumados, rabiscados com corações de nanquim.
O indivíduo era elogiado pela sua letra e há quem diga que a grafia de punho tem muito a dizer sobre a personalidade do seu dono. Infelizmente, caligrafias bem desenhadas como a de Machado de Assis, trêmulas como a dos apaixonados ou redondinhas como a das das normalistas já não existem mais.
Os computadores e as mensagens eletrônicas roubaram do ser humano um dos seus maiores charmes e reiventaram a função do carteiro, que hoje recebe o seu salário para entregar contas de luz e televisão a cabo, e não mais o afeto envelopado, carimbado e selado com caras de personalidades mortas e maravilhas da flora e fauna do Brasil.
Com a extinção da caligrafia, extinguiram-se também as dedicatórias, outra maravilha relegada pelo homem. Quem, sobrevivente daqueles tempos, nunca recebeu um livro ou disco com uma dedicatória do presenteador?
Recebi muitas, generosas, bordadas na contracapa e nos encartes dos long-plays e nas primeiras páginas dos livros que chegavam nos aniversários e natais.
A tecnologia que tomou conta do mundo extinguiu os discos e, hoje, compra-se música nos I-tunes das gravadoras e das lojas virtuais. Ela, a tecnologia, quer agora acabar com os livros, oferecendo-nos a impessoalidade dos e-books. E isto tira do leitor aquele sentimento de posse, que ele tem ao adquirir uma obra imprssa ou ser presenteado com uma delas. Sem falar do cheiro de um livro novo, que faz cosquinha no nariz e atiça a alma.
Perfume de livro novo só não é melhor que o da pessoa amada.
Tenho pensado muito sobre o assunto e, desde o poema escrito na tampa da caixa de suspiros em Portugal, preveni-me comprando um bloquinho de notas, que está sempre à mão. Se a inspiração voltar a me visitar, prometo lotar o minifúndio de papel com testamentos lavrados de punho próprio, poemas derramados, lembretes, cartas de afeto e o mais absurdo bem querer.


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PS: Caixa de Suspiros é o nome do meu próximo livro (lançamento previsto para o segundo semestre), marcando um retorno à poesia e dedicado a José e Ana, meus musos.