Tuesday, October 19, 2010
















É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

(Eugénio de Andrade )


A Música Que Toca Sem Parar:
dele e de Ronaldo Bastos, Celso Fonseca esmiúça a belíssima e triste O Tempo Não Passou.

Vou te escrever pra falar de new york
Não vim aqui esperar pelo fim do mundo
Estou feliz no postal de new york
E tudo mais e a saudade cortando o fundo
Quando acordo lá pra as três da madrugada
Sinto um anjo vir rondar meu cobertor
Colo a boca sobre a pele da vidraça
Sinto as mutações do tempo a meu favor
Não sou ninguém sem voçê em liverpool
Ou numa ilha dos mares do sul
Olho o relógio e as horas não passam por mim
Num cartão postal o tempo estacionou
Parou seu carro no drive-in
Pra nós o tempo não passou!

42 comments:

Carla Farinazzi said...

Roberto! Você sumiu...
Faz falta, sabia?

E volta com texto e música lindos... "Sinto um anjo vir rondar meu cobertor
Colo a boca sobre a pele da vidraça"

Um presente,

Beijo

Carla

Primeira Pessoa said...

to sumido, sim, carla...
viajando dentro de mim...

às vezes é preciso.

grande abraço do

roberto.

Tania regina Contreiras said...

Bem-vindo, menino Roberto! Fazendo falta que tava versos e som...E voltou trazendo ambos tão lindos!
Beijos,

Marcantonio said...

Na sua viagem interna certamente você não é um beduíno cruzando desertos de areia.Deve haver aí dentro uns tantos alpes suíços, himalais, tibetes, florestas tropicais, montanhas de minas, metrópoles e uma rica e variada paisagem humana. Além de boa companhia, como esse incrível Eugénio de Andrade.

Talvez seja o único sentido com que eu possa dizer que sou viajado. E não nos socorrem meios de transporte; é viagem atenta que se faz a pé, coisa de andarilho.

Grande abraço, Roberto!

Primeira Pessoa said...

a logistica tambem nao tem me ajudado, taninha...

mas, digo-lhe, to tomando folego pra seguir firme, me reinventando pra vida.

eu não tava muito bento comigo mesmo. to dando uma repaginada no meu cotidiano. pra ser longevo.

escreve aí: a partir de agora, a preguiça vai se ver comigo.

amizade perene do

roberto.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
gosto muito desta imagem do andarilho, usada por você. na outra mão, não posso negar que, às vezes, me vejo na pele daquele maluquinho, andando em círculos dentro do próprio quintal...rs

na semana passada, estive em minas com uma turma da pesada. foi uma noite de poesia, de música (até o renato braz apareceu pra dar uma canja... a música começou 4 da tarde e terminou 5 da manhã... do dia seguinte... violões, percussões e vozes... uma belezura só... o fouad tava lá... a líria... fizemos mineirinho valente - uma canjiquinha - e leitão desossado e recheado... assado... quase 100 mil calorias... rs... e muito calor humano... juro que pensei em você, no jorge pimenta, no assis e outras pessoas que me fazem tanto bem... acho que teriam gostado)...

estamos de volta, tentando reinventar a volta que a roda (da vida) dá...

beijão do

r.

Mai said...

Ah! Roberto! Há períodos em hiberdamos em nós e ficamos outonos, e mais ainda quando nesta estação nos encontramos. Viagens internas, quiçá produtivas e produtoras de bons instantes a seguir. São os outonos de nós, muito bem retratados no poema do Eugênio, na música do Ricardo e porque não dizer em suas palavras-poemas aqui na interação com seus amigos.

Que bom ler teus sinais.

abraços

Magnolia said...

Nada melhor pra voltares a casa do que esse poema lindissimo do Eugénio.....
Bj

Mirze Souza said...

Roberto!

Saudades de ti, cara!

Esse Eugênio de Andrade é fera mesmo. Se eu fosse o outono teria obedecido à ordem.

Um mestre ao som de música divina!

Beijos, amigo!

Mirze

jad said...

Ainda bem que a ausência foi presença noutro lugar. Começava a ficar preocupado com a bronquite. A este propósito talvez valha a pena fazer uma visitinha a www.cristinasales.pt.

Abraço, Roberto.

O que dizer do poema de Eu génio. Vem-me aos dedos o Tratactus de Wittgenstein: "Acerca do que não se pode falar deve ficar-se em silêncio".

Abraço

Andrea de Godoy Neto said...

roberto querido,
também eu estou voltando (embora muito lentamente ainda) de uma viagem interna, dessas em que nos perdemos no emaranhado de caminhos de dentro mas, por fim, tornamos a nos encontrar.

Vim pra matar a saudade e fico feliz que estejas de volta, ainda mais na companhia de eugenio de andrade.

Bom retorno, moço!
beijo grande

(ah, esse encontro em minas deve ter sido delicioso :)

Zélia Guardiano said...

Ai, coisa mais linda, Roberto, que de tanta emoção que me causa, provoca-me até um friozinho à altura do diafragma...
Estava com saudade!
Abraço, amigo

Tania regina Contreiras said...

vez em quando a gente tem que dar uma parada mesmo, Roberto, e se reinventar...eu que o diga! Ah, e vi vc lá com a turma do Tertúlia, disse: olha lá o Roberto, no meio daquela gente boa e com tanta fartura de música e comida: fiquei babando de longe! :-)
T.

Fatima said...

Lindo, Roberto!
bjs.

nina rizzi said...

essa música me deixa "assim, assim". e o cheiro das marcas de eugénio...

um beijo.

líria porto said...

ô desnaturado - donde tu??

" a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra" - depois disso, dizer o qüê???

besos

Jorge Pimenta said...

ora aí está um saudado regresso. com eugénio e o seu olhar poético que o torna único na sua geração. ainda ontem, na aula, trabalhei o seu "palavras".
imortal, sem dúvida. como a saudade, doce amigo!
um forte abraço com:
1. desejo que a tertúlia tenha corrido optimamente;
2. uma felicitação especial por esta recta final do cruzeiraço! :)

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
nosso cruzeiro tem boas chances de ser campeão brasileiro. mas tem que vencer todas as partidas, entre agora e 5 de dezembro. eu, que aniversario no dia 4, ganharia meu melhor presente.
a tertulia foi otima, um tantão de gente bacana, cantoria com renato braz, paulinho pedra azul (também tertuliano) e tadeu franco, a mais bela voz de minas gerais. e outros músicos que deram especial colorido a nossa noite. outras virão, certamente...
quem sabe numa dessas não te arrastamos até as terras altas de minas gerais (nao tem interrogação nesse teclado...rs)

feliz por estar retornando, apesar de ainda não estar com a bandeira totalmente hasteada.

que seja a meio mastro, então.

saudades de ti, amigo querido.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

lírica,
depois disto dizer que foi uma alegria ter estado com você e nossos amigos na tertúlia...
infelizmente, minhas passagens por minas são mais curtas do que eu desejo. mas são sempre muito boas, revigorantes.

você, hoje, faz parte definitiva desta minha paisagem mineira.

e sei que o sabe.


beijo carinhoso do

roberto.

Primeira Pessoa said...

nina,
você e sua sensibilidade... você que beijou a mão de eugénio e suas marcas senis... eugénio ainda vivo...
eugénio que ainda vive.
você, aliás, que é também uma grande poeta, presente e futuro da poesia brasileira.

você, a quem admiro além da conta.

beijo grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

fátima,
lindo mesmo é a presença de meus amigos de sempre nesse minifúndio de afetos e afeições.

abraço grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

tânia,
faço a você o mesmo convite que fiz ao jorgíssimo...
que na próxima tertúlia você esteja entre os nossos, babando de pertinho cada um de nós...rs

e dizendo poesia, algo que não consegui fazer, por timidez, por incompetência, e por alumbramento de pinga da boa...rs

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

zélia,
este friozinho é ventinho de um bando de borboletas que só habita o diafragma de pessoas sensíveis e belas, como você.

o carinho perene do

roberto.

Primeira Pessoa said...

andrea,
o encontro foi delicioso. o ano que vem faremos outro. quero ver se levo o kledir a minas, pra ele dizer uma de suas belas (e divertidas) croniquetas.

quem sabe não teremos mais gaúchos neste encontro

ta feito o convite.

beijo grande do

r.

Primeira Pessoa said...

jad,
visitarei o blog da doutora, sim.
esta semana irei a um médico e quero iniciar tratamento pra largar o tabaco. acho que isto vai ajudar - dâããã...rs - na minha peleja contra a bronquite.

obrigadíssimo pela dica.

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

mirze,
eu comentava com paulinho pedra azul sobre a regravação que ele fez de uma música de fagner(pobre bichinho).
paulinho gravou a musica pela primeira vez em seu primeiro disco e, na regravação, contou com a participação do próprio autor da música e ficou muito bonito. observei que a música ganhou, hoje, uma beleza diferente daquela da primeira vez que foi gravada.

hoje, fagner e paulinho estão no outono de suas vidas.
e eu também...rs

e existe uma beleza triste nisto tudo.

beijão do
r.

Primeira Pessoa said...

magnólia,
fico grato pelas palavras esparramadas por aqui...

e, você que se inspirou em eugénio na hora de batizar o seu blog, sabe como poucos a alma do poeta.

amizade garantida do

roberto.

Primeira Pessoa said...

mai,
não tem sido fácil (mas quem foi que disse que seria fácil)

vejo a luz no final do túnel. só espero que não seja o comboio...rs

abraço afetuoso do

roberto.

Assis Freitas said...

voltaste cabra, e sempre em boa companhia. com o Eugenio a tira colo ensandencendo as palavras.

abração

Primeira Pessoa said...

voltei, maradona da pituba...
tentando achar o fio de minha meada... ou, a meada de meu fio, sei lá eu...rs

feliz de te encontrar por aqui.

abraço grande.
saudade do

roberto.

Zélia Guardiano said...

Roberto, meu querido
Voltei , porque fiquei preocupada com suas palavras espalhadoas por aqui: você está triste!
Precisamos muito da sua alegria , da sua irreverência, do seu delicioso jeito meio deixa que eu chuto...rs...
Força!
Já, já esta fase, meio macambúzia, terá passado: tenha certeza disso!
Abraço bem apertado, amigo!

PS-Não precisa ficar encabulado:
é só cisma de tia velha.

Rafael said...

Lindo o poema, não conhecia este poeta.
Abraço

Luciana Marinho said...

tantos outonos há nas outras estações... belo de doer.

"Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra."

beijoca, roberto querido.

Primeira Pessoa said...

luciana,
eugénio de andrade sobreviveu aos furacões de meus tormentos.

ficou a poesia. a dele.
e a de outros bambas

ainda bem, né?

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

rafael,
bem vindo ao primeira pesoa.

sinta-se em casa, entre os meus.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, zélia, uerida...
se deixarem, chuto mesmo.
ou, seria, surto? rs

beijo carinhoso do

roberto.

Jose Ramon Santana Vazquez said...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE
PRIMEIRA PESSOA

ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE ENEMIGO A LAS PUERTAS, CACHORRO, FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER Y CHOCOLATE.

José
Ramón...

José said...

Olá,

Bonita canção.
Já agora aproveito para dizer que a minha canção favorita é "Aquarela" de Toquinho".

Cumprimentos,

José

Primeira Pessoa said...

josé,
Aquarela é uma belíssima canção, cheia de cores lindas.

parabéns!

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

a poesia nos une, josé.

a força invisível e nem sempre "dizível", das palavras.

só vocês, os poetas, a conseguem desvender.
e dizer.

abraço grande,

roberto.

Lídia Borges said...

Eugénio, o "meu" poeta!

Tão justo e perfeito o poema que nos esgotamos nele.

L.B.

Primeira Pessoa said...

eugénio é "nosso", lídia.

divido-o. compartilho-o.
mas não o dou inteirinho a você...rs

e eugénio é imenso. tem eugénio pra toda a gente.

beijão,

r.