Tuesday, October 19, 2010























Uma Crônica Para Isabella

Ela tem poucos minutos de vida, mas já realizou o que quase quatro décadas de experiências, euforias, conquistas, e pequenos desastres não conseguiram.
Ela ainda aprende a respirar fora da barriga da mãe, mas já mudou a vida de um homem cético, petrificado por casuísmos de uma existência marcada pelas mazelas da luta cotidiana.
Com apenas alguns minutos de vida ela o faz redescobrir um gosto pelo ofício de existir. E resgata nele o desejo da imortalidade.
Ela acaba de transformá-lo em pai.
Durante os nove meses de espera e inquietações esse pai a imaginou de tantas maneiras, menos desta com que veio.
Ela não tem os lábios dele, e nem o contorno do queixo da mãe.
Não se sabe a cor de seus cabelos – ainda envoltos em líquido amniótico –, e seus olhos permanecem fechados, estranhando a luz artificial do mundo exterior.
O médico diz que ela tem saúde perfeita. E isto é motivo de júbilo, de despreocupação.
A enfermeira que testemunhou seu nascimento reafirma o que ele registrou desde o primeiro momento em que a viu: sim, ela é linda.
Seu corpinho franzino, de face rosada e mãos minuciosas, ainda se espreguiça no berço estufa do Hospital St. Barnabas e ela não sabe do milagre que acaba de operar.
Ela chora pela primeira vez, e ele preocupa-se imediatamente, sem entender que esse choro foi despertado pela mudança súbita de universos.
Há menos de cinco minutos, estava protegida pela fortaleza do ventre materno.
Agora, está nua, fragilizada diante de um mundo simbolizado pela expressão confusa de seu pai.
E o choro novo que enche o ar da sala de parto é um aviso firme:
Preste bem atenção em mim, papai! Cheguei para te povoar!
Seus olhos abertos iluminam a encruzilhada existencial deste marinheiro de primeiríssima viagem, com a potência de um farol mostrando destinos a um barco no meio de uma tempestade.
Numa ordem inversa de coisas, é a filha que chega ensinando o pai.
É ela quem indica a estrada a seguir e sabe-se, de antemão, que já não existirá um atalho para o futuro.
Mudou tudo num segundo.
Encantamento, magia, esperança e responsabilidade substituem palavras de um dicionário que jamais será o mesmo.
E o pai também chora, tentando esconder detrás dos óculos de grau o inocultável.
Ele que não chorou na última derrota de seu time numa final de campeonato.
Ele que não se emocionou na perda de um tio, recentemente.
Ele que evita filmes melodramáticos por não lhes reconhecer serventia.
Ele que, consumido pela luta do pão de cada dia, às vezes se esquece de ligar regularmente para seus pais e pedir-lhes a necessária benção.
Ele, o auto suficiente.
Ele, o rei de um reino que gira em torno de seu umbigo.
Impassível, até aqui, esse senhor.
Incólume, imperturbável, esse cidadão.
Diante dos olhos deste homem impenetrável, revolve-se uma trajetória que está prestes a entrar num novo período de sua história.
E esta metamorfose vai tomando força, acontecendo lentamente, como uma borboleta saindo do intransponível casulo.
Esse homem, sou eu.
E Isabella, acaba de me fazer pai.
Não cabe em mim a alegria imensa que ela trouxe.
Trata-se de algo indescritível, por mais que eu tente colocar tudo em palavras.
Ainda estou na sala de parto e um turbilhão de indescritíveis emoções vai ganhando, cada vez mais, terreno em meu coração.
Não sei se rio ou se choro. E é tudo de alegria.
Um frenesi diferente de um grito de gol.
Um eu te amo mais profundo do que todos que eu já disse a qualquer mulher.
A meu pai ou a minha mãe.
Ou a quem quer que seja, ser animado ou inanimado.
Na noite de 27 de outubro de 2001, escrevi – a quatro mãos com Fabianne – minha grande crônica até aqui.
Meu melhor poema.
Minha grande letra de canção.
Na expressão serena desta criança que nasceu também de mim, sinto-me lívido, pacificado, a um passo de Deus.


A Música Que Toca Sem Parar:
Milton Nascimento, Benke... e um coral de curumins.

34 comments:

Paulo Jorge Dumaresq said...

A sua obra-prima, Roberto.
Abração.

Patrícia Gonçalves said...

Lindo, emocionante, é incrível a transformação, o amor incondicional, a magia...

Parabéns!!!!Pelo texto, pela filha, pela vida!!!

beijos

Marcie said...

Lindo, lindo, lindo. Quase tão lindo quanto Isabella.

Primeira Pessoa said...

obra-filha, num é, paulo poeta, imperador da barra do potengi?

alegria revê-lo por aqui.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

patrícia,
e esta transformação continua acontecendo.

os filhos ensinam e, não necessariamente, o contrário disto.

grande abraço do

roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, marcie... lindos também são você e ciro, amigos queridos, irmãos que escolhi.

saudades, viu?

beijão,

r.

líria porto said...

tua obra-prima, betinho - literalmente - vou mandar pras minhas hijas.
besos

Primeira Pessoa said...

obra-filha, lírica...
obra filha...rs

Tania regina Contreiras said...

Que eu andava perdendo, deus meu!!!! Lindo, lindo e lindo, Roberto... Ando enrolada com o tempo e com a cabeça...ou com o tempo da cabeça, que não bate com o tempo de fora...Achei você agora, nesse mais um tempinho que achei, que criei...A música, ah...essa eu tenho, essa não peço! :-)

Beijo, querido, emocionante a crônica e é tão bom, no meio do caos, sentir aternura que as suas palavras despertam...

Primeira Pessoa said...

taninha,
sei bem o que são essas intempéries... passo por isto, sendo que, ultimamente, ando meio "fora" do meu próprio tempo.
mas temos as ferramentas necessárias, o coração no lugar certo e a boa intenção, minha querida.

e isto, no "tempo apropriado" das coisas, nos indicará o caminho. não caminharei no escuro pelo resto da vida... disto eu tenho certeza.

ah, sim, a sua presença por aqui vem sempre no momento exato, no instante mais que preciso.

amizade e afeição do

roberto.

Renata Luciana said...

Nooooosssa!! bem mineiro que é pra não perder a expressão de 'entrega' ao imaginar todos esses instantes tão lindamente sentidos e descritos aqui.

Linda a tua filha!

Lindo o teu amor de pai.

Abraços meus.

Primeira Pessoa said...

renata,
sinto assim: todo amor que lhe tenho e devoto, ainda é tão pouco.

crê?

sim, suas palavras me enterneceram.

beijão do

roberto.

viverempalavras said...

Nada mais sincero e inspirador. Um dia espero ter o privilégio de sentir isso.

Abraço!

Jorge Pimenta said...

amigo roberto,
passei por aqui para me meter contigo, mas, depois de ter lido esta crónica, os dedos estacaram no teclado e todas as patetices verbais se esconderam, envergonhadas, por detrás das emoções... posso aplaudir? posso felicitar? deixa-me dar um abraço!

Jorge Pimenta said...

voltei, e agora para me meter mesmo contigo :)
aquele comentário lá no viagens merece réplica:)
sabes que por momentos apanhei um susto? não sabia qual a ordem das fotos e quando te referiste a um "caráleo" na segunda, imaginei que pudesse ser eu próprio deambulando nas areias de portugal (hihihi). só sosseguei quando confirmei que te referias ao cepo arrancado de um qualquer mastro, já carcomido pelo vento e pelas ondas :)
sorumbático, eu? impossível, depois de te ler :)
um forte abraço, roberto de grau superlativo absoluto sintético :)
p.s. é sempre uma nova vivida com particular entuasiasmo a do teu regresso.

Primeira Pessoa said...

Pablo,
tudo tem seu momento, saiba.
quando bebel nasceu eu tinha 39 anos de idade e não queria ser pai. eu, que já era pai e não sabia (com exatidão).
a paternidade me desenlouqueceu um pouco. e me melhorou como filho, quero crer.
qualquer dia destes perguntarei aos meus pais se isto realmente aconteceu.
é provável que digam que não. rs



abraço grande

do roberto.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
façamos como jack, o estripador: vamos por partes.
ó, o amigo pode abraçar de quebrar as costelas.
o amigo pode se largar neste abraço, mesmo que pensem que somos namorados...rs
pode abraçar, sim.

e se aplaudir meu arremedo de crônica, eu me desconserto. pode ser até que eu chore... na minha testa tem um adesivo onde se lê: cuidado! frágil!
então, fiquemos no abraço...rs

agora, que aquele "mastro" (hoje entendo porque em alguns livros o falo - bom e velho caráleo - é chamado de mastro)... kkkk
mas, só que, daquela marca ali, cabeludo, peludo, da base ao topo, eu nunca tinha visto... rs

quanto ao maluco andando na praia...
eu tava tão doidão ao te ler que, não fossem os muito quilos a menos, poderia jurar que era eu próprio, bordando passos nas areias de portugal... sim, jorgíssimo, é isso mesmo, nasci com software de andarilho, um deambulante ser que flana procurando o colchete do vestido da rainha sofia... os olhos presos ao chão.

ah, e aquele seu abraço agora é meu. teje abraçado!

R.

Ana (Ballet de Palavras) said...

Roberto,
Os meus Parabéns.
O nascimento data o instante de uma vida que nos encanta e, enaltece o lado esquerdo do peito.

O nascimento de um filho (a) é puro deslumbramento e, uma fascinação. É o espontâneo doce e, terno bem-querer no requinte do usufruir, e, permitir o entendimento que ser pai (mãe) é um prodígio, uma doce e, terna constatação.

Um bouquê de malmequeres brancos à recente mamã.

Ana

Zélia Guardiano said...

Muito linda a sua filha!
Muito lindo o seu texto!
Abraço apertado, meu amigo Roberto

Primeira Pessoa said...

zélia,
bebel é lindinha, sim. muito interessante, atenta, gosta de ler, desenhar e, creia-me, é a melhor jogadora de futebol do seu time na escola...rs

encurujo-me.
todo.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

ana,
bebel está completando, hoje, véspera de dia de São Judas Tadeu, seu nono aninho de vida.

é uma mocinha muito especial.

e, especial, também, é o seu post.

recebo-o com muita alegria.

abraço grande do

roberto.

Ana (Ballet de Palavras) said...

Roberto,
Após a leitura do seu comentário, entendi que erradamente interpretei o seu texto. Inequivocamente, percebi, que o Roberto tinha sido pai recentemente.

Aceite por favor o meu pedido de desculpas.

Ana

Primeira Pessoa said...

ana,
não tem do que se desculpar.
nem carecia.
o importante é a essência disto tudo.
não é mesmo?

abraço grande e amizade do

roberto.

Luciana Marinho said...

menina-luz...

...que belo, roberto!

beijo!!

Primeira Pessoa said...

luz que vem também daí, luz-ciana.
suas palavras, por aqui, sempre um farol.

afeto do

roberto.

Fernando Campanella said...

Há emoções na vida assim, Roberto, que nos fazem revirar o universo e descobrir num segundo toda a importância de um pequenino imenso amor. Belíssima crônica. Parabéns, meu amigo. Abração.

Primeira Pessoa said...

agora, fernando,
um título de campeão brasileiro pelo cruzeiro bem que me cairia muito bem... rs

os filhos melhoram a vida da gente. isto eu já aprendi.

abraço meu.

r.

Lídia Borges said...

Hoje fiquei aqui... Presa.

"Numa ordem inversa de coisas, é a filha que chega ensinando o pai".

Um beijo

Primeira Pessoa said...

é verdade, lídia...
ainda no outro dia perguntei a clarice, a mais novinha (tem 6 anos), como eram suas aulas de catecismo (catequese?) e ela me respondeu assim:
- um saco, pai. a gente passa o tempo inteirinho falando de Deus.

religião é meio chatinho mesmo, né?

aprendi. rs


beijão do

r.

Assis Freitas said...

estou chegando atrasado, cê sabe baiano bom é letárgico espreguiçado no caminhar, mas a verdade é que teu blog não atualizou aqui abaixo da linha do equador, nesta babilonia de calor. mas deixando de arrodeio, tua menina é muito gata e essa cronica me encheu de lágrimas, esse negócio de ser pai é phoda,


abração

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
eu já tinha sacado sua onda com o zezinho, seo bobão...rs

acabo de sair da mesa de jantar com a presença de amigos... e lá defendia um "endurecimento" (que a vida é madrasta!), uma redução abusrda nos mimos, nos presentes e presenças.

e aí te leio, e fico todo bobo. de novo.

beijo, meu amigo do rio vermêio.

r.

LauraAlberto said...

Perfeita!
A crónica perfeita!
Beijos
Laura

Primeira Pessoa said...

você, como sempre, a gentileza personificada.

a perfeição está nos sentimentos maiores, laura.

a perfeição vive em você e nos que bebem o vinho deste mesmo barril.

abraço e admiração do

roberto.

LauraAlberto said...

Roberto, amigo do coração imenso

voltei aqui e tu sabes o motivo, reler a tua crónica desta vez deixou os meus olhos mareados...
um dia eu vou lê-la em voz alta e explicar o que tu me acabaste de ensinar hoje

obrigada Roberto