Monday, January 10, 2011

De Biritas e Bitrucas















Não me lembro do nome do "filósofo" que cunhou essa frase, mas concordo plenamente: gosto é igual pescoço.
No final, todo mundo se entende.
E, feliz daquele de quem os amigos conhecem seu gosto e tentam agradá-lo.
Digo isto, porque Fábio Portugal me fez uma gracinha.
Ele convidou-me para a inauguração de seu bar.
Não, Fábio Portugal não está abrindo um bar, um estabelecimento comercial, daqueles convencionais, imóvel de esquina, com letreiro luminoso da Skol na janela, pôster de cigarros Hollywood na parede e uma juke box num canto, onde pode-se ouvir de Frank Sinatra a Reginaldo Rossi.
Ele pediu ao artista Artur Moreira que projetasse um bar para a sua casa, e o trem ficou danado de bonito.
Particularmente, eu não gostaria de ter um barzinho em casa.
Talvez por saber do perigo iminente de ter, tão pertinho de mim, um convite às tentações e à cirrose.
Sempre biritei. Faz tempo que sou do ramo. E não estou contando "vantagem".
Comecei novinho, escondido de meus pais, com a prosaica cuba-libre (aquilo que aqui nos EUA chamam de rum and coke e que nada mais é do que isto mesmo, rum misturado com coca-cola), que era uma espécie de reverência a Cuba e à revolução cubana.
Minha geração inteira, filhos da ditadura militar, bebeu cuba-livre ferverosamente e sem sequer imaginar que, um dia, Fidel Castro se tornaria tão tirano quanto Fulgêncio Batista.
Beber é bom, admito, sem precisar que apontem uma arma à cabeça ou que me levem para um porão de uma ditadura qualquer.
E até digo mais: compartilho daquela máxima de que mais vale um bêbado conhecido, do que um alcoólico anônimo.
Pode ser uma cachacinha, um rabo-de-galo, um uisquinho ou mesmo uma cervejota gelada. Mas há quem goste dela quente.
Lembro-me de que o compositor Gonzaguinha pedia a cerveja gelada e a deixava esquentando sobre o balcão.
Só começava a beber, quando ela estava na temperatura do seu paladar, ou seja: quase um chá de cevada. Mas, gosto, repito, é igual pescoço...
Há também quem goste de champanhe.
Tenho uma amiga que só bebe da marca Crystal e acho bonitinho ela gostar de champanhe dessa marca.
Na minha cabeça pequena, para tomar um porre de Crystal, o cidadão teria que hipotecar a casa.
Mas ela fala de uma forma tão poética e convincente sobre o prazer da "coceguinha" gostosa das borbulhas efervescendo em seus lábios, do cheiro levemente adocicado subindo pelas narinas, que dá vontade de, realmente, hipotecar a casa e encarar uma Crystal bem de frente.
Não que eu entenda dessa modalidade, posto que champanhe, bebi poucas na vida.
Eu, que achava que champanhe era a cidra Cereser, que serviam nas festas de juventude lá em São Raimundo.
Não era. Não é.
Para acompanhar o ritual da birita, Deus criou os tira-gostos. Aliás, não deveria ter esse nome.
Deveria chamar-se "realça-gosto", as moelas com molho de tomates (adequadas pra comer com pão murcho, dormido), o torresminho, a dobradinha, a linguicinha, a carne de sol com mandioca, o lambari frito e o fígado acebolado.
Chego junto quando o combustível da prosa é uma bebidinha. Mas não consigo beber sozinho.
Acho absolutamente inverossímil beber sozinho.
O cara que bebe sozinho, é como se dançasse só. Não vejo a menor graça.
Ganhei a reputação de bom de copo e o presente que mais recebo é bebida. Seja lá qual for a data festiva, sempre vem alguém com uma garrafa na mão. Humilde, aceito todas.
Tenho mais de 80 garrafas de cachaça, quase todas recebidas de presente de amigos e leitores.
Cachaças que vão desde a raríssima Havana (auspiciada pelo compositor Celso Adolfo... essa eu ainda abrirei numa situação especial, entre amigos, num terreiro embandeirado, com cheiro de flor de laranjeira no ar, solos de violão entorpecendo os ouvidos e estrelas no céu) às menos cotadas Amansa Corno, Sossega Leão, Arriba Saia e Providência.
Tem gente campeoníssima em tomar "providências".
O bom de biritar é a prosa que ela desenrola.
A birita afrouxa a língua e libera os pensamentos mais reprimidos.
Tem cara que, quando bebe, torna-se uma grande autoridade em qualquer tema, vira filósofo.
A bebida aguça a discussão sobre política, futebol ou mulher.
Por mais santo que seja o caboclo, ele acaba entrando na eleição das melhores pernas da tv Globo, ou dando um pitaco sobre a boca carnuda de Angelina Jolie.
Dependendo do número de cervejas, Maradona foi melhor que Pelé, o fusca é que é o carro e a camisa do São Paulo é a mais bonita do Brasil.
Só não pode é dizer que Fernando Collor foi um bom presidente, ou confessar que votou no Maluf para prefeito.
Pelo menos na minha roda, o caboclo é expulso sem direito à saideira.
E ainda ganha a fama de bebum chato.


Conversa de Botequim:
de Noel Rosa o clássico Conversa de Botequim. Ninguém melhor do que Bezerra da Silva para retratar este papo.
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol.
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa.
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão.
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos.
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas,
Um isqueiro e um cinzeiro.

(Refrão)
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...

Telefone ao menos uma vez
Para três quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório.
Seu garçom me empresta algum dinheiro,
Que eu deixei o meu com o bicheiro.
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente.

(Refrão)
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol.
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.

24 comments:

Ana SS said...

Bem temático!
:)

Primeira Pessoa said...

em Bh tem um boteco com esse nome, ana.
fica pertinho do mercado de santa teresa e é muito bom.
eu frequento o temático. rs

abs etílicos,

r.

Assis Freitas said...

essa prosa me deu uma sede retada, vou molhar o bico, depois eu volto


abração

Primeira Pessoa said...

só não bebo uma, também, assis, porque me prometi que não bebo mais sozinho. rs

no outro dia, lá em bh, minha mãe se queixou de minhas esticadas pelos botequins. ao que respondi:
- mãe, se me fosse facultado escolher, ao invés de ter nascido em casa, teria nascido num botequim.

zangada, ela ficou quase meia hora sem falar comigo.

abração, assis.
bebe uma por mim.

Tania regina Contreiras said...

Prosa boa, menino Roberto! Gosto muito de suas crônicas...Assim como quem nada, você fala de uma imensidão de coisas, desperta lmbranças, faz a gente ri, umdedecer olhos e ter vontade de, quem sabe, ter nascido Roberto e saber envover como ninguém.

Lembrei da "Na bunda", cachacinha que meu pai ganhou de um amigo voiajante e que ficava lá fechada, no bar de madeira escura da minha infância, ninguém tomava, era guardada como curiosidade, mas eu gostava de concertar visitas íntimas perguntando de repende se já havia tomado a tal da cachaça...rs
Beijão,

Cris de Souza said...

que prosa mais gostosa, deu vontade de molhar o bico...

brindo-te!

Primeira Pessoa said...

taninha,
todo "profissional" da bitruca já tomou "nabunda". eu já tomei "nabunda". e não sei se gostei rs
é sério, gosto de cachaça suave e nabunda (sem trocadilho) era ardida que só...rs
eu tenho uma garrafa aqui em casa. vou ver se acho, fotografo e te mando.
(tenho uma porrada de cachaça encaixotada ainda de minha ultima mudança)
ô, e essa prosa boba é prosa de botequim. não salva a vida de ninguém.
nem mata ninguém.

não disto.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

cris,
molhe sem dó nem piedade.
como diria zé geraldo, "quem não tem vicio, é um fraco".

abração do
roberto

Tania regina Contreiras said...

AHam-ham...então vc já tomou nabunda mas achou ardida, heim? rsrs


Ah, essa prosa de botequim faz sorrir, faz chorar, lembrar...ixee, é muito gostosa, viu?

Bj

Primeira Pessoa said...

tomei, taninha... e é uma pinga ruim. rs... ardida, "forte"...rs
tava pensando na minha cachaça favorita e não é, certamente, "nabunda".
acho que minha cachaça favorita chama-se "farrista"... e é de um lugarzinho chamado martinho campo, em minas.
anda difícil de ser encontrada. e o preço subiu exorbitantente. em alguns lugares, ficou mais cara que muito uisque importado.
essa desce suave.
um suave veneno.

beijão do

r.

Daíse said...

Adorei o blog!
PAssarei sempre por aqui!
Bjo!

Mirze Souza said...

Roberto, passando para deixar um beijo e dizer que você é envolvente na escrita.

Como mulher de alcoolatra, estou fora do papo.

Beijos, querido!

Mirze

Luciana Marinho said...

é de dar água na boca essa tua crônica! e, depois, ainda esticaste mais meu riso com o "quem não tem vicio, é um fraco".

beijão, roberto!

Primeira Pessoa said...

luciana,
coincidência das coincidências, comentei hoje com zé geraldo, autor da frase, a "sampleada". ele riu deliciosamente e me informou que o vício da pinga da boa ficou pra trás.
mas que persistiram outros, posto que fraco ele nào é não.

beijo grande,

r.

Primeira Pessoa said...

mirze,
e eu, como comportado alcoólatra, to dentríssimo, como gema no ovo. rs

mas valeu o registro.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

daise, venha sim.
as portas deste boteco não fecham nunca.

beijão,

r.

Luciana Marinho said...

rs
luxo é você, de madrugada, me roubar um beijaço!

boa madru, roberto!
=)

Beth said...

Passando para retribuir a visita e conhecer seu espaço. Gostei muito e estarei sempre aqui. Tenho um carinho especial pelo povo Mineiro (morei por lá muitos anos....)
Bj

Primeira Pessoa said...

beth,
seja bem vinda.
e, sim, essa mineirada é jóia. sou, obviamente, suspeito para falar... rs

grande abraço do

roberto.

Primeira Pessoa said...

ô, lu,
nem era madrugada por aqui. são três horas de diferença de "confuso horário". fui para a cama ainda não era meia noite.
recadim disléxico, mas o conteúdo é verdadeiro. seu blog é muito legal, associação criteriosa de palavra e imagem.

cê manja do assunto, Lu.

beijaço do

r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Beto,
Estive agora na Bahia, a desvender zapatos. Trouxe dois abraços especiais de lá pr'ocê, rapaz: Robério Grego e Roberto Mendes...
Desta vez não fui a Santo Amaro (que o aguarda), não deu pra pousar os pés por lá. Estivemos juntos em Salvador, quinta-feira passada (uma semana já? o tempo passa mesmo pontualmente, poeta), assistimos a um ensaio de RM numa casa de shows no Rio Vermelho e depois fomos convidados por ele para um bate-papo regado a acarajé. Resenha musical, política, analítica, futebolística, jornalística (aqui citado o nome de Celso Borges, acho que é esse mesmo o nome de seu amigo em comum com Mendes; falou-se de você de novo, e bem, que eu tava lá pra te defender, se precisasse, mas claro que não foi nem seria nem jamais será preciso...)...
Ò, pra resumir a ópera: Minas com Bahia dá samba, eu que compliquei um pouco as coisas, pode pôr na minha conta aí; pagarei quando cobrarem, cês recebem em sonetos?...
Mais uma crônica sua pintada com as tintas de Rubem Braga e Renoir, essa e tantas outras...
E o Bispo é fera mermo, meu irmão: tô na fita dele, na fila dos fãs do afã dele...
Porquanto era só isso tudo, reticências...

Abraço dos Valadôncios,
Ramúcio Ramos.

Sexta-feira, 14 Janeiro, 2011

Primeira Pessoa said...

da rama, uma hora dá certo esse encontro com RM. em minas, na bahia, onde tiver que rolar, rolará.
ele tá com algum disco novo saindo do forno?
saudades d'ocê.

r.

ps: ailton me ligou hoje, bem cedinho, com uma notícia triste. morreu marquinho "perereca", um dos melhores jogadores de futebol que GV já produziu. éramos amigos aí, na adolescência, e depois, aqui nos eua, onde ele passou cerca de uma década.
morreu aos 50 anos, de ataque cardíaco fulminante enquanto fazia uma saudável corrida.
é assim a vida.
às vezes o coração desiste de nós.
e esse é um sentimento feladaputa pra cacete.

Jorge Pimenta said...

ena, é de comer/beber e chorar por mais :)
um abração, roberto-coração-de-minas, corpo dos states e a voz do mundo!

Primeira Pessoa said...

bardo da cidade dos arcebispos,
bebemos porque é líquido, não é mesmo?

jorgíssimo, eu já sentia falta de sua presença entre os meus.

brindo o seu reaparecimento.
ena!

abração do
roberto.