Sunday, May 8, 2011

Dois Poemas de Silvio Mendes
















Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma fórmula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete
o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela
janela nem atravessa pontes.
E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.
A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma
tirania difícil de inalar.

Dão-lhe a poesia e ele escreve tempestades.


(2)

Semear



Semear, gota a gota, os filhos

da palavra, os únicos que

sentem, sílaba a sílaba, a

sua forma, os significados

primordiais do sentido

e uma inaceitável estrutura

de conforto. Semear, página

a página, todas as faces do mundo,

uma a uma, reconvertidas. E depois

colher.

Isto

Isto é o passado.

A culpa de um homem, em caso de dúvida, começa aqui.

Quando se sente só, se acha perdido, é no passado que se deita,

aqui, onde a mãe o viu crescer com o nó de mãe no peito,

onde disse o primeiro palavrão com o pânico da desordem,

onde se engasgou para sempre cravando a estaca do seu esconderijo

definitivo.




Sílvio Mendes nasceu em Vilela, Paredes, licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho e trabalha actualmente como comunicador de ciência na Associação Viver a Ciência e na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Assinou um capítulo do livro “Vidas a Descobrir” (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2009) e mantém actividade poética no blogue www.idiotequesw.blogspot.com. É comunicador, tradutor de interacções entre espécies e amante regular da palavra.

A Música Que Toca Sem Parar:
daquela primeira lavra das composições de Raimundo Fagner, gravada aqui com participação especial de Paulinho Pedra Azul, Pobre Bichinho.

18 comments:

Bispo Filho said...

São estas tempestades escritas que nos salvam, graças a Deus. Gostei de conhecer a "pá que lavra" do gajo. Boa lavra, boa palavra. Gracias.
Besos
Bispo

nina rizzi said...

os amantes da palavra? só posso amá-los como a mim mesma. obrigada, meu querido.

Primeira Pessoa said...

nina,
já dizia caetano em paula e bebeto: qualquer forma de amor vale a pena, qualquer forma de amor, vale amar.

sua presença é sempre tão benvinda!

beijao desse seu leitor e fã, o

r.

Primeira Pessoa said...

salvos pela tempesatade, poeta
voce faz poesia, mesmo quando não faz.

beijão, bispo.

Fatima said...

Tb gostei de conhecer!
Bjs Roberto

Casa Decorada said...

Olá estive andando pela redondeza visitando alguns amigos e passei em frente a sua casa (blog) e estava toda iluminada...entrei e me encantei com o que vi!
Quando você tiver um tempinho, passa lá em CASA para um café e se resolver ficar, coloco meu melhor traje e venho também para ficar !
Abraço
Da vizinha Valéria, mas pode me chamar de Vá!

Paulo Jorge Dumaresq said...

Esse Silvio Mendes é arretado, Bob.
Desanuviei com os seus versos grávidos de lirismo.
Obrigado por me apresentar mais um aedo das terras de Portugal.
Sempre por aqui, mestre.

MIRZE said...

Muito bom, o Silvio Mendes.

Saber falar do semear da palavra é Ninesco!

Boa música, grande Sílvio!

Beijos

Mirze

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Ficou muito bonito o dueto de Fagner e Paulinho, belo arranjo, belos vocais, bela lua na capa do disco, belo poema-metade de Pedra Azul...
O Sílvio eu não conhecia ainda, belas palavras dele semeadas aqui por você que é de semear belas palavras e paisagens belas...
Sou fã de vir-me aqui, quando não venho é porque já vim...

Abraço respingado duma gripe que pede uma com limão,
Darrama, da gripe...

Primeira Pessoa said...

da rama,
fagner nunca havia gravado a canção, apesar de ser autor da mesma.
deu essa canja no cd de 50 anos do paulinho, os dois já nos outonos de suas respectivas vidas.

te ter aqui é um luxo, artilheiro dos gols-contra sua própria baliza...rs

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

mirze,
grade mesmo é a sua presença entre os meus.

beijo de domingo do

roberto.

Primeira Pessoa said...

fátima,
fico feliz que tenha gostado.
pode ficar com os poemas. são seus.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

passarei por sua casa, sim, valéria.
agora que descobriu o caminho, faça desta, també a sua casa.

grande abraço do

roberto.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
essa é a beleza do compartilhar. de vez em quando, aparecem uns quitutes fresquinhos.

saborear com os amigos faz tudo ainda mais especial.

abração do seu amigo das terras altas de minas, o

roberto.

Assis Freitas said...

ora pois, não é que o time da minha cidade o Bahia de Feira sagrou-se campeão baiano em pleno Barradão aplicando 2 a 1 no Vicetória. O último título da cidade tinha sido em 69 com o Flu de Feira. novos tempos no futebol da boa terra,

abraço

Primeira Pessoa said...

sou bahia de feira desde criancianha, assis... rs

e o cruzeiro ja contratou o bruninho, supostamente o destaque da equipe. ele é bão mesmo?

segunda-feira de campeões para nós dois.

viva nós!

Sílvio Mendes said...

Olá Roberto,

que surpresa encontrar palavras semeadas (e colhidas) também por aqui. Muito obrigado.

Informo que os poemas partilhados (que são 3) fazem parte de um livro gratuito que publiquei em pdf, que está disponível para download.
Ainda bem que já atravessou oceanos.

Mais informações aqui: https://www.facebook.com/SemearResistirColher

Nota: Parabéns pelo blogue. É uma delícia.

Primeira Pessoa said...

sua poesia é linda, silvio.
e fico muito feliz que tenha chegado ao meu blog. e já que chegou aqui, não perca a chave da porta.

a casa é sua.

abraço grande.
amizade do

roberto.