Friday, July 1, 2011

Dois Poemas de Pessoa, Uma Canção na Voz de Renato Braz























Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Álvaro de Campos, 15-1-1928



Segue o Teu Destino


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses

Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses
Porque não se pensam


(Ricardo Reis)


A Música Que Toca Sem Parar:
Renato Braz, minha voz favorita, gorjeia Segue o Teu Destino, de Ricardo Reis... Pessoa que era três, que era milhões). A melodia é de Sueli Costa.

24 comments:

Ma Ferreira said...

Fernando Ressoa, Ricardo Reis, Alvaro de Campos..

Fernando Gênio..

Adorei recordar Tabacaria, Tenho Fernando pessoa na minha cabeceira, como uma biblia..amo!


Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Um dia de paz...parabéns pela feliz postagem!!

Ma Ferreira

Cristine Lima said...

Olá,
Muito obrigada por ter visitado meu blog e estar me seguindo. Gostei muito do seu espaço aqui e também te sigo.
Também já fui uma brasileira/mineira nos EUA. Conheço New Jersey, Newark. Estive aí em 1989/90.

Assis Freitas said...

Vc e o Rama deram de me por lágrimas nos olhos, lembrando quando era eu virgem de tumultos e acreditava em sonhos e profecias poéticas, hoje caminho em descompasso, mas conservo esse rio que me banha a face,



abração

Luiza Maciel Nogueira said...

Fernando Pessoa com essa música ficou irresistível

beijos

MIRZE said...

Nossa! Coisa linda, Roberto!

Um trago no cigarro e o gozo do poeta.

As comparações de querer ser como o mendigo... e o chocolate ...!

Meu Deus! Isso é ser gênio e continuar por séculos e séculos.

Beijos, mano!

Mirze

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Beto,
Pessoa ressoa uma religião tão boa em mim, quase adoeço com tanta saúde que encontro nos versos dele; tanto mistério e verdades...
Renato Braz, sou fã. E fã de ser fã, fã de quem é fã...
Sempre uma alegria imensa estar-me aqui, poeta das crônicas pintadas com palavras mágicas...

Abraço pintado com as tintas da amizade,
Darrama.

Zélia Guardiano said...

Ah, Roberto, meu querido
Acertaste bem no centro do meu coração...
Tabacaria é o meu poema preferido, entre todos, todos, todos...
Ah...
Grata pelo especial momento!
Abraço, amigo.

Tania regina Contreiras said...

Quem já não vestiu algum dia esse "eu" de Tabacaria??? E a música...a música...a letra...Não, não peço! Mas vai entrando no sangue quando ouvimos...
Bjos

Primeira Pessoa said...

ma,
sua presença acrescenta demais a este cantinho de afetas. tem sempre uma cereja pro cume do chantili.

e isto me alegra.

fico feliz que tenha gostado da postagem.


abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

cristina,
voce, entao, conhece este meu universo.

seja bem vinda.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

assis,
meu amigo que eu ainda não conhecia, nós nos emocionamos pelas mesmíssimas coisas.

e isto nos irmana.

abração de tododia desse que te quer bem demais.

o roberto.

Primeira Pessoa said...

luiza,
renato braz é a mais bela voz do brasil.

fico feliz que tenha gostado.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

sim, mirze...
e ainda bem que pessoa nos tem.

com a nossa diligência, pessoa viverá em nós (e além de).

saudades de te ver por aqui.

r.

Primeira Pessoa said...

da rama,
no que te leio, fico me lembrando de robério, o grego, me aplicando fernando pessoa na veia.

e eu ainda era menino. e ele, pouco mais que isto.

precoce, aquele seu irmão.

seu, não: nosso!

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

zélia,
queria, quando cê gosta, eu fico achando que cumpri o meu papel.

meu beijo de final de semana,

roberto.

Primeira Pessoa said...

taninha,
quando cê não passa por aqui, é como se eu não tivesse vindo.

seu afeto fertiliza este chão.

beijo agradecido do seu amigo

roberto.

Luciana Marinho said...

já fui e voltei algumas vezes e não consegui escrever nada. voltei agora para dizer isso... o alvaro de campos me deixa muda e sem palavras. belo post, querido. abraços.

Primeira Pessoa said...

lu,

o silêncio, às vezes, "cala" mais alto.

viva pessoa.

e viva a pessoa bonita que é você.

beijão,

r.

Fouad Talal said...

A capacidade de escrever poemas universais, que atravessam oceanos, séculos e gerações sem perder o vigor. Eis a marca de um verdadeiro poeta.

Esse post ficou demais Beto.

Beijo do amigo seu,
FT.

Primeira Pessoa said...

e esse post é meio que muito pra ti, fouad, que há não muito tempo, me presenteou com tabacaria em um email.

frango que acompanha pato...rs

saudades de você, panguá!

beijão,

r.

LauraAlberto said...

tinha esquecido estes poemas
obrigada por me lembrares

Beijo

Laura Alberto

OceanoAzul.Sonhos said...

Fernando Pessoa imortal. Sempre muito bom lê-lo.

Um abraço
oa.s

Primeira Pessoa said...

sempre bom mastigar fernando pessoa, oceano...

sempre bom!

Primeira Pessoa said...

lauríssima, nunca nos esquecemos daqueles que nos mostraram o caminho das palavras.

junquinha. tá?

beijao,

r.