Tuesday, September 27, 2011

2 Poemas de Orides Fontela

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Fala



Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.


Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.


Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.


Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)



A estrela da tarde


A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume


A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima


Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.


A Música Que Toca Sem Parar
:
Nô Stopa, que vi crescer, filha de um sabiá, cantando da própria lavra Abre Aspas.


Se eu fosse um poeta
E entortasse a minha linha reta
Você me daria um ponto?
Ponto de interrogação
Se eu pusesse meus enfeites
O prazer do meu deleite
Você me daria um ponto?
Ponto de interrogação

Abre aspas e me leva nos meus versos que são seus
Abrevia a minha história
Se o mundo anda tão depressa
Eu não tenho pressa, vou perder a hora
Vou perder o sono,vou passar em claro
Claro que eu não vou passar em branco

Abre aspas e me empresta os seus olhos de ateu
Alivia a minha história
Se o mundo anda em linha reta
Eu ando em linha torta, eu ando do meu jeito
Vou andar à toa, vou ficar na proa
Cansei de ser marujo raso
Vou andar à toa vou ficar na boa
Se o mundo espera então eu faço

24 comments:

Luciana Marinho said...

orides é uma de minhas poetas preferidas e "fala" é um de seus poemas que mais admiro. vou arriscar, de memória, deixar mais um pouquinho de oridides aqui:

"água constelada entre mãos incertas
e as estrelas perdidas no tempo"

beijoca!

Primeira Pessoa said...

chegou tão cedinho, lu, que ainda sentiu o cheiro da tinta secando no papel.

orides é fodástica!

beijão do

roberto.

Zélia Guardiano said...

Tudo muito lindo, Roberto!
Como sói acontecer, sempre, aqui...
Abraço, amigo!

Primeira Pessoa said...

você é que é uma linda, zelinha.
quando ce não vem, isso aqui fica muito sem graça.

beijão,

r.

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ said...

...e o amor fala alto mesmo quando silencia.

Beijo

Iara Maria Carvalho said...

ela é a revolução do silêncio.

lindos poemas!

abs

Andrea de Godoy Neto said...

...o silêncio é o prelúdio de todas as outras estrelas que virão...

essa música da Nô é linda linda linda!

um beijo pra ti, Roberto!

Luciana Marinho said...

é assim:

"água constelada
entre as mãos incertas

e as estrelas derramadas no tempo"


que imagem tocante...
fico como o espaço em branco
entre a estrofe e o último verso.

beijoca, roberto!

Primeira Pessoa said...

bom te ver novamente por aqui, andrea, você, que foi uma das primeiras pessoas a visitar e a incentivar este blog.

sou-te imensamente grato pelo carinho e generosidade durante todo este tempo.

a música "que toca sem parar" é da Nô Stopa, filha de Zé Geraldo, meu conterrâneo. Vi esta menina crescer e se interessar por música e é uma alegria vê-la trilhando os passos do pai.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

é verdade, Iala, Orides Fontela é um dos segredos que o brasileiro ainda precisa desvendar.

o Brasil precis aconhecer Orides Fontela.

abraçào do

roberto.

Wilson Torres Nanini said...

Roberto,

Orides é uma das cinco mais de minha vida. Sei seus melhore poemas de cor. Aquele poder de dizer muito com quase nenhumas palavras - da qual Fontela foi mestra - é algo que busco, mas que ainda não obtibe, para poder chamar de "poesia" o que faço com palavras.

Um forte abraço!

Cristine Lima said...

Olá,
gostei demais deste poema que é muito sensível e com palavras muito sonoras. Espero uma visita lá no Alma das Estações.
Abraço,

Primeira Pessoa said...

será um prazer visitar seu blog, cristine.

volte ao PP sempre que der vontade.
abração do

r.

Primeira Pessoa said...

nanini,
você é um poeta do tamanho que é, porque bebeu de boas águas, boas fontes...

já não me admiro... rs

abraço maior desse seu amigo tertuliano, o

r.

ps: já conseguiu o habeas corpus?

Primeira Pessoa said...

luciana,
admiro demais o seu bom gosto, pela desenvoltura (tão inata) que você tem ao garimpar as mais precisosas gemas.

e mais não direi.

admiração perene do

roberto.

Primeira Pessoa said...

margo,
às vezes é o silêncio que fala mais alta.
sim, às vezes, o silêncio grita.

abração do

roberto.

Assis Freitas said...

rapaz tomei um susto quando entrei aqui, pensei tô no endereço errado, nova mobília de sala, um closet para comentar, enfim. mas quando vi os poemas da Orides tive certeza de que não perdi o rumo, ah mudem-se estrelas que meu olhar não muda,



abraço

Primeira Pessoa said...

assis, não tenho a menor idéia de como essa metamorfose aconteceu. feitiço, bruxedo... e eu não queria nada disto... cheguei meio bebum, o "brógger" mandou eu apertar um botãozim e virou essa confusão...
também achei que entrei na casa errada.

e hoje foi um dia difícill demais pra mim... um cansaço de tanta coisa, frustração, provação, letargia... o que vale é que o refrigério se anuncia... tá pertinho...

um dia destes abraço você.

nem quie tenha que ir a feira com meus amigos do dops... rs


beijao do seu broda, o

roberto.


ps: estou indo a portugal me encontrar com o jorge, em novembro (bora???). vi a passagem hoje, amanhã fecho a tampa. mais vale um gosto, que mil milhões de tostões.

Daniela Delias said...

Ei...que olho pra garimpar canções e poemas, hein? Não conhecia a poeta e nem a cantora...aliás, que coisas lindas encontrei nessa casa nova (achei que estava no lugar errado rs). Mas estar por aqui, pertinho de ti, seja qual for a carinha do blog, é ter a certeza de no mínimo um suspiro rs...

dani carrara said...

não sabia desta poeta
mas gostei de saber, muito
aliás, descubro um monte de poetas aqui...

bjo

Primeira Pessoa said...

dani carrara,
acho que este é um dos principais benefícios da blogosfera, o espetáculo da revelação de "milagres", como orides fontela.

bom te ver por aqui.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

daniela,
como não tenho conseguido produzir nada que mereça a atenção de ninguém, tentarei, pelo menos, usar o espaço pra divulgar poetas de todas as tendências e idades.

e, sim, uma musiquinha aqui e acolá, que ninguém é de ferro.

beijão do

roberto.

Andressa C. said...

A palavra real nunca é suave.

Primeira Pessoa said...

a palavra verdadeira é punhal, andressa.

e corta bem fundo.