Friday, September 9, 2011

Neste 11 de Setembro

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Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibet, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Ela molhará seus cabelos grisalhos nas águas do riacho, e sentirá escorrendo por seu rosto uma alfazema límpida e confortante.
Tranqüila, entenderá perfeitamente a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale bonito, verdejante, e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.
No limite das duas Coréias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto, carros, buzina e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada rua londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos chilenos.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de idéia e promete plantar um jardim. Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Ariel Sharon receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.


** Essa crônica foi escrita um ano após o ­ataque terrorista de 11 de setembro e será publicada nesta época do ano, enquanto eu viver, como forma de tributo a todos que perderam sua vida no episódio.

Foto de Scott Lewis: David Filipov olha a foto de seu pai, Al Filipov, no painel-tributo erguido no centro de visitação, em Nova York.
Al Filipov era o piloto do primeiro avião da American Airlines Flight a se chocar contra uma das torres do World Trade Center.



A Música Que Toca Sem Parar:
de George David Weiss e George Douglas e , o canto de paz de Louis Armstrong: What a Wonderful World


I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself what a wonderful world.

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself what a wonderful world.

The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands saying how do you do
They're really saying I love you.

I hear babies cry, I watch them grow
They'll learn much more than I'll never know
And I think to myself what a wonderful world
Yes I think to myself what a wonderful world.

29 comments:

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ said...

/que assim seja,amem/

Beijo

Primeira Pessoa said...

amem!
assim seja, margoh!

abração do

r.

Assis Freitas said...

como cantou o Milton "nada será como antes" embora tudo seja igual sob o sol em Minessota ou em Chorrochó. Nos meus olhos de retinas tão fatigadas, como diria Drummond


abraço

Primeira Pessoa said...

e nuca mais foi o que jamais será, zé de assis.
hoje, por aqui, véspera da data, aquela sensação estranha de que a qualquer momento alguma cois aexplodirá.

doido, né?
o terror atinge o seu alvo.

abração,
r.

Jorge Pimenta said...

e que seja publicada por mais 10, 100 ou 1000 anos; assim teremos sempre a eternidade para recordarmos que o verdadeiro perigo para o homem é o próprio homem. enquanto não entendermos esta triste verdade em toda a sua extensão, jamais nos libertaremos dos onzes de setembro da humanidade.
para ti, em especial, querido amigo, nesta data de simbolismo único, um forte abraço!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
amigo querido...
trata-se de um exercício de exorcismo, quero crer.
rapaz, no dia 14 de outubro vai acontecer o II Encontro da Tertulia Pão de Queijo, em Belo Horizonte.
Uma confraternização de poetas que promete ser especial, e que este ano terá algumas visitas de "fora".
ê, pá! tanto que você podia ir se juntar a nós.... você ia se sentir em casa.... entre os não tertulianos, pedro ramúcio, fernando campanella, marcantonio e daniela dellias.
e o presente da cantoria com renato braz e lula barbosa.

vai querer ou vao correr?

bora lá?

abração do

r.

Ingrid said...

em primeiro vim agradecer tua visita aos meus Perfumes..

a data que hoje relembramos é o marco do egoísmo humano e da perplexidade diante de tudo isso..
deixo aqui meu abraço de bom domingo.

Jorge Pimenta said...

oh, querido amigo, pudesse eu... por essa altura estarei com o ano lectivo a todo o vapor, o que me impossibilita de dar um pulo até mesmo a arganil, quanto mais a belo horizonte :)
vou estando presente através das teclas. não perdi, todavia, a esperança de um dia te ter por cá, em (primeira) pessoa, nesta terra que bem conheces.
um abraço!

MIRZE said...

ROBERTO!

Que texto lindo! O terrorismo é uma barbárie. Mas eles surpreendem. Jamais haverá outro "11 de setembro" como o de 2001, mas eles impõe o medo e fazem com que ninguém esqueça. Os americanos, seguem a mesma rotina. Preparam o mundo para que lembrem sempre como em Hiroshima.

Eu analiso os fatos, e impotente, aprecio seu belo texto e canto a liberdade.

Não há como remediar.

Beijos mano!

Mirze

ETERNA APAIXONADA said...

Aportei pelo tema e me senti em casa! Mineiro reconhece mineiro, em qualquer lugar do mundo!
Parabéns pelos blogs (passei pelo outro, mas vi que lá não tem atualizado... pena)
Irei me tornar seguidora para poder voltar. Me aceita? rsrs
Tenha uma ótima semana!
Abraço
Helô Spitali
Sintonias do Coração

Tania regina Contreiras said...

Acho que, enquanto eu aqui estiver, vou ler a crônica em todos os anos.
Beijos, Beto...

cinha said...

Oi Roberto! Lindas palavras que se perpetuarão como oração na esperança de que futuramente todas as manhãs de Primavera sejam apenas para contemplarmos um céu claro de sol e flores a desabrochar. Um bj carinhoso.

Primeira Pessoa said...

ingrid,

seja mais que bem vinda.
sua presença entre os meus é motivo de alegria.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
irei a portugal vê-lo, não tenha a menor dúvida disto. ficamos para o ano que vem e portugal nunca mais será o mesmo...rs

coloque no seu calendário uma ida ao brasil ou mesmo aqui aso EUA, para retribuir a visita. num canto ou noutro, será um prazer hospedá-lo.

ciceroneá-lo. rs

fazer com que se sinta em casa.

vamos lembrar de você na tertulia, jorgíssimo. saiba disto.

aquele abraço seu, do

roberto.

Primeira Pessoa said...

mirze, querida,
fico observando amigos que admiro nas redes sociais, com um discurso antiamericano que não faz o menor sentido. falam como se a perda de vidas aqui, fosse menor, evocam hiroshima, santiago, para jsutificar.

um erro não justifica o outro. mas a humanidade adora caminhar assim.

abração

r.

Primeira Pessoa said...

helô,
e assim, mineiros e mineiros vão se encontrando pela vida, incorporando, agregando, fazendo as coisas um pouco melhores, quero crer.

seja bem vinda!

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

taninha,
eu te levo comigo por onde eu for.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

oremos juntos, então, cinha.

acho que assim, evocando a palavra da boa, um verso de paz, estamos dando a nossa colaboração pra pacificar esse planeta violento e intolerante em que habitamos.



abração do

roberto.

ETERNA APAIXONADA said...

Obrigada, Roberto! Você é mesmo gentil!

Grande abraço.
Helô

OceanoAzul.Sonhos said...

Magnifica crónica e merecida homenagem. Que a paz se promova e se torne real.

Um abraço
oa.s

Primeira Pessoa said...

oceano,
promovamos, à nossa mameira, esta quase impossível paz.

abraçao,
r.

Primeira Pessoa said...

uai, helô, eu é que tenho a agradecer.

abraço garantido do

roberto.

Michele Santti said...

Adorei. Muito bacana o espaço. Seguindo.

Abraço,

Primeira Pessoa said...

ja fui e ja abanei o rabo, michele.
seja mais que bem vinda!

abraçao do

r.

Concha Rousia said...

Roberto, gostei imenso da tua crónica, me tocou... até porque eu morava em Silver Spring ML, não longe da Casa Branca, e esse dia foi longo, lembro passar o dia olhando para o céu, nunca contara tantos aviões... Mas eu ainda não descobrira o mundo da escrita, e só chorei, chorei e guardei fotos dos jornais, fotos que sei que nunca poderei voltar olhar, só de lembrá-las... choro de novo... Obrigada por lembrar-nos que não podemos esquecer... E que haja sempre pombas brancas no céu.. Abraços desta poeta da Galiza,

Concha

Concha Rousia said...

Silver Spring (MD)... e não ML bj

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, essa tua crônica é uma oração, me arrepia da primeira até a última palavra...

beijos, querido

NãoSouEuéaOutra said...

a história sempre teve estas coisas, mas os homens teimam na sua ladainha. a humanidade sente uma necessidade profundamente baseada na instintividade, que o leva a dominar, se apropriar das coisas e nessa acção, fica cego no seu comportamento!!

um abraço...

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
sabes o que tenho na mão? dois bilhetes de balcão, bem ali a uns 20 metros do palco, para os trovante - 35 anos, no coliseu do porto, dia 04 de novembro, hehehehe (esta risada tem o tom e o timbre da de mefistófeles :)!
um abraço!