Monday, April 23, 2012

Curiango


João-sem-braço, gritam os moleques na rua.

Ele baixa a cabeça – envergonhado  -, come a poeira do chão com os olhos, aquelas duas ilhotas de jabuticaba cercadas de sangue pisado por todos os lados.
Falta-lhe o braço esquerdo. Sobra-lhe arrependimento.
O homem prossegue desequilibrado em sua rota, ziguezagueante, o corpo pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento. É assim todos os dias.
E o nome dele nem é João.

A certidão atesta que Antônio José Dos Santos nasceu num dia de Santo Antônio, em Galiléia, quase na divisa do Espírito Santo.
Daria a saber que  sua família foi subindo à margem direita do Rio Doce, até fincar estaca em Valadares.
O pai morreu novo, afogado, durante uma pescaria, neste mesmo rio. 
Dizem que ele estava bêbado, e que a cachaça corre nas veias da família há várias gerações.
Desde então, Maria Quitéria foi virando aquele  caquinho de mulher, viúva jovem ainda, com a má-sorte amalgamada num barraco de terra batida na encosta do morro, e com um filho para criar.
Trabalhava  em casas de pessoas pouco menos miseráveis do que ela. 
Sabia fazer biscoitos e cozinhar trivialidades.
Lavava, passava, consolava as patroas.
Todas as noites chorava a ausência de seu homem e a única diversão que conhecia era ir à igreja aos domingos, onde passava horas a fio confessando pecados que não eram seus.

Antônio cresceu fazendo bicos.
Escola, ele não teve.
Namorada, não conseguiu.

Ele não havia nascido para o amor. 

Era tão feio, que passou a ser chamado de Curiango, uma ave de plumagem pardo-amarelada finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com fita branca.

Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado  e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
Durante 12 horas por dia ele  moldava telhas do tipo cumbuca e tijolos lajota, que os caminhões levavam e o deixavam pensando que estava ajudando a construir uma cidade. Um país.

No sábado, quando saía da Cerâmica - a pele negra ainda esbranquiçada do pó de argila -, ele encostava o umbigo no balcão da venda do albino Zé Roque e pedia uma branquinha, e um pedaço de chouriço de porco.
E pedia outra dose, e mais outra e outra mais.

Após a décima pinga, Curiango começava a conversar com um amigo imaginário, que ele próprio dizia ser o diabo.
Seus olhos ficavam esbugalhados, o semblante se encarguilhava e ele balbuciava frases incompreensíveis, gesticulando, explicando, fazendo-se se entender e entendendo, maneando a cabeça positiva ou negativamente, conforme a prosa se desenrolava entre os dois.
Os clientes da casa se acostumaram à cena. Havia até quem -  por educação - cumprimentasse os dois.
Foi no balcão daquele vendeirim, que Curiango escutou a estória de um homem que sobreviveu a um atropelamento e nunca mais precisou trabalhar.
    
“A indenização da Vale do Rio Doce foi maior que o prêmio da loteria mineira”, teria sussurrado o diabo.
    
O diabo, aquela má-influência, aquela péssima companhia.
    
Desde que começaram a andar juntos, Curiango não quis mais trabalhar. Só queria saber de beber com o amigo. E, como não tinha mais salário e o diabo anda sempre duro, esmolava por cachaça:
   
-          Ô, me paga uma pinga aí ? – pedia a qualquer um que entrasse no estabelecimento.
Todos os dias, com ou sem dinheiro, chegava na venda logo pela manhã e começava a beber e a falar sozinho.
    
Sozinho, não: com o “companheiro”.


    
Naquele sábado, porém, Curiango chegou desacompanhado.
    
Havia feito a capina de um quintal da Rua Ametista e ganhado o do vício.
   
-   Bota uma branquinha aí, Zé Roque!
    
E mais uma. E mais outra. E outras tantas mais.
   
Olhou para as mãos calejadas e franziu a testa. Duas bolhas haviam arrebentado pelo peso da enxada. E ele foi ficando incomodado.
   
A todo instante, olhava para a porta, mas o amigo não chegava.
Devia ser umas duas horas da tarde, um calor infernal, o sol a pino, quando ele pediu a saideira.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.

Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
       A locomotiva foi se aproximando em altíssima velocidade, crescendo aos olhos, o maquinista perplexo, gritando desesperado, puxando os freios e apitando na esperança de que Curiango saísse daquele transe e se levantasse.
Tudo em vão.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria. 
Diabolicamente, como é de seu feitio.


* Ilustração, "O Escravo - Personagem de Paraty", de Luciano Osório


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33 comments:

Tania regina Contreiras said...

Muito bom, Beto!A fã aqui agradece... :-)

Mas que fiquei pensando no amigo invisível do Curiango, isso fiquei...

Beijos,

Assis Freitas said...

Curiango é du caráleo. me lembrou as encruzilhadas do meu sertão, onde se a gente gritar três o nome do coisa ruim ele aparece com uma boa proposta e um enredo de prosa.


grande abraço

Juliana Vinagre said...

Olha só... um conto cheio de coincidências...
Curianga-da-madrugada foi meu apelido durante anos na minha família e Zé Roque um tio-avô tocador de violão e bandolim...
Gostei demais. História sensível, forte...
Quantos curiangos por aí a sofrer e se amigar com o coisa ruim por falta de companhia melhor...
Beijo grande
Diubs

Iara Maria Carvalho said...

uma das "coisas" mais intrigantes que li nos últimos tempos... parece que eu vejo Curiango aqui, saindo preto e branco da cerâmica da minha cidade, oferecendo uma dose de loucura ao diabo que há em cada um de nós.
me deu uma vontadezona de escrever, é bom ler e sentir o desejo do desdobramento.
beijosss

Janice Adja said...

Quantos João's existem? Poucos. João sem braço são infinitos. A ignorância e a falta de oportunidade toma conta das pessoas como um diabinho de braços aberto esperando outro diabinho igual ou pior.
Adorei seu texto.
Beijos!

Cristiano Marcell said...

Muito bem escrito meu caro! Parabéns!

P.S.: A história é bastante sinistra!!!

Primeira Pessoa said...

é um pouco sinistra, sim, cristiano.
mas só 90% é inventado...rs

grande abraço do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

somos tantos joões, janice, que falta diabo para fazer pacto ruim.

o diabo, o coisa ruim (como diz o assis) está sempre de braços e portas abertas...

eu não acredito em diabo, mas tenho muito medo dele... rs

abração do

r.

Andrea de Godoy Neto said...

beto, como eu já havia te dito, o conto ficou maravilhoso!

a prosa é boa, envolvente, permite enxergar o curiango por fora e por dentro...

quanto ao coisa ruim... há sempre um diabo por perto, a sorrir em cada esquina, a cada tropeço, na porta de cada tristeza profunda... mas, para cada um deles há um anjo que que nos guarda. Basta saber a qual deles pediremos colo.

beijo

rosa-branca said...

Olá amigo, uma história de vida bem triste. Felizmente que não há muitos Curiangos por aí. Beijos com carinho

Lara Amaral said...

Gostei muito, Roberto. Tem aquele ar que nos leva a um tempo paralelo. Envolvente história. Estou adorando seus contos, continue!

Beijo.

Primeira Pessoa said...

larinha,
contos de aprendiz, como diria drummond.
esse diletante da palavra sofre com carências, tentando resolver tudo na base da intuição...

beijo do tio

roberto.

Primeira Pessoa said...

rosa-branca,
curiango existiu. existem milhões de curiangos.
o diabo anda à solta.
é preciso cuidado.

abração do roberto.

Primeira Pessoa said...

dea,
fico feliz que tenha gostado.
eu tava pensando no outro dia que voce, tania, assis e jorge pimenta são pessoas que acompanharam o nascimento deste blog e acabaram se tornando amigos pra toda a vida.
sempre que escrevo um texto, eu me lembro de vocês. e aí fico naquela enorme vontade de compartilhar.

vocês são muito importantes pra mim.

beijo grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

Iara,
pois acho que deve escrever, sim. porque acho que escreve muito bem. sempore gostei.
uma das primeiras coisas que vi e apreciei neste reino blogosférico, foram as suas janelas (a de poesia e a de prosa).
e aí, quando cê ficou um pouco afastada, senti a sua falta, claro.
eu era novo "nisto aqui" e me senti revigorado pelas coisas que você, o wilson nanini, a nina rizzi e outros jovens faziam (e fazem).

eu continuo bebendo na fonte da juventude e inquietude que vocês, jovens de talento, trazem à minha mesa.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

Diubs, minha manucha, cê já viu um curiango?
acho que, de curianga, cê só mesmo tem os hábitos noturnos... não que eu seja um expert, afinal,
eu só vi o curiango em fotografia, no "guga" e na "wikipedia"... mesmo assim, posso garantir... ele, o curiango, é uma corujinha que não deu muito certo...

putz... zé roque, seu tio... esqueci que, pra uma parte da sua família, todo dia, é dia de roque...rs


beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

zé de assis,

cê fala nisso e logo me vem à memória a cantiga "O Pidido", de Elomar...
(...)Ah! Pois sim, vê se não esquece
D'inda nessa lua cheia
Nós vai brincar na quermesse
Lá no riacho d'areia
Na casa daquele homem,
Feiticeiro curador
O dia inteiro é homem
Filho de Nosso Senhor
Mas dispois da meia noite
É lobisomem comedor
Dos pagão que as mãe esqueceu
Do Batismo salvador
E tem mais dois garrafão
Com dois canguim responsador

(...)

beijão, zé de assis.

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
eu tenho medo, juro procê...
não que eu acredite nessas coisas..rs

quando cê gosta, fico achando que cumpri meu papel.

beijão,

r.

Daniela Delias said...

Coisa boa é esse conto sobre o Coisa Ruim. Teus contos estão demais, Beto...

Beijo

Dario B. said...

Robertim, quantas vezes não nos pegamos falando sozinhos? Sozinhos?

Primeira Pessoa said...

Dario,
mais do que estarmos falando sozinhos, estamos passando grande parte da vida nos sendo, sozinhos.

a solidão convivida é cruel.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

uai, Dani...
cê não sabe o quanto me alegro, quando voce gosta de um texto meu.

mesmo que seja "coisa ruim"...rs

beijão.

r.

Mary said...

Primeira vez aqui, fiquei maravilhada!! Parabéns.
Bjs

Primeira Pessoa said...

fico feliz que tenha gostado, mary...

seja sempre bem-vinda.

abração do

roberto.

Marli Boldori said...

Quantos curiangos estão a nos espreitar,quantos amigos invisíveis temos que arranjar para podermos viver sem precisar pensar....O diabo aparece sempre na forma que nos damos a ele.Tudo é difícil,quando só nos resta o tal amigo imaginário.Um abraço!

Bípede Falante said...

Robertíssimo, você sabe com quantos contos se faz um livro?
Dez, doze, e a gente já sai correndo pra comprar.
Eu não tenho medo dos Curiangos perdidos por aí.
Tenho dos que se esconde atrás da linhas, das palavras, dos desejos de cada verbo, principalmente, dos que se calam e que, de tão calados, nos fazem duvidar dos sons que ouvimos.
Seu conto tem uma boa história. E sua escrita, uma melhor ainda. Escrita de movimentar o Curiango de cada um, pro bem e pro mal e pra onde mais o diabo quiser ir :)
Parabéns!
Siga em frente que é pra frente que se anda, ainda que a gente escreva em linhas horizontais.
Qualquer dia, viro oriental e começo a escrever de cima pra baixo, de baixo pra cima rsrs
beijoss

Primeira Pessoa said...

bipedíssima.
vou pesquisar com quantos contos se constrói um livro.
o fato (e fato nào é boato) é que sou diletante da palavra e ainda estou começando nassa estrada.
Tô com dois contim na algibeira e a água ainda nem chegou nas canelas.

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

marli,
o diabo aparece de tantas formas... e Deus, também.

acho que o homem (e a mulher) está sempre na metade do caminho, ao alcance de qualquer das mãos.

abração do

roberto.

Eduardo Murta said...

Ei, Roberto Lima, gosto muito da sua escrita, irmão. É um personagem e tanto esse Curiango. Ressuscitado, daria um romance. Que tal?
Abraço do Murta

Primeira Pessoa said...

Eduardo,
o curiango espichado, daria, um tantão de coisa. isto de escrever contos é um exercício novo pra mim... e to aprendendo no serviço... tomara que eu aprenda de forma satisfatória, porque é um lance gostoso de fazer. curiango é apenas o meu segundo conto.

vou anotar sua idéia.

abraçao do

roberto.

Luciana Marinho said...

roberto, uma das melhores poesias da vida que li por aqui. minha alma gritou para além dos "joãos".

"pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento"

belo!

beijos.

Primeira Pessoa said...

luciana,
esse gênero é novidade pra mim. "cometi" meu segundo conto em menos de um mês e tive uma sensação muito gostosa.
e essa semana quero ver se cometo outro.


quero só ver se não é fogo de palha.

quero só ver.

beijão,
r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Beto,
Se a cerâmica não for Ibituruna, mudo de ramo, de ramos. Gostei muito, como havia gostado do flamboyant, como gosto sempre da sua escrita sempre certa, inda que às vezes o certo seja torto, e vice-versa...
Sou seu fã, e não vou ficar aqui elogiando demais, ademais seu curiango tá redondo, e outubro tá chegando e espero ser convidado pra festança...
Mas deixe de modéstia que o contista veio pra ficar, mais uma faceta do grande cara que você é...

Abraço, da rama.