Saturday, April 28, 2012

Nas asas de um vento

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Eu sempre adorei as frases de para-choques de caminhão.
Vejo tanta poesia nelas.
Vejo tanto.
Vejo bom humor, religiosidade, sabedoria, paixão pela vida e por uma profissão que nem sempre é apreciada e bem vista pela sociedade.
Os caminhoneiros cortam o país de norte a sul o ano inteiro, de noite e de dia, para que não falte comida nas nossas mesas, para que o progresso se alastre e  a integração  nacional seja consumada.
O caminhoneiro diz muito de si na frase que adota para apresentar o seu caminhão aos passantes.
A frase de para-choque é uma espécie de cartão de visitas.
Pela frase, dá para saber um bom bocado da personalidade do motorista .
Dá pra saber se ele é religioso, romântico, edipiano, se é ligado na família ou se é um bon-vivant.
Abundam as frases religiosas, trechos de música do cancioneiro popular romântico e aquelas que professavam o amor por uma mulher , pela mãe ou pelos filhos.
O algoz do caminhoneiro é quase sempre a sogra, o guarda rodoviário, o banco detentor das duplicatas de pagamento do veículo, ou colegas ruins de volante.
O caminhoneiro é amigo de Jesus Cristo e São Cristovão.
E de Nossa Senhora Aprecida, padroeira do Brasil.
Foi nas placas das Mercedes 11-13 e 15-19, nos fenemês e nos Scania Vabis que eu aprendi que Caçador e Rio Negrinho ficavam em Santa Catarina; que Arcoverde e Caruaru existiam em Pernambuco e que Vacaria, Bagé, Pelotas e Novo Hamburgo não eram paisagens de um outro país.
Descobri que em São Bernardo do Campo fabricavam carros.
E que em Santa Catarina congelavam aves.
Eu aprendia geografia nas placas dos caminhões, e descobria a diversidade do povo de meu país.
Naqueles caminhões vinham morenos e índios do norte e nordeste.
E louros que vinham do sul.
Os que vinham do norte traziam na fala a melodia de um baião.
Traziam o cheiro do mar da praia de Iracema, a secura do Cariri e o perfume de um acarajé.
Traziam caminhões abarrotados de abacaxi, mangas das margens do São Francisco e uma fé em Padre Cícero Romão.
Os que vinham do sul traziam automóveis na barriga dos caminhões-cegonha.
Traziam peças gigantescas feitas de aço e ferro.
Traziam aves e bois e porcos congelados em baús frigoríficos.
Traziam um sotaque diferente, fandangos, chulas e polcas.
Traziam erres e esses.
Traziam vírgulas.
Traziam um que de que já haviam visto neve e que nem eram de lá, do sul do meu país.
E eu, rapazote, naquele entrocamento de tantos Brasis e de mim próprio, era um menino que não sabia para onde ir.
Se ia ou se ficava, era o vento que balançava a minha sorte.
Se para o norte ou para o sul, para algum lugar uma parte de mim já havia partido.
Para o sul ou para o norte, foi o vento que me levou.

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31 comments:

ღα૨gѳђ ખ૯૨ท૯૮ઝܟ said...

somos eternamente jovens enquanto sonhamos e irresistíveis enquanto acreditamos.

feliz dia de sábado.

beijo

Primeira Pessoa said...

"os sonhos não envelhecem", já disse márcio borges naquela letra que ganharia uma melodia para se vestir.

é tudo verdade, margoh.
absolutamente tudo.


abração do

roberto.

OutrosEncantos said...

tenho saudade de você, caminhoeiro das letras e dos sentires bonitos.
adorei essa estrada onde acabei de caminhar.

beijo, Pessoa.

Primeira Pessoa said...

uai, cê andava sumida do blog, moça dos OutrosEncantos.
é bom vê-la novamente por aqui.
e, assim como antes, aqui nesse minifúndio de afetos você tem cadeira cativa entre os meus.

abração do

roberto.

Gisa said...

Sonhos, saudades, imagens. Se os temos cuidemos, são preciosos.
Um grande bj e bom final de semana

Iara Maria Carvalho said...

estradeiros, sotaques de um brasil inteiro.
tantas curvas e chuvas no caminho, que tropeçam palavras, letreiros que carregam o que há de ser nosso, o que somos nós.
suas curvas são intrigantes, rapaz!
um beijo aqui do nordeste!

Tania regina Contreiras said...

POETA. É o que tu é. Tem aquela embriaguez no olhar que faz tudo ficar bonito e acaba por nos fazer também olhar com encantamento. Bom te ler sempre. Emoção de verdade? A gen te vê por aqui...plim-plim! rs
Beijos,

Primeira Pessoa said...

taninha,
passei os três ultimos anos de minha vida escrevendo pra voce, pra dea e pro da rama....

não fossem vocês, eu estaria noutro ramo de atividade.
preciso dizer mais?


beijão,

r.

Daniela Delias said...

Falou bonito, com cheiro de mar,melodias de baião, erres e esses.

Depois de ler dá vontade da gente se perder na estrada, bem assim: talvez sul, talvez norte, pra onde o vento levar.

Bjo

Primeira Pessoa said...

Iara,
você, que faz de currais novos uma janela pro mundo...
eu nem sei o que dizer.
gosto do sotaque potiguar.
gosto de zila mamede, de terezinha de jesus cantando "vento nordeste"...
e de pedrinho mendes cantando "esquina do continente"


tenho vários ossos potiguares em mim.

beijão do

r.

Índigo said...

En las alas del viento que van tejiendo tus palabras, me dejo mecer... nunca pensé poetizar a los camioneros pero tú, con tus crónicas, poetizas la vida y nos la entregas, aún más bella de lo que ya es. Ya sabes que siempre me emociono cuando paso por tu casita en el aire... ¡no puede ser de otra manera con la forma lírica y hermosa en que escribes! Un abrazo grande y añil, Roberto.

Janice Adja said...

Poesia!!!Vejo também literatura de cordel. Acho que eles estão sempre na estrada para que não falte comida na mesa dele e dos seus.
Que bom aprendeu parte da geografia do nosso país nas placas. Se os professores das Quintas séries fossem mais práticos os alunos aprenderiam com mais rapidez.
Beijos!

Primeira Pessoa said...

Janice,
que pena que não pensei no cordel.... grande sacada....
mas vou adicionar, para uma futura publicação num outro lugar. ótima dica.

grande abraço.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
amiga querida que azuleja o dia com muita poesia... cada vez que você vem aqui, é um privilégio.

abraço grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

dani,
cê que gosta de blues, sabia que musicalmente o baião e o blues são irmãos?

musicalmente, a divisão é a mesma.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

gisa,
nossa memória é um relicário.
é só cutucar, que sai coisa boa de lá.
abração do

roberto.

Bípede Falante said...

R.
Nas asas das suas linhas pouso minhas lembranças e volto para as estradas, para as curvas lá da serra em que caminhões nos ensinavam a arte da espera e pontuavam quantos abismos e quilômetros temos de contornar e percorrer pela vida.
Sou super hiper tri fã da sua escrita.
Escrita que atinge de A a Z. Simples como nós. Complexa como nós.
Escrita que nos embarca, carrega e transporta pra vida.
Bom domingo pra você :)
Beijos
BF

Luciana Marinho said...

as palavras levam mundos... e é tão bom encontrar a vida de tantos mundos por aqui.

beijão, roberto!

Primeira Pessoa said...

luciana,
é tão bom encontrar pessoas que gosto aqui.
é bom te encontrar aqui, entre os meus.

você, que é lá de cima, no meu imaginário. na minha cabeça, recife ficava depois do japão.

beijo grande,

r.

Primeira Pessoa said...

bípede,
por ser montanhês, essa imagem de abismo, lá em baixo, sempre foi uma constante em minha vida e tive que aprender a caminhar com cuidado. e,pelo que cê fala, o lugar de onde vem é também cheio de serras e vales, de névoas e nuvens, e precipícios e de gentes tão iguais a nós próprios.
lá em cima, eu sei, nos sentimos tocando as nuvens com as mãos e mais perto de Deus.
e Deus se manifesta em tanta coisa boa... nessa casa ampla, cheia de paredes enfeitadas e janelas largas, nesse fogão à lenha, nessa mesa de madeira de lei, nessa vista que vai muito além do que o olhar alcança, nesse lugar futuro...

nesse lugar que é a raiz de tudo e se trsnpõe, para um outro tempo, para um outro lugar, um estado de espírito.

sua presença aqui?
sempre um presente.

beijão do

r.

LauraAlberto said...

grande Roberto

tu tens magia no teu olhar e leva-la para a tua escrita
é tão bom viajar contigo

Beijo

[aqui não se usa essas placas, a minha distracção é arranjar palavras para as letras das placas, se eu vir uma RR, já sei quem é]

LauraAlberto said...

perdão, RL

rssss

Primeira Pessoa said...

lauríssima,
um RR será Roberto Rima...rs
se for a RL, será Roberto Lento...

nessa viagem, querida LA (ou seria RM?) o que conta mesmo é a companhia ao lado do condutor.

com a presença dos amigos, a jornada é mais branda, mais agradável, mais linda, certamente.

abração do
Roberto.

Andrea de Godoy Neto said...

beto, nesta boniteza de lembrança posso ver os caminhões aqui, colorindo a estrada que serpenteia serra abaixo,,, com seus erres e esses (a mais ou a menos...dependendo da região)

e isso tudo fica sempre tão bonito nas tuas palavras...

um beijo
dea

Primeira Pessoa said...

Aproveitei a crônica para homenagear meus amigos queridos do sul e do norte e confundi caxias e novo hamburgo. mesmo assim,
sinta-se homenageada também, Dea.
vocês são uns queridos e, sem vocês, eu não teria estímulo pra continaur neste ofício.


beijão do

r.

gagau said...

Brodinha,é muito bom ler teus escritos definiu bem esta profissão tão importante pra um pais mas,tão pouco valorizada.bjs no teu coração
GAGAU

Bípede Falante said...

R.
Troca lá por Caxias, ora estradas!!
Deixa Novo Hamburgo pra trás.
Beijoss
BF

Primeira Pessoa said...

bípede,
mesmo se eu não trocar (o que farei), consideremos trocados novo hamburgo por caxias... se bem que, tinha uma frota de novo hamburgo e eu virei useiro e veseiro (isso se escreverá assim?) das caronas para a bahia.
to tentando me lembrar do nome da empresa e pode ser que ainda exista. e ela era de novo hamburgo. disto eu tenho a certeza.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

gagau,
você que já foi um e que quase deu a vida pela profissão, sabe exatamente do que estou falando.
e, o melhor de tudo, durante algum tempo você transportou cerveja, uma das coisas que eu mais gosto nessa vida...rs


beijão do seu brodinha lá do san remo, aquele fio do lima soldado, esse

r.

Cecília Romeu said...

Roberto!
Que legal!
Lembra daquele papo que tivemos sobre as faixas de caminhão?
Então está aqui a crônica, muito tri.
Repleta de sentimentos e verdades, como estas estradas Brasilzão afora!

Quanto a imagem: "nas curvas da tua estrada, capotei meu coração"

Corrigindo: na verdade é..."nas curvas do teu corpo, capotei meu coração".

Beijos de até!

Primeira Pessoa said...

a cronica é antiga, cecilia, e é reminiscência do tempo em que trabalhei, adolescente ainda, em um posto de gasolina da minha cidade.

os caminhoneiros vinham de pontos diferentes do brasil e eram, pra mim, todos ele, uma espécie de estrangeiros.

eu achava que a vida, no lugar de onde vinham, era muito melhor do que ali, onde eu existia.

abração do

roberto.