Thursday, April 12, 2012

Das coisas simples da vida


Algum dos leitores combinou - em priscas eras - “Capadinho à Meia” com algum amiguinho ou amiguinha na escola?
Tudo bem.
Não vou forçar a barra.
Só quem é do interior e já “trintou“ nesta vida, irá saber do que estou falando.
Capadinho à Meia visava copiar, à moda dos meninos, o tratado que os adultos tinham de criar porcos à meia.
Na versão adulta, funcionava assim:
A porca do senhor José paria seus leitões e esses leitões eram levados para a casa do senhor João.
Este, por sua vez, “capava” os suínos para que tivessem uma engorda mais rápida. Cabia a ele criá-los.
Era sua total responsabilidade alimentá-los, curá-los de eventuais doenças até que alcançassem o peso ideal. Uma vez “no ponto”, os animais eram vendidos ou abatidos.
No primeiro caso, cada um levava a metade do dinheiro obtido.
No segundo caso, cada sócio ficava com uma banda do bicho.
Entre as crianças, o contrato referia-se ao lanche do recreio na escola.
O “compadre” que escutasse o seu par dizer “Capadinho à Meia”, deveria, imediatamente e sem reclamar, repartir ao meio, a merenda.
Esquisito, né?
Nem tanto.
Estranho mesmo era, no início da juventude, a carteirinha de sapo, uma cartolina impressa em tipografia, contendo os seguintes dizeres:
“O portador deste documento tem direito de roubar fruta no pé, dar palpite em jogo de sinuca, omitir durante a confissão, filar cigarro dos amigos e xingar juiz em partida de futebol”.
E os apelidos do interior?
Impagáveis, todos eles.
Melhor mesmo, só alguns nomes.
O humorista Chico Anysio, por exemplo, jurava que o meio campo do seu time de coração, o Ferroviário do Ceará, era composto por Redondo, Peru e Cacetão.
No Ibituruna de São Raimundo tínhamos Fubica, Piriá, Pilão, Caieira e o treinador Pé-Chato, todos apelidos.
Tinha também Atanagiba, Aristeu e Docival, do jeitinho que atestavam suas respectivas certidões de nascimento.
Nos botequins do bairro, duplas engraçadas como Almir Boca-Rosa e Walmir Tanguinha, parceiros de sinuca.
No salão de dança tinha Jandira Tanajura e Maria Cobrinha, especialistas em forró.
Registre-se na lista os amedrontadores Pedrinho Capeta, Cláudio Saci e Antônio “Lubizôme’.
Não posso me esquecer dos “insetos” Formigão e Muriçoca. Nem dos “pacíficos” Marcos Pombinha e Antenor Calça-Frouxa.
Tinha também os pouco atraentes Antõin Curiango e Reginaldo Caburé.
Na zona boêmia, Rita Cafubira e Adelaide Copo-Sujo.
A namorada de meu amigo Paulo Canjiquinha atendia pela alcunha de Beth Arrebenta-Beiço.
Tudo porque abrira com um golpe de cotovelo, a boca de um bêbado que tentou agarrá-la na saída de um baile no clube San Remo.
Meu padrinho se chamava Deobaldino.
Sua esposa era Sidonília.
No meio de tanta espirituosidade, nenhum caso é tão pitoresco como o dos inapartáveis José e Sebastião.
José de Arimatéia Santos era negro, tão reluzente, que caiu nas graças do povo como Zé Cromado.
Seu grande amigo Sebastião Soares Pollozi, era o único albino dos sete irmãos.
Na infância era chamado de ‘Vermêio’ e Cabelo-de-Fogo. Na juventude, ganhou o definitivo Tião ‘Fuliado’.
Eles queriam dizer que ele era “folheado a ouro”.
É bom deixar claro que Zé Cromado e Tião ‘Fuliado’, eram “atrelados” desde meninos, mas tinham lá suas diferenças.
Um era atleticano, o outro cruzeirense.
Um era MDB, o outro ARENA.
Um era seresteiro.
O outro só falava em samba.
Ambos trabalhavam na cerâmica e eram compadres no batismo de seus filhos.
Cromado e Fuliado devem andar por lá até hoje.
Trocando farpas durante o carteado ou pescando no rio, discordando no futebol e na política, mas inseparáveis como dois siameses gerados fora da genética, através desta maravilha não-científica chamada amizade.


.

34 comments:

gagau said...

O legal das tuas crônicas é que de uma forma inteligente,"é claro", e doce,leve vc vem nos alertar deixando bem evidente tamanha é a imporância nesta pérola chamada amizade,conheci a maioria senão todos as pessoas acima supramencinadas que mesmo com suas diferenças "AMIGOS PARA SEMPRE"
bjs no teu coração broda,E O MELHOR DO MEUS PENSAMENTOS !
GAGAU

Sónia M. said...

Este é dos textos que mais gosto de ler pela manhã. Acabei por o ler sempre com um sorriso na cara.
Obrigada por ele. Adorei!
Beijo
Sónia

Assis Freitas said...

amizade é mesmo um bicho estranho, tem um coligado chamado Pequeno que discorda de tudo, mesmo que seja um fato irrefutável ele contesta e argumenta, e a gente adora porque é amigo,


abraço

Lauriane said...

Olá... venho aqui comunicar que o meu blog está passando por mudanças, a começar pelo nome, que agora é "top-plusmusic" e vem com uma proposta diferente!! Passe por lá!! =)

Nelma. said...

Olá boa noite!Estou fazendo uma visita,para desejar á vc um ótimo fim de semana
Beijos.

Nicast said...

o não-científico, que dá nome diferentes, em cada localidade.Lá no Paraná, dizíamos: "metadinha", e o lanche era repartido. São coisas que marcam e aproximam as pessoas.
abço.

líria porto said...

gosto destas crônicas de tempos idos, beto! gosto muito!!!

Primeira Pessoa said...

lírica,
quando cê gosta de alguma coisa que rabisco, eu me sinto validado.

cê acende um sorriso de satisfação em mim.

besos e quesos....

r.

Primeira Pessoa said...

nicast,
é a mais pura verdade. nosso país é tão vasto, e existem tamtos brasis nesse nosso grandão.'
um caso curioso é o da tangerina, que é bergamota num lugar, mimosa no outro, mandarina noutro, e mexerica, no meu.

seja bem-vinda ao bloguim.
abração do

r.

Primeira Pessoa said...

nelma,
muito grato pela visita.
e que seu final de semana seja igualmente bom.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

xá comigo, lauriané.
visitarei!

abs,

r.

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
aos poucos vou conhecendo sua fauna... já gosto dos caras...
o papa-capim, por exemplo, virou comensal da minha imaginação.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

gagau,
no outro dia eu falava pra uma pessoa sobre o bar do seu pai. to arrumando um jeito de resgatar o picolé de coalhada do bar chave de ouro.
abração,

r.

Primeira Pessoa said...

sónia,
a crônica traz essa leveza, esse descompromisso...
fico feliz que tenha gostado.

abração,

r.

Bípede Falante said...

Das coisas simples da vida não abro mão!
beijoss :)

Jorge Pimenta said...

todas as diferenças se esbatem no verdadeiro aferidor dos homens: o coração.

ri a riso solto com alguns dos nomes que enumeras, robertílimo. por cá também temos as nossas pérolas, mas nada que se compare com essa salada de fruta linguístico-cultural que o imenso brasil nos oferece.

abraço!

ei, se com saudades de braga, dá uma espreitadela aqui: http://www.paulocheng.com/2012/04/turismo-com-jorge-pimenta.html#more

p.s. ontem lá conquistámos a taça da liga, provavelmente o único caneco que levantamos este ano...

Daniela Delias said...

Cromado e Fuliado rs...

Os nomes são um espetáculo à parte. A crônica? Uma boniteza.

Bjo

Primeira Pessoa said...

é bem minas gerais, davi...
os apelidos são muito curiosos e inspirados.

grato pela leitura.
e pelo carinho que sempre tem comigo.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
uma taça é sempre uma taça.
mas não entendo a amarelada que o nosso benfica deu na reta final. assim, fica fácil pros dragões e, digamos que o nosso luisão pisou na bola contra os leões... (tudo do aumentativo).... fazer penalti e ainda ser expulso???

gostei não.


saciando a saudade de braga é uma forma de estar mais perto de você.
vou ver bem de pertinho.

abraç~~ao do seu amigo

roberto.

Primeira Pessoa said...

não abra mão, bípede.
nunca abra mão.

as coisas simples são, por increça que parível, as mais sofisticadas.

a profundidade mora no raso e está ao alcance do olhar.


beijão do

r.

Rossana Masiero said...

Eu que sou nascida em Piquete, cidade encravadinha na Mantiqueira, enconstadinha em Minas Gerais, sei bem do que está falando, Roberto.

A simplicidade tem uma beleza que está difícil encontrar por esses tempos.

Adorei.
Bjcas

Rossana

Fátima said...

Oi Roberto,
Que lindo! Sou do interior do Paraná enquanto lia tua crônica, ia me lembrando dos "personagens" da minha infância e sues apelidos, não menos curiosos. Deu saudade da simplicidade, me pôs riso nos lábios.

Beijo meu

Maria Célia said...

Roberto,
Você me fez lembrar um trecho da poesia de Casimiro de Abreu, “Meus oito anos”, na qual o saudosismo da infância é expresso:
“Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
Ele ficou conhecido como poeta do Romantismo porque tem características na linguagem que o aproximam da fala popular.
Bom ler você; um romântico.
Maria Célia do blog:http://milagresdamariacelia.blogspot.com/

Juliana Vinagre said...

Manim,

Sua crônica me deu uma saudade danada de Minas Gerais... e me fez lembrar do vendedor do melhor chup-chup das bandas de Coronel Fabriciano que por ter um pescoço, de certa forma, modesto, ganhou o apelido carinhoso de Zé "piscucim"...

Beijo com saudades
Diubs

rosa-branca said...

Olá amigo, as coisas simples da vida são as mais belas e as mais sãs. Adorei o seu texto. Beijos com carinho

Cecília Romeu said...

Roberto,
página curtida, agora vim ler e comentar.

Adorei o jeito que você escreve, muito espontâneo, tri-legal tchê!, com sotaque mineirinho!

Lembrei do nome de três jogadores, será que você já ouviu falar? Reco-reco, bolão e azeitona.
ai... me deu acesso de riso *-*
...
Bah, mas só de nome de jogadores de futebol tem uma penca... até me "subiu a naftalina" como dizia o grande Jardel que jogava no meu Imortal Grêmio! (cada gol de cabeça, garoto..., nossa!)
Beijos, inté!

Primeira Pessoa said...

cecilia,
lembro de reco-reco, bolão e azeitona. acho que habitavam a mesma piada de chico anysio.
o jardel, grande artilheiro do gremio (do vasco e do sporting, de portugal) deixou trocentas estórias maravilhosas.
um dia destes, vou revisitá-lo.

beijão do

roberto,

Primeira Pessoa said...

rosa-branca,
as coisas simples são as essenciais.

abraço grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

manucha,
zé piscucim poderia ter nascido em são raimundo... teria feito sucesso por lá.

to com muitas saudades.
precisamos botar a prosa em dia.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

maria célia,
obrigado pela visita e pelas palavras carinhosas.
faça deste espaço um pouco.
sinta-se em casa, aqui, ao lado dos meus.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

fátima,
esse laço comum a todos os interioranas faz com que achemos graça e beleza nas mesmas coisas, e chorarmos pelos mesmos motivos.

é uma alegria recebê-la aqui.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

rossana,
por pouco você não nasceu mineirinha.
são paulo iria morrer de inveja de "nóis"... rs

beijo grande do

r.

Anjinho said...

Olá, tudo bem?
Gostei do blog e achei muito bacana o texto...eu sou da capital de SP, mas essas coisas de interior, faz lembrar de coisas da infância...e falar em amizade é algo super importante, porque ela é uma das raridades que nos foi ensinada e que muitos não dão o devido valor.
Estou seguindo o blog...
Abraço e até mais...

http://tudodoanjo.blogspot.com.br

Primeira Pessoa said...

fico feliz que tenha gostado do texto, anjinho.

retribuirei a visita, sim.
xá comigo.

grande abraço do roberto.