Tuesday, September 11, 2012


No dia 11 de Setembro



Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Ela molhará seus cabelos grisalhos nas águas do riacho, e sentirá escorrendo por seu rosto uma alfazema límpida e confortante.
Tranquila, entenderá perfeitamente a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale bonito, verdejante, e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.
No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto, carros, buzina e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada rua londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos chilenos.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim. Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Ariel Sharon receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.




.

22 comments:

Tania regina Contreiras said...

Letras feitas de pura emoção, Beto. Impossível não me repetir e dizer que você escreve evocando o melhor de nós outros que o lemos. E dá vontade de ser bem melhor do que somos, sempre.
Pois é: mais um 11 de setembro que será sempre o mesmo, na memória de quem o viveu.
Beijos,

Irineu Magalhães said...

Emocionante... mas...

Você lembra a data em que milhões de judeus foram mortos nas câmaras de gás na Alemanha?
Você lembra a data da destruição das cidades de Hiroshima e Nagazaki?

Você lembra quando a última metralhadora, o último tanque calou-se na segunda guerra?

Você lembra quando surgiram os primeiros artistas, as primeiras canções, os primeiros do movimento beatnik e hippies pedindo paz no mundo?

Você sabe quantos civis, soldados vietnamitas, cambojanos, asiáticos e americanos morreram na guerra do Vietnã?

Você lembra quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em busca de armas atômicas?

Você sabe quantas pessoas morrem na África vítimas da fome todos os anos?

Você sabe por que os Estados Unidos nunca pararam de fabricar e comercializar armas em todo o mundo inclusive para os próprios africanos?

Você lembra a data em que milhares de americanos morreram sob ataques terroristas em seu próprio solo?

Por que você lembra essa data? Ela não é tão importante como quaisquer outras datas que marcaram o mundo?

Por que você só lembra essa?

Sinto amigo, algo o infectou... o vírus da mente.

Irineu Magalhães

Dois Rios said...

Quisera fosse essa a verdadeira fotografia dos "onzes" e de todos os dias do calendário. Quisera não soubéssemos que que o ódio, a loucura, o fanatismo ou seja lá o que for em nome de Alá, não nos deixasse na memória uma cena semelhante a um negativo de foto, que mesmo diante da claridade, nos impossibilita identificar o "contorno" das sombras.
Em contrapartida, tenho na minha vida um 11 de setembro marcado, somente, por explosões de amor e alegria: O nascimento da minha filha.

Beijo, menino!
I.

Primeira Pessoa said...

taninha, eu vi a queda das torres. ninguém me contou. vi a fumaça nos ares.
vi o poeirão.

só comemora uma situação como esta quem se desanexou da realidade e foi viver no ódio.

saudades de você, mana.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

inês,
um dos grandes baratos desta vida é que sempre teremos um bom motivo para sorrir, um motivo para brindar e ser feliz.
viva o 11 de setembro, viva o nascimento de sua filha e de tantos outros acontecimentos bons!

beijo grande do roberto.

Primeira Pessoa said...

Irineu,
um erro não justifica o outro, dois erros não redundam em um acerto.
digo não a tudo o que você mencionou e digo não a muito mais.
a minha canção é uma canção de paz, meu amigo.

abração do
roberto.


ps: esta crônica foi escrita um ano após aquele 11 de Setembro dos ataques ao World Trade Center. E eu me lembro bem porque estava aqui nos EUAA, porque testemunhei bem de pertinho e porque até hoje dói em mim (perdi amigos lá).
o 11 de setembro é, portanto, o meu holocausto, minha nagazaki e hiroshima numa só...
é também a minha candelária, é minha guerra do paraguai, é meu carandiru e é a cidade de Deus...
é a minha dor de lesado pelo juiz nicolau dos santos neto e todos os outros lalaus que exterminam a dignidade do povo brasileiro com a violência da falcatrua, a boimba suja da corrupção...
mesmo assim, amigo, reitero, a minha canção é de paz.

Luciana Marinho said...

sinto vontade de silenciar. cada atrocidade é a repetição de todas as outras.

abração, roberto.

Primeira Pessoa said...

disse-o muitíssimo bem, luciana.
o silêncio mais dolorido.

Tati said...

Um wishlist e tanto, Roberto. Assino embaixo! Amém.
Abração

Luiza Maciel Nogueira said...

Sonho muit[issimo bom, quero sonhar junto contigo por esse mundo das pombas, da paz :)

beijo grande

Índigo said...

Y pese a todo, la luz. Siempre la luz, Roberto. Un abrazo enorme y añil para ti.

Adri Aleixo said...

Nesse dia eu tava tão buchudinha, meu Edu tava quase nascendo...
Esse dia muito me marcou, Beto!
Que bom que trouxestes as pombas e a tua amizade, sempre!!!

Beijo!Beijo!Beijo!

Primeira Pessoa said...

adriana,

nascem crianças perfeitas em dias de acontecimentos ruins no mundo dos adultos feios.
cada dia é um dia.
mas todo dia é dia.
e a gente precisa aprender a virar as páginas, escrevendo sempre, no papel em branco da luz que descortina as manhãs, uma história melhor para todos nós.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
minha crônica chegou à andaluzia.
você viu?

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

sonhemos juntos, luiza...
façamos uma corrente branca e pura com esse sonho bom.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

tati,
acho que desejar o bem é uma ferramenta eficaz na luta diária de se construir um lugar melhor para as próximas gerações.
que fique pelo menos o bom exemplo, eu conclamarei...

abração do

r.

Lídia Borges said...


Belíssimo! Um hino à Paz entre os povos, hoje, e sempre.

Um beijo

Primeira Pessoa said...

muito
grato pelo carinho de sempre, lidia.

abração do
roberto.

Verso Aberto said...

Beto, meu irmão

uma manhã de noite sonhada assim...

é a prova de que todo canto de paz
abre as asas do mundo

saudade mano
abração

Primeira Pessoa said...

saudadocê tumém, marquim.
em outubro, temos que nos ver de qualquer jeito.

saudades demais.

beijão,

r.

Índigo said...

No, Roberto. No lo vi. ¿Así que llegó a Andalucía? Tan cerca de mí... abrazo añil y buen finde.

Primeira Pessoa said...

chegou, talvez, num acorde de paco de lucia... num solo de camaron, ressuscitado... mas chegou.

que seja bom o finde e além...

abraço grande, mulher de la mancha.