Saturday, September 22, 2012

O Presente Maior




Para os meninos David Drummond e Hique Silva

 
O que dar de presente a um menino no dia de seu aniversário?
Das minhas recordações da infância salta uma bola de futebol, presente de uma tia de Belo Horizonte.
Cresci achando ter ganhado menos presentes do que mereci.
Adulto, entendi que recebi muito mais do que puderam me dar.
O que dar a um filho, menino, no dia de seu aniversário?
Um futuro brilhante?
Um lugar garantido em Princeton, quando ele crescer?
Um poema?
Uma canção?
O gol da vitória numa final de campeonato na escola?
Um dez em matemática?
Um pai e uma mãe honestos e de bom coração?
Estes últimos são, a meu ver, um presente imprescindível.
Tudo o mais, vem junto, a reboque, dentro dos limites de cada um.
Eu, se pudesse, daria uma professora carinhosa e meiga, quase uma extensão da avó.
E um carrinho de madeira, com capô de lata e rodas recortadas de uma velha sandália havaiana.
Um peão, uma pipa e um carrinho de rolimã.
Um embornal com um estilingue e muitas bolinhas de gude.
E frutas maduras, cheirosas, suculentas, tiradas diretamente do pé.
Daria ainda manhãs de grama orvalhada.
Uma estrela que nunca se apaga.
E uma fogueira de São João.
Daria férias inesquecíveis na fazenda.
E um piau prateado, daqueles que dançam no extremo da linha que pende da ponta da vara de pescar.
Daria ainda um passeio no lombo de um cavalo troteiro.
E a visão confortante, ao longe, de uma chaminé fumegando na paisagem.
Construiria uma estrada margeada por flores silvestres, margaridas, cravos, lírios e jasmins.
Daria um conselho de avô.
Um biscoito da avó.
Um mergulho no riacho.
Uma ducha na cachoeira.
Uma lua cheia.
Noites sem pesadelos, sem bruxas malvadas ou dragões cuspindo fogo.
Chuvas?
Só se fossem as de verão, cantando “sol e chuva, casamento de viúva”.
E o ar com cheiro da terra molhada e um arco-íris, com seu pote de ouro, bem no fim.
Daria-lhe ainda uma festa de aniversário coalhada de balões coloridos num dia ensolarado, bem no começo da primavera.
E um bolo de chocolate com uma vela numeral em cima, além um coral de amiguinhos do peito, puxando um desafinado mas, entusiasmado, ‘parabéns’.
Mas os tempos mudaram, eu sei.
E hoje só se fala em videogames, bicicletas cibernéticas, rollerblades, Ipods, celulares, roupas de grife, viagens a Disney e bonecos de super-heróis, daqueles que lançam raios laser de seus olhos.
Não existe nada de errado nisto.
Mudaram os tempos e as prendas que damos aos meninos.
O que não podemos mudar é aquilo que acredito ser o presente maior.
No meu relicário, que é onde guardo as coisas de maior valor, estão o respeito e a admiração por um cara que sempre me deu muito mais do que pôde dar:
O amor pelo filho, esse sim, é um presente que dura para sempre. Herdei do meu como lição.
O resto, todo o resto, também é importante.
Mas é coisa menor.
Bem menor.
Grande é a infância.
 
(Roberto Lima)
 
 
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9 comments:

Tania regina Contreiras said...

Já conhecia, e os meus olho brilham quando te leio.
Beijos,

Janice Adja said...

Lindo!!!!!!
Beijos!

Luciana Marinho said...

ai... o que dizer, menino, diante dessa beleza de sentimentos, de desejos? um dia desses eu pensava na possibilidade da chegada de um tempo em que haverá adultos que nunca viram uma árvore, só por imagem. já pensou nunca tocar o tronco de uma árvore, ver o tempo sob sua sombra, respirar com suas folhas o cheiro verdinho da vida?

grande cheiro verdinho!

Assis Freitas said...

grande é a infância, a asa que não foi amputada, o caminho e o voo, o partilhar do alvoroço, do assovio e da risada nos olhos e na alma,


abração

Adri Aleixo said...

Beto, gosto muito de estar aqui.
Penso que por nossa linguagem e costumes mineiros.
Ontem fomos ao Mercado Central, meus filhos mais novos queriam um hamster. Dia agradável, almoçamos por lá, estava lotado. Meu caçulinha disse que estava tão feliz e que aquele era o melhor dia de sua vida.

Gostei do embornal: lembrei de um que tive azul anil.

Beijo carinhoso!

LauraAlberto said...

Grande Roberto,

vou cair no lugar comum, mas tu sabes que o presente maior não se embrulha, não tem laço grande o suficiente, não se pode medir, nem se pode pesar...
e às vezes um presente maior pode ser substituído por outro ainda maior, não?

beijo

Magnolia said...

Um poema de Manoel de Barros..

Bípede Falante said...

grande...

beijo

BF

Anonymous said...

Um presente pode ser um poema...
De Manoel de Barros por exemplo...