Wednesday, October 24, 2012



Cromo

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Al Berto,
in 'Salsugem'


.

17 comments:

Paulo Jorge Dumaresq said...

DO MAR SE DIZ: AL BERTO À VISTA. BELO POEMA, BOB.COMO TUDO QUE CÊ POSTA. GRANDE DIA, EXCELENTE SEMANA.

Tatiana said...

"urgência de escrever", "a vida policopiada e distribuída assim, através da língua...gratuitamente"
- assimile bem os trechos, Pessoa, para que nunca mais te ocorra abandonar a escrita do blog. :))

Índigo said...

Azul y mar y soga y viento. Y palabras y lunas... y besos en añil, a raudales. Y el afecto, ese que no nos falte. Mi cariño, Roberto.

Tania regina Contreiras said...

Grandioso, Beto! Ah, os poetas me salvam!

Beijos,

Primeira Pessoa said...

taninha,
as palavras são bálsamo.
às, vezes, são um punhado de sal.

beijão.

r.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
haveri de lhe enviar por email uma aventura musical de um brasileiro, cantando o poema málaga, de rafael alberti.

feita de azul, branco e anil.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

a vida urge, tati.
e a gente se reinventa pra que possamos espichar o tempo em que pisamos nesse chão.

e aí a gente se reinventa nos filhos, no trabalho, na urgência da sobrevivência e nos sonhos menores que nos mantem vivos.

a vida precisa ser vivida porque ela é só uma vez.
a vida urge.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
você que, da esquina do continente e de tanto ver o mar o tornou azul,
e é meu consultor para assuntos marinhos.

posso perguntar sobre maremotos?

abração do seu amigo

r.

Dois Rios said...

Belo! Assombrosamente belo!
---
"Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida."

Beijo,

Primeira Pessoa said...

inês,
olha só o que descobri ontem:

http://www.youtube.com/watch?v=iw6Ne1qZMsE

uma boniteza.

beijão,
r.

Nascente said...

Maravilhoso, Roberto! Nada como o próprio poeta para gozar nas próprias palavras, como diria Manoel de Barros.

Beijo,
I.

Dois Rios said...

Ops! Estava logada na minha conta particular e não percebi. O comentário aí de cima, é meu, rs.

beijo.

Wilson Torres Nanini said...

"a urgência de escrever/não se sabe para quem"...

Às vezes me pergunto qual a razão de fato. Aí é o negócio do Eclesiaste, onde tudo é vaidade. Um caminho sob o sol, o tempo para cada coisa.

O ponto para o qual eu mais fico pendido é o de que "bão memo" é tudo ao mesmo tempo agora. E com muita emoção, tipo aquele instante em que cê bebe uma aguardente benta e adeja e ganha um quilate a mais de lucidez.

Forte abraço, meu amigo!

http://wilsonnanini.blogspot.com.br/


Primeira Pessoa said...

nanini, poeta dos versos bonitos e que sabe como poucos alinhavar imagem e emoção ao verbo...

bom mesmo é tudo agora, sempre.

abração do seu amigo

r.

Primeira Pessoa said...

inês,
amiga querida, seja como nascente ou foz, singular ou plural, aqui neste minifúndio de afetos você manda prender e manda soltar.

beijo grande do

r.

Dois Rios said...

bunitin, meu amigo roberto! fiquei toda faceira, rs.

beijo,

Primeira Pessoa said...

viu só como cê tá com tudo e não tá prosa?

tá verso.

beijão,
r.