Monday, January 21, 2013

Com um salutar pedido de desculpas


(Porque hoje - 21 de Janeiro - é aniversário dele)

Adorava o som de Kleiton e Kledir, a então jovem dupla gaúcha que enchia auditórios de todo o Brasil. Era início dos anos oitenta e eu respirava música.
Eu os vi pela primeira vez abrindo um show do MPB4, no ginásio Arnóbio Pitanga, em Valadares. Eu tinha uns 16 anos e fiquei encantado com a energia dos guris.
Saí de lá falando "bah"e "tchê", doidinho para beber chimarrão. Encantei-me.
Adotei um ritual - quando servia o exército em Juiz de Fora -, de todas as vezes que ia visitar meus pais em Valadares, deixar tocando na vitrola, no momento da saída, a música Deu Pra Ti.
Era como se dissesse aos meus pais que, assim que baixasse o astral na caserna, estaria de volta ao convívio familiar.
Curiosamente, deixei essa canção tocando na vitrola no dia 9 de abril de 1984, dia em que embarquei para a capital mineira e de lá para Nova York, definitivamente.
Lembro-me claramente de minha mãe enxugando os olhos com as costas da mão, enquanto os guris enchiam de som o ar da casa da Rua Topázio.
Desde então, essa canção ficou reverberando dentro de mim, como um daqueles tangos-fantasma, que nunca deixam de tocar dentro da cabeça e do coração da gente.
Passaram-se os anos, tornei-me um operário da notícia e eles construíram uma carreira sólida, interrompida por um hiato que nos deixou, fãs, muito decepcionados.
Eu não conseguia conceber o Kleiton sem o Kledir e vice-versa.
Sabe aquela coisa de quando dois são um?
Felizmente, soprou um minuano lá pelas bandas de Paris - onde Kleiton se exilou estudando música -, e ele resolveu voltar ao Brasil e retomaram a dupla.
Há algum tempo, juntamente com os empresários Kiko Salles e Fábio Portugal, criamos o MPB Club, projeto que trouxe aos palcos americanos muitos artistas brasileiros de primeira grandeza.
Kleiton e Kledir foram incorporados ao projeto e, não apenas fizeram espetáculos inesquecíveis, como acabaram se tornando grandes amigos e parceiros.
Sim, parceiros, pois os guris musicaram Água e Vinho e A Outra Metade, dois poemas meus.
Hoje nos frequentamos, a gente dá sempre um jeitinho de se ver e o Kledir escreve (bem!) para o Brazilian Voice.
Paralelamente à música, ele editou dois livros que foram sucesso de publico e crítica no Brasil (Tipo Assim - um fenômeno na Internet - e O Pai Invisível).
Kledir costuma dizer que sou padrinho de sua carreira literária, o que me enche de orgulho, embora não seja verdade.
Kledir já era um escritor feito quando nos conhecemos.
Estava apenas esperando o momento certo de sair da casca.
Em julho passado estivemos juntos no Rio de Janeiro e hospedei-me uns dias em sua bela casa na Joatinga.
Enquanto ele tentava me converter ao vegetarianismo, levei-o para a noite, tentando convencê-lo a freqüentar o meu mundo: o da esbórnia.
Durante um breve período, ele chegou mesmo a cheirar rapé, um hábito mineiro que ainda não abandonei, e que o seu médico desaconselhou peremptoriamente.
O doutor diz que dá taquicardia.
Não sei se é verdade.
Afinal, meu coração sempre desafinou.
Sempre bateu fora do tom.
Desnecessário dizer que ninguém convenceu ninguém.
Quando saí de sua casa para o aeroporto, parei numa churrascaria e ataquei um rodízio. Sem o menor remorso.
Sabe lá o que é ficar cinco dias numa casa onde jamais se fritou um bife?
E ele não deve estar com saudade da cerveja sem álcool, que praticamente o obriguei a beber enquanto me escoltava pela noite carioca. Não devo ser boa companhia.
E eu ainda o provocava, dizendo que beber cerveja sem álcool é o mesmo que dançar com a irmã.
Quando Julia (sua primogênita) veio fazer um intercâmbio nos EUA e tomou o primeiro porre da vida, o Kledir entrou em desespero.
Ligou-me, todo aflito, pedindo conselhos ao cara que ele diz ser a "maior autoridade em pileques fora do Brasil".
Não é bem assim, tentei me explicar.
Mas o tranqüilizei.
Ressaca não mata ninguém.
E Julia sobreviveu lindamente.
Começo a falar dos guris e acabo me perdendo em recordações.
Essa crônica iniciou-se, na verdade, com o propósito de ser lida como um envergonhado pedido de desculpas.
Kledir aniversariou semana passada e esqueci completamente desse que, desde que nos tornamos amigos, é sempre um dos primeiros a ligar para os nem sempre merecidos parabéns.
Portanto, Kledir, que você seja muito feliz nessa nova idade.
E que continue sendo esse sujeito fantástico que é.
E que nunca se esqueça desse meu amor por você.
Aceite meus atrasados, mas sinceros parabéns.
E uma pitada exagerada de carinho desse seu irmão, nascido estranhamente do ventre de uma outra mãe.




28 comments:

Tania regina Contreiras said...

E hoje vc não falhou...rs Saúde a ele, muitos anos de vida e esse presente que ele já tem, que é ser seu amigo!

Beijos, Beto.

Solange Maia said...

parabéns !
ao Kledir, pelo aniversário, à você, por escrever tão lindamente, e à esse 'todo' que sempre encontro por aqui e me abastece a alma...

uau...

beijão

Índigo said...

Bellísima crónica, que empieza bien (recuerdos, música, poesía, libros) y termina aún mejor. Ser hermano nacido extrañamente del vientre de otra madre... esa conclusión me la quedo (otro día te diré por qué).


Un abrazo grande, Roberto.

Lídia Borges said...

"Essa crônica iniciou-se, na verdade, com o propósito de ser lida como um envergonhado pedido de desculpas".


Foi-o, mas não só. Recordar tão belos momentos de cumplicidade vai "amolecê-lo" e o seu pedido de desculpas nem fará mais sentido.

Lê-se com muito prazer.

Um beijo

Assis Freitas said...

outro dia tava lendo uma crônica do Kledir muito porreta sobre um email e uma resposta, de torar


abração

Primeira Pessoa said...

ô, zé de assis...
tio kledir é um dos maiores cronistas em atividade no brasil.
é daquela escola de veríssimo, seus livros são uma delícia.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

amoleceu, lídia.
aliás, ja tava amolecido...
o kledir é generoso, absolutamente de paz.

beijão, poeta.

r.

Primeira Pessoa said...

indigo,
sou curioso. agora tem que contar... rs

ontem eu tava pensando... devo ir com o bispo filho a portugal em agosto, setembro, mais ou menos, com a desculpa de fazer uma noite de autógrafos de Meninos de São Raimundo, quando estamos indo, na verdade, rever amigos queridos, beber uns vinhotes.

a galícia é pertinho.... você está convidadíssima a se juntar a nós.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

solange,
você é generosa e querida, suas palavras são um enorme incentivo.

faça-se sempre em casa.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
eu não falhei, mas dei o mesmíssimo presente de três anos atrás.

liguei, este ano, pra um número errado.
eu ligou pra dar o certo e, quando cheguei em casa, já era tardão.
com a diferença de con-fuso horário, o trem ficou pior ainda.

acho que vou ter que escrever uma outra crônica-pedido-de-desculpas.

saudades de você, viu?

r.

Adri Aleixo said...

Bah... trilegal!!!
Amizade é essencial! Viver sem amizade seria como viver sem poesia...
Adoro o som desses guris. Também adoro ocê.

Beijo!

Primeira Pessoa said...

esses gaúchos são fodásticos, adri.
aprendo muito com eles, todos os dias.
e são afetuosos, queridos, e adoram os mineiros, nossas minas gerais.

um dia irei aos pampas, nem que seja só pra carimbar o passaporte.

beijão,
r.

Por que você faz poema? said...

"Quando eu ando assim meio down
vou pra Porto e bah! Tri legal".

Fernando Campanella said...

Bela homenagem, Roberto, ao irmão de alma, e que linda amizade, hein, isso é o nos anima a tocar a vida. Abração pra vc, meu caro amigo.

Bandys said...

Oláa Roberto,
Tem uma musica que não sei bem se é deles, mas sempre escutei com eles cantando.: Espanhola. Fora outras que fizeram e fazem parte da minha vida.

Parabéns pelo aniversário.
Os biquinhos estão fashion,
beijos

Primeira Pessoa said...

"espanhola" é uma parceria de gutenberg guarabyra e flávio venturini. você deve estar se referindo à versão de sá & guarabyra, que adoro.

quanto ao biquinho, é uma molecagem.
o kledir é um gozador.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

campanella,
to com saudades suas, meu príncipe.
temos que arranjar aquele encontro lá em bh.
de repente, uma não-tertúlia, com tertulianos e não tertulianos.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

herculano,
é bem por aí, a canção.
você, que manja tudo de fazer letras bonitas.

estou planejando arrastar o renato braz até santo amaro para um encontro com roberto mendes, a quem ainda não conheço. quem sabe você não se junta a nós????

abração
r.

Verso Aberto said...

parabéns ao Kledir

ô Beto, que nada, é quando vc se perde (em recordações) na escrita que a gente (a poesia na crônica) se reencontra

abração mano


Cecília Romeu said...

Mas bah tchê guri!
Que tri!

Adorei esse texto com aroma dos Pampas misturado às Gerais.
Essa de "estranhamente nascido do ventre de outra mãe" é muito lindo.

Foi a dupla Kleinton e Kledir que popularizaram aquela do paralelo 30, pois Porto Alegre, minha cidade berço, é uma das poucas no mundo que fica exatamente em cima dessa tal linha e "é coisas de magia sei lá".

Existe vídeo dos teus poemas musicados por eles? Fiquei curiosíssima!

Roberto, você já sabe, os Pampas aqui e minha casa estão abertos e com churrasco esperando,aqui não somos vegetarianos, cometemos o 'pecado da carne'. Qualquer coisa é só vir: "deu prá ti baixo astral, vou prá Porto Alegre, tchau!"
Que a gente tá esperando.

Abração e ótimo fim de semana!

eurico portugal said...

robertílimo,
é quase comovente a forma como tu tratas as emoções - numa espécie de receita em que os ingredientes são as palavras com rosto de gente e a gente de palavra.
kleiton e kledir nasceram para o meu mundo pela tua mão - de tantas que foram as vezes que deles me falaste - como tantas outras coisas se fizeram verdade pela tua boca. e como isso ajuda a reconciliarmo-nos connosco mesmos e a remendar o tecido mais gasto do coração. e o mais incrível é que as tuas histórias são sentidas, por aqueles que te leem para além das palavras, como suas também... essa é a escrita verdadeira, aquela que se faz imprescindível: a que nos aproxima por entre as trémulas folhas da distância.

abracílimo!

p.s. hoje há um braga X benfica na pedreira. contas de outros tempos que certamente não esquecemos, verdade?
p.s.2 chimarrão e "bah", duas idiossincrasias gaúchas certificadas no minho... pela mão da ana cecília :) - tenho inclusive comigo o recipiente, as ervas e as instruções de preparação :). quando cá venhas, por entre bebidas mais convencionais, arriscamos prepará-lo; que dizes? :)

abraço renovado!

Angela said...

Adorava ver a cantoria deles, hoje quando ouço traz lembranças boas.
parabéns a ele.

Primeira Pessoa said...

angela,
eles continuam cantando(e compondo) cada vez melhor.

eu continuo fã.

bom te ler aqui, entre os meus.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
chimarrão não pode ser invenção de Deus... é invenção de argentino... rs
amarga, basta a vida...
mas meus amigos gaúchos me perdoam... são bons... coração generoso, condescendentes com quem nem sempre merece...rs

hoje, na pedreira, "é nóis"...

vou-lhe confessar que quando cheguei à pedreira, naquela noite, eu já estava com saudade de braga e dos amigos de braga... mas eu vou voltar aí.
eu sei que vou voltar.

saudades, amigo querido.

r.

Primeira Pessoa said...

ana cecília,
estes dois caras vivem no rio ha mais de 30 anos e não perderam o sotaque daí da terra de vocês.
cunhei uma frase, que dá a saber:

"aquele que sai de sua terra e perde o sotaque é um ser que desbota".

eles continuam genuínos, autênticos e, acima de tudo, pessoas de verdade.

um dia, ainda vou aí cobrar esse churrasco, posto que churrasco é gaúcho. o resto é carne sapecada...rs

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
eu ando muito brabo comigo, porque tô tentando há semanas escrever um poema de adeus e o trem tá machucando mais que espinha de peixe entalada na garganta e num sai nem por decreto da dilma.

fico aqui, com esse olhar de rodoviária. e o poema, necas de pitibiriba.


beijão, mano.
r.

Tatiana said...

Roberto! Estava com saudade das tuas ricas histórias. É sempre uma volta e meia ao mundo.
Eu fiz um necessário recesso dos blogues, mas agora vou recuperando devagarinho o que perdi..
Abraço pra ti.
PS: essa gauchada tem o seu valor, chê!

Índigo said...

Espero contártelo un día en forma de libro. Un abrazo, Roberto.