Sunday, January 6, 2013

A Febre Que Só Eu Sinto

 

Erasmo Carlos escreveu brilhantemente num de seus grandes sucessos que é uma mentira absurda, a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil.
Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Aterei-me ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo sequer imaginar. Entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de segunda-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moleton e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existe.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredon de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira, fumegando na xícara.
Escrevo essas mal-traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.


.

41 comments:

Ana said...

Que lindo texto.

Beijinhos

Ana

flor de lótus said...

Este texto é magia e emoção. Gostava de escrever assim as emoções que brotam cá dentro e não consigo controlar, mas, enfim, nem todos têm esse dom de as transformar em palavras escritas.

Luciana Marinho said...

da infância se abriu um diário de viagem dos mais poéticos. lindo, lindo.

beijos.

Tania regina Contreiras said...

Tão, tão e tão lindo, Beto! :-)

e o "Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão." me faz querer que você esteja no tempo de deixar de lado os absurdos da febre, sem esquecer que é preciso de um pouco de febre na vida...rs
E que brotem açucenas mais e mais na palma de tua mão. Elas já vieram no seu coração.

Beijos,

Por que você faz poema? said...

Há quem diga que o homem deveria, também, dar à luz, e por que não? Tenho uma febre que não passa (nao, meu sorriso não é sem graça) neste verão baiano que nao combina com minha onipresente melancolia.

Adri Aleixo said...

Lindas açucenas brotando nessa primavera.
Reminiscências...Belo texto!

P.S.: 2000 e sempre? É tudo de bom que te desejo para o milênio inteiro.

Beijos!

Dalva M. Ferreira said...

Muito legal mesmo. Açucena, caso alguém desconheça... é uma espécie de lírio urbano, muito mais resistente à poluição aqui de SP. Abraço!

Primeira Pessoa said...

Dalva,
eu nasci em Pedra Corrida, município de uma cidadezinha chamada Açucena.
Não conheço Açucena, a cidade. Mas conheço a flor.

Grande abraço do

r.

Primeira Pessoa said...

adri,
2 mil e sempre fica-nos muito bem.
sempremente, claro.
em outubro estarei em bh e vamos fazer aquele fuá com a turma toda reunida.

beijão

r.

Primeira Pessoa said...

esse perene olhar macambúzio, é coisa de quem tem pacto com a poesia.
em salvador, em paris, ou em qualquer das cidades mais alegres deste mundo, o olhar do poeta será sempre um olhar sombreado.
e eu não tenhp a resposta para isto.

abração, poeta.

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
eu comentava com um colega de trabalho sobre as minhas amigdalas, extirpadas quando eu tinha 9 anos de idade.
então, saiba que, antes de me arrancarem as tais duas "bolinhas"(rs), bastava chover ou ventar um ventim mais frio, pra garganta inflamar e as minhas carnes se desprenderem dos ossos (era esta a sensação em que eu ficava).
ô, eu tinha febres sinistras, loucas demais, e eu delirava e morria, sempre... sim, eu sentia que tava morrendo, toda vez.

depois da operação, é raro (raríssimo) ter dor de garganta.
mas esta semana, tá sendo osso. deve ser porque to entrando na terceira idade.

beijão procê, maninha.

r.

Bandys said...

Um texto que desnuda um pouco a sua alma.(Eu sou novata aqui)rs.

Quando a gente dói, a gente precisa saber formas de cuidar da própria dor com o jeito carinhoso com que gostaríamos de ser cuidados pelos outros, com a delicadeza com que cuidamos de outras pessoas. A gente precisa se ter, antes de tudo.
E o coração brota esperanças.

beijos

mariangela Alavrez said...

Betinho lindinho na infância

Mãe faz um afalta danada né?

Saudades da minha... tuas crônicas me emocionam e me remetem à infância, quando mamâe punha vic vaporube na minha garganta e ficava de plantão na minha cama à noite inteira...

Nossos amados se foram.. ficaram as boa memórias ...

Beijo

pro Cê

eurico portugal said...

texto maior, com um piscar de olhos a josé gomes ferreira e à parte mais inocente do próprio pessoa: a infância e os abismos que se abrem a cada passada desse gigante inexorável a que damos o nome de tempo. impossível não sentir um friozinho na pele, ao lê-lo.

abraço, meu querido amigo!

p.s. sclb??? isso é que é heresia! slb, se faz favor. quanto ao chá: era impossível tê-lo pedido em tons de encarnado. imagina lá o que me serviriam!? :)

"uscisk" renovado! (adivinha em que língua acabo de grafar este abraço!?)

Primeira Pessoa said...

luciana, amiga querida.
eu to escrevendo um textim falando do quintal da casa de meus pais, cemitério da minha infância.
mas esta é uma outra viagem, né?

Primeira Pessoa said...

bandys,
por pura falta de talento eu só sei me ser deste jeito.


completando a resposta ao seu comentário, eu acho que a palavra esperança é uma das palavras mais bonitas que existem.
é a esperança que faz com que não morramos antes da hora, e nos dá forças para a caminhada que leva à nossa sina, o tão temido fim.

talvez tenhamos a esperança da imortalidade, algo assim.

abraço grande do

r.

Primeira Pessoa said...

flor de lotus,
fico muito grato pelas palavras carinhosas.
e feliz, claro.
que seu ano novo seja perfeito.
feliz.

abraço grande do

r.

byTONHO said...



♫ Mulher, mulher
Na escola em que você foi ensinada
Jamais tirei um dez
Sou "forte" mas não chego aos seus pés...♪

"Infantil...idade desta febre!"

:o)

Primeira Pessoa said...

Ana,
fico feliz que tenha gostado.
Agradar a alguém é o meu sustento.

Abração do

R.

Primeira Pessoa said...

de todas as febres, tonho.
mas, fica a pergunta: existirá, neste mundo, algo mais desmoralizante para o homem do que a gripe?

duvideodó!

abração, amigo querido.

r.

Primeira Pessoa said...

mariângela,
apesar daquele trocadilho infame (o da cerveja na geladeira), mãe, só tem uma.
e a minha é um luxo de mãe.

esse papo me faz lembrar dos meus 18 anos, meu pai me intimando a arrumar um emprego e eu dizendo que queria viver de escrevinhações.

contra a vontade do seu antonio, ela foi a vitória-es e comprou (na falecida mesbla) uma olivetti que guardo até hoje.

pagou-a em 12 prestaçoes e eu não arrumei o tal emprego que meu pai queria até hoje.

beijão,
r.

Assis Freitas said...

febre no mais alto grau, quem nunca as teve que atire a primeira chama, que eu nunca canso de me queimar (às vezes até o sangue incendeia)


abração broda

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
ao invés de um chá, uma diabólica bloody mary... que é a cor que faz bater mais forte o seu coração...
aí sim, fica tudo perfeito...
se for mais escuro, da cor do esteva, também não é mal negócio.

saudades de braga, do porto, e de todos vocês.

de vez em quando suspiro... "ah, que saudades do porto"... "ah, que saudades da bodega de dona helena"..."saudades das provas do porto... saudades das pataniscas"...

de vez em quando, tenho saudades até das mini-saias daquelas moças polacas, que eu juro que não notei.

aceito o seu abraço nesta língua esquisita (vou ao tradutor do "guga" para pesquisar) e retribuo na linguagem universal da amizade da boa, que é esta que desfrutamos.

r.

Primeira Pessoa said...

sua veia poética, um rio vermelho.
e assim nasceu um bairro de salvador :-)

beijão, zé de assis.

Sônia Brandão said...

Como é gostoso esse renascer!
Seu texto me fez lembrar de um professor que sempre dizia que homem era bicho fraco, que morreria se tivesse um filho. Dizia isso para uma classe só de meninas, num colégio de freiras (era quase o único homem que se via por ali. Imagine o sucesso que fazia).

Feliz 2013! Sem febres e sem delírios.

Lucielle Wiermann said...

olá roberto
só agora venho conhecer esse espaço tão bem formulado e elaborado.

gostei muito, sigo pra retornar mais vezes...

abraço

Primeira Pessoa said...

sônia,
jeitoso, o seu professor. falava o certo para a platéia certa. num país machista como o nosso, seria visto de uma outra forma numa classe composta apenas por rapazes.
acima de tudo, somos muito precon ceituosos, macho demais e homens de menos.
hoje, pela manhã, eu pensava em renascimentos a cada nascer do sol.

o dormir é uma espécie de morte pequena.

abração do
r.

Primeira Pessoa said...

lucielle,
agora que descobriu o caminho, volte sempre que quiser.

a casa é sua.

abração do

r.

dade amorim said...

Texto mais bonito, Primeira Pessoa!
Conheço outros homens que se sentem assim, quando gripados ou por algum mal-estar até passageiro.
Mas teu texto tem um tom diferenciado, literário mesmo.
Abraço e nada de gripe, viu?

Primeira Pessoa said...

ô, dade...
homem que não se sente assim, homem macho demais... eu tenho até medo deles...
eu só acredito em homem que fica carente quando tem gripe braba...rs

a gripe me deixou.
foi assombrar outro.

abração do

r.

byTONHO said...



Quando vejo alguém,
fungando,
voz anasalada... fico com pena!

Se for homem... 'puxa vida'!

É...!

Abraço-tchê!

:o)





Luiza Maciel Nogueira said...

Que maravilha de prosa poética Roberto! Açucenas que engrandecem na palma da mão! A infância que descreves tem uma beleza profunda de alegrias e tristezas - de quem viveu acordado e atento.

Beijos

Adri Aleixo said...

Voltando para reler essa maravilha.

Pensei na mamãe pequetita aqui em Betim, no papai, na tarde maravilhosa, no Bispo. Que maravilha é viver. Dá-lhe chazinho de amizade!

Bjo!

Primeira Pessoa said...

ô, tonho...
só mesmo um amigo querido como você, pra ter pena de mim.
cê sabe que sou fraco, fraquim... quase uma galinha de angola (rs).

abraço grande, poeta do traço bonito e nuvens.

r.

Primeira Pessoa said...

luiza,
tenho uma teoria de que toda criança deveria passar a infância no interior, com os pés na terra e as mãos nos galhos mais altos das árvores que cruzar.

os tempos mudaram, eu sei. mas ainda tenho tanto do menino interiorano morando em mim... tanto!

o interior me "insiste". rs

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

adri,
mamãe pequetita.... bela lembrança: vou telefonar. vou dizer que foi você que "mandou".

ó, em outubro tem mais.
escreve aí.

beijão,
r.

cirandeira said...

Há homens que ao adoecerem expõem os seus demônios incubados sem se darem conta da febre que os queima
quando estão "sadios", e há aqueles
que durante seus delírios febris
extraem o seu lirismo e poesia para
curar-se de uma enfermidade passageira. Todos nós somos vulneráveis às enfermidades, às febres que nos queimam e nos fazem arder, mas tu, Roberto, quando queimas fazes das cinzas um poema!


SAÚDE!!!

Primeira Pessoa said...

Cirandeira,
eu fico daqui, me olhando num espelho imaginário tentando me ver, tentando descobrir que tipo de homem sou eu.

O abismo da gripe passou. A vida se reconstruiu em quatro dias.

beijão!

r.

Dois Rios said...

Tão lindo, isso, Roberto!
Bendita gripe que te fez mais poeta do que já és.

Beijo,

Primeira Pessoa said...

Inês,
tem uma epidemia de gripe aqui nos eua. Um trem medonho, que me remete a Camus e seu "A Peste"...
O governador de Nova York decretou estado de calamidade pública.
Estamos em 2013, mas continuamos primários, primaríssimos, já notou?

beijão,

r.

Índigo said...

Si la poesía no hubiera nacido para habitarte, si la poesía no rezumase en cada uno de tus escritos, tú no serías tú y la poesía tampoco sería poesía. Hermoso, Roberto, hermosísimo.