Monday, March 4, 2013

Um pombo sem asas


No que pensa o goleiro Bruno, neste momento em que ele está sentado na cadeira do fórum de Contagem-MG?
Vejo-o daqui, enfiado em seu uniforme penitenciário vermelho-sangue, e ele se lembra de que também são encarnadas as listras horizontais da camisa do Flamengo,
seu último clube.
Bruno olha para os olhos da juíza e repara na túnica preta do promotor que o acusa.
- Onde está Elisa? - pergunta o magistrado.
Bruno maneia a cabeça, olha para a janela da rua e vê - no canto mais alto - uma nuvem ligeira e livre, que se desloca para outra direção.
Os olhos de Bruno já não estão ali, e ele pensa nas ruas de casebres tristes de Ribeirão das Neves, cidade em que sua infância se arrastou em casa de parentes.
Pensa na filha que teve com a esposa Dayanne.
E no filho que teve Elisa Samúdio, esta que lhe acusam de ter assassinado e servido como almoço a cães.
Nos olhos de Bruno, menino e menina brincam num canto imaculado e puro de sua memória.
E Bruno pensa numa bola de meia.
Numa bola de plástico.
Pensa nos campinhos de terra batida de Ribeirão das Neves, única rota de libertação possível entre a miséria e a glória.
Bruno pensa no pai que não conheceu.
Pensa na mãe biológica, esta que veria pela primeira vez - já adulto e famoso - num programa de tv, num daqueles quadros do tipo “Arquivo Confidencial”, de Fausto Silva.
O promotor repete a pergunta, mas Bruno parece escutar outra coisa.
Ele escuta o seu nome gritado pela torcida do Atlético, clube que o revelou.
- Brunoooooooooooo!
- Brunoooooooooooo!
- Brunoooooooooooo!
Mil milhão de vezes, Brunoooooooooooo!
Grito que vai ficando cada vez mais alto dentro de sua cabeça e que agora sai da boca do bando de loucos corintianos, por quem também jogou.
Mas é na voz dos flamenguistas - onde conheceria céu e inferno - que este seu nome gritado se torna ensurdecedor:
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
- Ô-ô-ô, Bruno, seleção!
O advogado de acusação desloca-se na frente de Bruno, mas este já não o vê.
Diante dos olhos de Bruno chovem os confetes e serpentinas dos estádios, espoucam flashs dos fotógrafos dos
jornais e ele quase sorri para as câmaras de televisão.
Bruno sente a falsidade dos tapinhas nas costas e se recorda de todos os autógrafos que deu na vida.
Lembra-se das fotos que tirou com os fãs e da frieza dos microfones dos repórteres de rádio e tv.
Lembra do carrão novo.
E do novo carrão novo.
Pensa nos jantares que não pagou nos restaurantes - por ser uma estrela da bola - e no sorriso fácil das moças.
Pensa nas moças.
Nas coxas das moças.
Nas festas com as moças.
E Bruno pensa na urgência da vida, que a sirene da ambulância que passa na rua anuncia.
E ele consegue escutá-la de dentro do fórum de Contagem, onde é é julgado por um crime que jura que não cometeu.
No que pensa Bruno, agora?
Será que ele pensa no pênalti mal apitado, no centroavante em impedimento e no placar adverso registrado no letreiro luminoso do Maracanã?
Ou será que pensa na dureza do hoje, este chute cara-à-cara, à queima-roupa, em pleno Fla-Flu da vida?
A perda da liberdade é uma bola indefensável, chutada com violência, bem “na gaveta”, raciocina ele.
E Bruno se espicha todo, mentalmente, tentando interceptá-la.
Ele salta, corpo arqueado, os olhos postos na bola que vai em direção à forquilha, lugar onde dorme a coruja dos locutores esportivos.
A liberdade é um pássaro sem asas - pensa Bruno pela última vez -, no que se estica tentando alcançá-la.
Ela é esta bola que está indo, cruel e indefensável, contra o seu gol.
Ela é esta que vai morrendo agora - mansa e pela última vez - no fundo das redes do cidadão Bruno Fernandes, já não mais um goleiro de futebol.

.

23 comments:

Tania regina Contreiras said...

Sabe, Beto, sua tão emocionante crônica lembra-me dos meus tempos de jornal, do contato com os editores e repórteres de Polícia, da minha escolha, equivocada, pelo jornalismo (hoje caminho por outros caminhos, esses, sim, meus), e da primeira matéria que fiz na faculdade, quando o professor (depois colega de jornal e editor) me disse rudemente: "Isso é literatura...e jornalismo não é literatura!!). Na época, nem se falava em jornalismo literário ainda. Pouco-se-me-dava...eu não gostava daquilo. Faltava sensibilidade; subjetividade; faltava alma. Gostaria de ter lido sobre Bruno assim...porque é assim que é. Sem rótulos agressivos, sem carimbos, olhando como você olha nessa crônica tão sensível, que deixa antever o menino, o homem, o goleiro famoso, os caminhos e descaminhos de um ser. Emocionei-me.Tu é lindo, véio! :-)
Beijos,

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

É? E como defender o próprio gol-contra? O impróprio gol contra a própria meta? Essa bola quadrada que nunca mais sairá do fundo das redes de sua inconveniente memória, de seu inconsciente?
Mais uma crônica de craque, poeta. Como de costume, aliás.

Abraços deste que já torceu para que Bruno defendesse tantos gols, e ainda torce para que ele acordasse de algum coma ou glaucoma qualquer e tudo não passasse de um pesado pesadelo, porque nunca deixarei de torcer por essa estranha raça humana que afaga e apedreja.

byTONHO said...



Embrulhou-se o "grande menino BRUNO"!

"Quando salta pra voar, a bola presa na corrente amarrada a perna, impede-o de ser o pássaro que foi!"

TRISTE!

Primeira Pessoa said...

enrolou-se....
num novelo sem fim...

a bola é aquela, tonho. em breve, ninguém mais da bola pra ele.

abração,
roberto.

Primeira Pessoa said...

da rama,
sempre que penso num anti-gol, penso em você.
ninguém jamais conseguirá tal feito.
aliás, vou te mandar um video genial pelo email.
é mais ou menos aquilo, o meu adorável artilheiro do valadão.

abraços,
r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
eu sempre achei que a boniteza tá no olhar de quem vê.
seu jeito de ver me demonstra isto o tempo todo.
sempre que começo um texto, penso se cê vai gostar... ou não...
é sério.

beijão do
r.

líria porto said...

a pena afiadíssima do meu amigo!

o que pensará bruno - o diabo é que o pensamento não nos dá paz! besos

Primeira Pessoa said...

liria, minha querida... que saudade que eu tinha de te ver por aqui.
você colocou um ponto de exclamação no meu dia.
quanto ao bruno, fica a dúvida.
a consciência pode ser liberdade.
mas ela também pode ser (também) um carandiru.

beijão,
r.

Rejane Martins said...

...Enquanto alguns brasileiros torcem pelos 50% de verdade de Bruno, a mulher com a qual ele teve um filho, morreu 100%.

Rejane Martins said...

...Enquanto alguns brasileiros torcem pelos 50% de verdade de Bruno, a mulher com a qual ele teve um filho morreu 100%.

Primeira Pessoa said...

e eu tento entender esta lógica, rejane.
e me é ilógico.

tão bom te ver por aqui.

beijos.

r.

Índigo said...

Si la belleza está en la mirada del que mira... la belleza es tuya porque tú miras y retratas con una sensibilidad, una ternura, una agudeza, como quien mira desde afuera pero toca hasta adentro, llegando al fondo de la persona, traspasándola, con emoción, con delicadeza, con sumo respeto. En fin, todo eso que cada vez que escribes demuestres y muestras: tú y tu exquisita delicadeza. Un abrazo enorme, Roberto.

Bandys said...

Bela cronica como sempre.
Acho que ele pensou nos latidos dos cachorros comendo a moça, pensou nas filhas, pensou que ficaria impune afinal é o goleiro do flamengo, pensou que iria pra casa, quem sabe ir a uma festinha conhecer outra Elisa.

Ola Roberto, saudade de voce, mais vc some, hahahah

beijos

eurico portugal said...

autogolo com cheiro a goleada.
a vida prega-nos partidas [ou somos nós que nem sempre sabemos jogar a partida da vida?]. são 22 os seus desertos com um só cato à beira-água, porque a argila desfaz-se agora nas mãos que seguraram tantos mundos.

abraço, robertílimo!

Fruto do Espírito said...

Vim conhecer seu espaço e achei o conteúdo ótima em sua totalidade.
Parabéns pelo post!
É sempre bom fazer novas amizades e eu escolhi você para ser meu leitor virtual e especial.
Ficaria muito feliz em poder contar contigo na evangelização; o nosso povo está precisando ter Deus no coração, para que as suas dores sejam consoladas e suas feridas saradas pelo autor e consumador da nossa fé. Só em Jesus encontramos a Alegria Completa.
Caso ainda não esteja seguindo o meu blog, deixo o convite, retribuo de volta.
http://frutodoespirito9.blogspot.com/

Paz, saúde e muito amor em sua vida e também na vida de seus familiares.

P.S. Estou recomendando o blog do irmão J.C.
Mensagens abençoadoras, acesse e confira:
http://discipulodecristo7.blogspot.com/

Em Cristo,

***Lucy***

Luciana Marinho said...

texto comovente, roberto, como são as dramáticas e trágicas linhas que temos nas mãos. não sei o que bruno pensou, mas sei que ele falou, assim que saiu a sentença: "é isso que é justiça?!", soltando mais uma vez as mãos dos "meninos e meninas que brincam num canto imaculado e puro de sua memória."

belíssima crônica.

beijão.

Tatiana said...

Esse eu já tinha lido, mas é sempre bom revisitar os sentimentos que teu texto provoca. Aqui é de pena, pena, pena.

Abração

Primeira Pessoa said...

pena mesmo, Tati.
desperdício.

tem gente que desperdiça a vida.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

luciana,
a inocência é, das invenções do homem, uma das mais sagradas.
pudesse (e pudesse) eu proteger a inocência de todas as criancinhas deste mundo.

beijão do
roberto.

Primeira Pessoa said...

xá comigo, fruto do espírito.
xá comigo....

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
você sabia que o numero 22 me "persegue"?

é meu número da "sorte".

abração,
r.

Primeira Pessoa said...

sumo não, bandy's. tenho me dedicado mais ao trabalho, tentando recolocar as coisas em hordem. nestes ultimos quatro anos de obama, tive que reaprender muitas coisas.
estou me rededicando. é isto o que vem acontecendo.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

indigo, senhora dos azuis das águas do canal.
mulher de la mancha.

obrigado pelas palavras carinhosas de sempre.

abração do
roberto.