Friday, March 17, 2017

A caixa lilás



(I Parte)

Ela começou a construir a caixa de segredos ainda menina.
Enfiada em um vestido de gesso, passava dias a fio vendo as nuvens lamberem o Ibituruna, no que atravessavam a janela da esquerda para a direita, como se fossem ovelhas desnorteadas.
Não imaginou que durasse tanto, tanta dor.
Não pensou que durasse nada, ela própria.
Fez alguns pactos. Criou asas. Arrefeceu.
Ornamentou o baú onde guardaria suas calmas e turbilhões com dois sóis sustenidos, um aboio chorado às duas horas da tarde e penas da asa de uma graúna,
Cultivou Hiroshimas e Xangri-las de bolso, naquilo que crescia.
                                                                (Não abriria mão delas)


Fez tsunamis em copos d'água,  bebeu tornados com alka seltzer e despenteou os cabelos com vendavais.

Pelo tecido da pele, por cada poro do corpo, deixou entrar Dolores, Cartola e Jobim.
Mas não foi fácil.
Adormecia na Faixa de Gaza e acordava em Pasárgada, onde era a nobreza de um castelo sem rei.
Era a marquesa de Tordesilhas, Lisboa e Pombal.
Nas noites de insônia atravessava descalça os braseiros das fogueiras de São João que ia criando. Sangravam-lhe os pés e caminhar pela vida sempre lhe trouxe dor.
Para não ter que tocar o chão, aprenderia a voar através da dança.
É por isto que, todas as vezes que doem-lhe a alma e os pés, ela coloca o vestido branco e começa a girar.
Ela voa.
Gira num tablado flamenco, em Málaga.
Flutua numa valsa, em Versailles.
Rodopia numa rua de Havana diante dos olhos de um homem sem rosto, charuto apagado em uma das mãos, o copo de rum pela metade, na outra.
Na cintura dela repousa a mão de um jovem negro.
Nos olhos dele, ciúme e contemplação.
Trata-se de uma imagem recorrente, uma espécie de alucinação.
Ela a tudo vê, mas se fecha em copas, e bebe o silêncio em goles miúdos.
Degusta o silêncio, esse veneno que vai matando aos pouquinhos, como se fosse vinho feito a partir de uma uva colhida numa parreira de Chernobyl.


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2 comments:

Indigo Horizonte said...

Hay algo en este vuelo que volará. Hay un duende que se escapa. Hay un ay de aquí y de allá. Cuando el duende adquiera forma, volverá.

Primeira Pessoa said...

Seu comentário me trouxe um arrepio, mulher de La Mancha. Porque no decote do vestido da bailarina, certamente, ornamentartá um trevo de quatro folhas, bandeira de tyodos os duendes deste mundo.

Beijão

CR.