Thursday, March 30, 2017

Pequenas memórias


Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo entendia menos ainda.
Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas.
Eu era um menino católico – como quase todos os outros – que emprestava a voz a um Padre Nosso capenga.
Não, eu não sabia melhor. Eu não sabia.
Como um mestre-sala mirim, desfilava com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares. Era sete de setembro, feriado nacional.
Às vezes um tanque de guerra abria o caminho, e aquilo era imponente e intimidador.
No palanque, sorriam homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos.
No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel cantavam que aquele era o lugar dos patriotas, dos amantes do país.

“Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil
eu te amo, meu Brasil, eu te amo
ninguém segura a juventude do Brasil”.

A infância fedia, inocente.
Meninos e meninas não tinham consciência do que se passava. No interior do interior do Brasil, éramos pequenos demais para tomar conhecimento de que os descontentes desapareciam em úmidos porões.
Eu não sabia que o País do Futuro, naquele presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas da América Latina.
Eu era um passarinho engaiolado e não o sentia. Faço parte da geração que foi uma das mais sacrificadas desde que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal.
Formamos a geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo.
Estamos instalados entre os aborígenes da Austrália, os malditos chicanos e os brasiguaios de algum lugar tão miserável quanto o nosso.
Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos.
Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados.
Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; os que guardam o veículo e a casa alheia; os que se conformam com a sorte menor.
Somos os que lavam os pratos; os que limpam o chão.
Somos os que higienizam os cadáveres nos necrotérios no Harlem e no Bronx.
Os que passeiam os cães das madames no Hyde Park.
Os que servem à mesa nos bistrôs de Saint Germain.
Os que cozinham.
Os que ralam.
Exceções?
É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem.
Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960.
Nós somos os de durante.
Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado nas Américas.
No grande esquema das coisas, somos os ‘desinfluentes’, quase sempre fedendo a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar do mundo.

1 comment:

Rogerio Martins said...

Doeu...

Revirar o limo das memória antigas e recentes, foi turvar o meu sol de tarde de outono. Vou lá cantar Maria Maria, do Milton, pra tomar folêgo. Esses mergulhos sempre esgotam o meu corpo emocional.

Beijo e obrigado por resguardar em você, parte dessa historia, que as vezes se repete para assombrar nossos sonhos.