Sunday, November 29, 2009

"
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes,
a vida presente."

(Carlos Drummond de Andrade)

Friday, November 27, 2009

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Cortar o tempo

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".

Carlos Drummond de Andrade
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"Tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo".

Carlos Drummond de Andrade
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Wednesday, November 25, 2009

Viagem na boléia do tempo

Venho a Minas Gerais por um motivo diferente. Venho dar uma força a meu pai, que há alguns dias teve um derrame cerebral.
Ainda nem aterrisei no aeroporto internacional de Confins, e uma sensação estranha começa a tomar conta de mim. Lá de cima, as montanhas mineiras ganham uma dimensão de beleza para mim, filho da terra, que é impossível descrever em palavras.
O sol brilhante fabrica sombra em árvores, transforma riachos e lagos em espelhos de prata, realça a trajetória de uma caminhonete levantando um poeirão na estrada.
Para onde estará indo essa caminhonete? – pergunto eu.
Durante alguns segundos, pego uma carona e, na boléia da caminhonete, saio "passeando" pelas Gerais.
Minha primeira parada é Ouro Preto, lugar que ocupa a prateleira de cima entre todas as minhas lembranças.
Passear sobre mortos em igrejas pintadas de ouro pode parecer estranho, e é. Mas amo demais esta cidade, que é a minha Paris, minha Pamplona, minha Nova York e minha Quebec, tudo reunido numa só.
Subo e desço ladeiras, as ruas apertadas, o chão de pedras lisas, colocadas ali por mãos escravas.
Entro na casa onde viveu Tomás Antônio Gonzaga e de sua janela quase consigo ver a cabeleira de Marília de Dirceu, crina de égua ao vento. Quero ficar pra dormir, mas a caminhonete da saudade não pode parar.
E é assim que, em alguns instantes, estacionamos na boca de entrada da gruta do Maquiné. Um rápido tour, os olhos cheios de beleza que a natureza esculpiu ao longo de milhares de anos, e já estou pronto para uma visitinha à casa onde viveu um certo João Guimarães Rosa, em Cordisburgo.
Sento-me na cama onde dormiu o criador do Grande Sertão Veredas, bebo café numa caneca de esmalte descascada pelo tempo.
Despeço-me do lugar onde viveu o escritor e já estou na Governador Valadares da minha história, comendo cascudo frito e carne-de-sol - de dois pelos - de Frei Inocêncio (acompanhada de mandioca cozida e manteiga de garrafa), bebendo cerveja estupendamente gelada num bar, enquanto asas-deltas e paragliders fazem um bailado colorido no céu.
Ali, com amigos de infância, bebendo uma boa pinga de alambique, tricoteando brinca­deiras de um tempo que se foi, sou de novo um menino, correndo atrás de uma bola de meia, soltando pipa, levando à tiracolo um embornal cheio de bolinhas de gude.
Muito mais que isto, sou um homem correndo atrás de mim mesmo, como um cachorro rodopiando, tentando morder o próprio rabo. É assim a trajetória do homem, insistente em passar o resto de seus dias correndo atrás do menino que um dia foi.
E amanhecer na Serra do Caraça, passar a tarde num vapor do Rio São Francisco, escutando estórias de pescador.
Anoitecer em Diamantina e participar das serestas das noites de quinta-feira em Montes Claros, quando o mercado municipal se fecha para as vendas, e reabre para receber a população para uma cantoria de respeito.
Violões, cavaquinhos, tambores, pandeiros e flautas: a voz brotando dos pulmões num entusiasmo que te leva a abraçar estranhos, irmãos em outras vidas, e te dá uma indescritível alegria por saber, de cor, a letra de preciosidade como essa aqui:

“A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
costuma se embriagar
Nos seus olhos, eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai Claridade buscar” (...)

E acordar, nas cercanias de Belo Horizonte, lugar onde vive meu pai.
Sentar-me com ele à mesa, beber queimadinho, comer pão de queijo e biscoito de polvilho e um naco de broa de fubá.
Ver que ele está bem, lúcido, ligeiramente ranzinza, sem acusar nenhum resquício do acidente vascular que quase o levou de nós. Consigo sentir o seu cheiro...
Mas um barulho metálico me traz de volta ao mundo real.
A aeromoça anuncia que pousaremos em segundos. Aperto o cinto de segurança e retorno a poltrona à sua posição inicial.
Viro o rosto e, da janela do avião posso avistar ainda, lá em baixo, a caminhonete sumir no meio do poeira e da minha imaginação.
E o meu coração bate apressado, como o de um menino saudoso, que não vê o momento de abraçar seu pai.

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"O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem".

João Guimarães Rosa
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Pequeno Exercício
Para a Alma (Fazenda)


Bom mesmo teria sido acordar com o canto do galo. São seis da manhã. Fecho momentaneamente os olhos e em algum lugar um cachorro late e um carro barulhento ronca o seu motor. Deve estar a quilômetros de distância, mas parece ziguezaguear dentro de meu cérebro. O breu da madrugada oculta o poeirão que cobre a folhagem do capim que margeia a estrada. Posso imaginá-lo amarelando tudo.
Sei que escutar a sinfonia serelepe dos primeiros passarinhos, ainda rolando na cama, dá uma sensação agradável. É como se uma substância que causasse, ao mesmo tempo, euforia e tranqüilidade, fosse injetada na veia ‘da alma’ da gente. E aí, sentir o cheiro de café que escorre do bico do coador de flanela até definhar, transformando-se em pingos esparsos, deixando para trás uma borra escura agarrada ao fundo do saco.
E só então levantar da cama, calçar os chinelos e, ainda de pijama, tomar o lugar à mesa.
Temperar o café com a raspa da rapadura, misturar nele a brancura do leite gordo, tirado momentos antes da teta de alguma vaquinha generosa.
Saborear a coalhada, o queijo, o melado da cana respingado sobre a batata doce, assada no forno à lenha.
Comer a broa de fubá, o pão de queijo ainda quentinho, os biscoitos doces e salgados, a brevidade, a geléia de jabuticaba espalhada no pão, e as frutas que no dia anterior adornaram o pomar.
Escolher entre mangas, laranjas, pêssegos, cajás, mexericas, jambos, pitangas, caquis, frutas-do-conde, carambolas...
Escavar um gomo daquela viscosa e (perfumada!) jaca, que se oferece no canto da fruteira...
E, só aí me levantar da mesa e tomar o destino da vida. Antes, um ritual:
Sentir o orvalho no gramado sob os meus pés e perceber, no jardim, o momento em que ele desliza, quase uma lágrima, na pétala de alguma flor.
E essa gota cristalina poderia estar percorrendo o vermelho de algum hibisco, ou o branco de uma margarida, linda em sua simplicidade.
Perto dali, galinhas ciscam no terreiro e uma andorinha estica o pescoço pra fora de seu ninho, construído no vão da madeira que suporta o telhado da varanda.
Um bem-te-vi canta na vizinhança, um tiziu pula na cerca, e um bezerro desesperado berra à procura da mãe.
O João-de-barro passa apressado, num vôo rasante.
Leva no bico um pedaço de capim.
Sua casa no alto do jenipapeiro já ganhou forma. Em breve estará na fase do acabamento.
Um vaqueiro chega e acena de sua montaria. Vai cercar o gado. Mas não tem pressa.
- Ô, malhada..
- A-ê-ê, estrela...
- Ô-ô, dengoso!
Na beirada do riacho uma garça espeta um lambari, que desce pelo pescoço comprido, numa agonia prateada...
E a ave o engole com facilidade, como se nem um “glup!” fizesse.
Por alguns segundos, acho que fazenda é o playground de Deus.
E a vida pulsa em todo lugar.
Raios de um sol inigualável se refletem na água, dourando e embelezando o deslizar animado dos patos, dos gansos e dos marrecos...
Uma moça ainda nova passa com uma trouxa de roupas sobre a cabeça. Suas cadeiras balançam como se ela ouvisse um samba.
Em breve escutarei a roupa sendo batida na pedra, ritmando definitivamente o seu ritual:
- Plaft, plaft, plaftz...
E as lavadeiras cantam.
Quatro meninos nadam fazendo algazarra.
Na porta da cozinha outra moça cata o arroz em uma peneira de palha. Está concentrada, separando o joio da jóia.
Um rapaz passa a cavalo.
E uma anciã atravessa vagarosamente o quintal. Está amparada por uma bengala feita de cana-da-índia. Está indo para algum lugar.
E eu?
Bem... Eu estou à boca de entrada do Lincoln Tunnel, esperando impacientemente a minha vez de fazer a travessia que me levará a Nova York, oposto de tudo o que imaginei e descrevi nesta crônica, parida com o único intuito de não me deixar enlouquecer no trânsito desta metrópole.
Ah, antes que me esqueça: são seis horas da manhã.

Tuesday, November 24, 2009

"Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos".

Fernando Teixeira de Andrade
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Reescrever a Vida Numa Página em Branco

Vamos falar do mel. Das coisas boas. De mais encontros e menos despedidas. Mais delírios e menos porradas. Mais afeto e menos traição de pessoas próximas, posto que as que estão distantes, o espaço físico estabelecido se encarrega de nos proteger delas.
Vamos falar do mel das palavras bonitas e benfazejas.
E esquecer o fel daquelas que envenenam e coalham nosso sangue.
Vamos tecer alegrias e despedaçar mágoas. A hora é agora!
Mágoas passadas não movem moinhos.
Precisamos jogar no ralo da vida essas amarguras e tristezas que às vezes nos fazem sentir como se tivéssemos pregado Jesus Cristo à cruz.
Esse calvário não é nosso. Essa conta já foi quitada há mais de 2 mil anos.
Para que permitir que os erros e mazelas do passado nos aterrem, nos joguem nessa poça de lama que nos faz parecer ilhas flutuantes, sempre na iminência de um passo em falso?
Para que viver com um pé no presente e o outro no ontem?
É sabido que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Assim sendo, para que insistir em vesti-lo, se as traças do tempo puíram o vestido, e as costuras do terno não resistiram ao passar dos anos?
Para que mastigar reminiscências que magoam?
Para que ruminar o vidro moído do ressentimento?
Aprendamos com os erros. Os nossos e os dos outros.
Reconheçamos a proximidade do perigo, todas as vezes que a vida o colocar travestido de tentação à nossa frente.
Precisamos nos desviar dele, sequer olhá-lo nos olhos, ignorá-lo, simplificando o ofício de viver.
Cortar laços nocivos e recomeçar do zero, se preciso.
Toda manhã é um convite ao recomeço.
Cada nascer do sol traz consigo a possibilidade de se reescrever a história a partir de uma página em branco.
O passado nos persegue, eu sei. Estejamos atentos.
Aprumemo-nos.
Acertemos os passos.
Desviar do que ficou para trás faz-se necessário.
Esse fantasma que insiste em voltar nos sonhos, quando dormimos, transformando nossas noites em pesadelos, aprendamos a assustá-lo.
Expulsemos esse verdugo para longe de nós.
Reinventemos as noites, se preciso. O que seria da raça humana sem a sua capacidade de sonhar?
Sonhemos!
Sonhemos dias sem tempestade, de céu claro e sol brilhante.
Dias que começam com a grama orvalhada e se encerram com uma lua cheia.
Dias de sorvete de limão para aliviar o calor, de algazarra de crianças brincando no recreio da escola e de pipa colorida desenhando o vento no ar.
Dias de música bonita tocando no radio e de notícias boas. De abraços sinceros e do calor das verdadeiras amizades. Dia de visita de irmão. Dia de colo de mãe.
Dias de sessão de cinema, de pipoca, de chope com os amigos e conversa leve no bar.
Dia de sonhar acordado com um amanhã melhor que o hoje. Esse hoje, que já foi muito bom.
Vamos falar de futuro...
De quintais embandeirados. De flores de laranjeira e serenata entre amigos.
Tempo de quadros de Marina Jardim nas paredes da sala, de bibliotecas acolhedoras, camas confortáveis, lençóis perfumados, macios, e travesseiros de penas de ganso.
Tempo de quintal com pomar, horta e canteiros floridos. Tempo de açucenas, margaridas e girassóis. Sonhemos...
Sonhemos poemas e canções.
Sonhemos o companheirismo e a amizade. Sonhemos mangueiras em flor.
Sonhemos...
Sonhemos a cumplicidade das coisas boas, a gargalhada solta, o afago gratuito e o olhar sincero.
Sonhemos aquela reparadora viagem a Matchu Pitchu, a Paris, a Buenos Aires, ao Komala ou onde quer que seja.
Tomemos coragem para fazer as malas. E embarquemos no primeiro navio.
Deixemos que o vento nos afague o rosto e nos percamos no azul do mar.
É muito provável que nesse se perder resida o se encontrar.
Vamos falar do mel.
Precisamos nos lambuzar dele.

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"Comigo a anatomia endoideceu: sou todo coração"
Maiakovski

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Sunday, November 22, 2009

"A tua vida é uma história triste. A minha é igual à tua. Presas as mãos e preso o coração, enchemos de sombra a mesma rua."

Eugénio de Andrade
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Saturday, November 21, 2009

Isabella Sonhava

Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão? Gostava de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia? Qual seria a sua favorita fábula infantil?
Será que seu cabelo ficava bonito amarrado por laço de fita? Usava trancinhas? Tererês?
Será que ela gostava de sorvete de morango?
Será que comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de inocência e nuvens, será que ela conversava com animais de estimação? Falaria com anjos? Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? O amiguinho imaginário? Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o seu primeiro dentinho?
Quando caiu o primeiro?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? Gostaria de ter um?
Amaria passear pelo zoológico?
Gostaria de livros, de desenhar? Gostaria de flores?
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava Isabella Nardoni?
Os irmãos? Bichinhos? Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? Já teria pintado suas unhas?
Será que algum dia mergulhou no oceano? Teria gostado do carinho das águas deslizando pelo corpo? Gostaria de mar e brisa, de vento e verão?
Seria fogo ou água, essa menina tão linda?
Qual seria o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne no rosto? Sardas quando exposta ao sol?
O que estaria escondido nas cartas da cartomante, ou nas linhas desenhadas na palminha de sua mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez? Estaria, em seu futuro, reservado um grande amor?
Que profissão teria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? Trabalharia num banco? Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? Seria dona de casa?
Se casaria? Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voôu.
Foi atirada do 6º andar do edifício em que vivia com o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voôu. Virou anjo.
Como aqueles com os quais conversava nas noites em que sonhava.
Sim, Isabella sonhava.
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Na Bagagem do Ex-presidente


Vejo na televisão a imagem de George W. Bush adentrando o helicóptero que o levará ao seu rancho, no Texas, onde ele inicia uma nova fase em sua vida.
Minutos antes, esse que agora é um ex-presidente, entregou ao seu sucessor Barack Obama um país mergulhado em duas guerras, trincado pela crise econômica e com a auto-estima em frangalhos, como se dissesse: Toma! É seu. Agora, se vira nos quatro!
O que levou George Bush, no helicóptero que o transportou ao Texas?
Terá levado sabonetes e toalhas dos banheiros da Casa Branca?
Terá levado uma almofada da sala oval, ou o seu travesseiro favorito?
Terá levado sementes das flores do jardim da residência oficial da presidência, para transplantá-las em seu quintal texano?
Terá levado talheres de prata?
Terá levado charutos, cinzeiros ou um chapéu de cowboy?
Presentes de dignatários de outros países terão cabido em suas malas, ou seguiram por terra, num caminhão da U-haul?
Será que Bush levou consigo um abridor de envelopes de prata, com a insígnia da presidência?
Terá levado algum livro da biblioteca? Algum souvenir?
Terá levado sua coleção de música country? Seus ternos bem cortados e suas gravatas vermelhas?
O que terá seguido por terra, em sua bagagem?
Será que ele conseguir fazer com que coubesse a ganância dos banqueiros e especuladores de Wall Street?
Terá levado um volume somente com a truculência de seus falcões?
Terá levado cópias dos discursos ufanistas de seu vice, Dick Chenney, ou o penteado austero de Donald Rumsfeld?
Terá levado um pouco do charme discreto de Condoleezza Rice, ou uma fotografia em preto e branco de Thomas Jefferson, retirada de alguma parede?
Terá levado um litro de sangue de um infante morto no Iraque?
Ou, a infinita dor de uma viúva de um marine tombado no Afeganistão?
Será que Bush alocou em sua mala a angústia de um desempregado de Detroit?
A frustração de um doente incapacitado de ter acesso ao seguro-saúde?
Terá levado a fragilidade de um aposentado?
Ou, a sensação de abandono de algum ex-proprietário de imóvel, que acabou de declarar falência e entregou ao banco a casa que não conseguiu quitar?
Será que ele levou consigo o que restava da alegria desbotada dos velhos da América, antes dessa sua administração?
Ou o desapontamento de um jovem, descrente com os rumos que tomou a nação e sem saber se poderá freqüentar, algum dia, a cadeira de uma universidade?
Terá levado o sorriso inocente de alguma criança?
Será que levou entre as suas coisas a incerteza de um imigrante indocumentado, ou a dor desses que deixam suor e juventude adubando esse solo, e que são humilhados cotidianamente como se fossem os culpados por todas as mazelas por que passa o país?
Será que levou consigo a tampa do poço? Sim, esse poço infinito, do qual nos últimos anos do seu governo não conseguimos ver o fundo... Será?...
O helicóptero levanta vôo e, lá de cima, George W. Bush deve estar vendo, certamente, a multidão que marcha enfrentando o frio cortante de Washington DC, com a alegria dos que vão a um desfile de carnaval em pleno verão.
Não sei se a massa que se arrasta freneticamente na frente do capitólio e dos principais monumentos da capital do poder sente ressentimento. Sente frio, é natural, mas um desejo maior os conduz em direção ao futuro.
Consigo imaginar que estejam sentindo o que eu sinto, nesse instante.
Isto, que vai além de um arrepio constante da cabeça aos pés, um frenesi que causa uma enorme vontade de cantar e abraçar todos os que cruzarem o meu caminho.
Bush levou muito da tranqüilidade do povo americano em sua bagagem, é verdade. E sei que levou muito mais.
Mas ele esqueceu-se de levar a nossa esperança, nossa vontade de virar o jogo e a fé em melhores dias.
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video

David Duarte, cantor e compositor cearense, dizendo Clarice Lispector.

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Frágil coração de poeta

Coração de poeta é um objeto frágil, peça de cristaleira que, se cair, pode quebrar. O meu deu um grande susto na semana que passou. Estava deitado, encafifado com um mote qualquer, pintando na tela branca do teto mais um impossível Renoir. Foi quando senti aquela pontadazinha no peito. Ignorei, pensei que fosse prisão de ventre. Não era. Fui ficando assustado.
Diante daquela súbita ameaça, dei um salto da cama e fiz a coisa mais sensata que qualquer homem faria num momento desses: gritei por mamãe.
E ela veio.
Dona Rute, de visita, correu pra me socorrer. Fez massagem, compressa de toalha molhada, rezou para São Judas Tadeu, mas o suadouro não parava. O jeito foi rumar para o hospital mais próximo, antes que fosse tarde demais.
No hospital, demorou a cair a ficha. Veio a bateria de exames de coração e a coleta de sangue suficiente para escrever um poema num muro qualquer. O eletrocardiograma indicava que estava tudo bem, mas o exame de sangue não deixava dúvidas: eu havia enfartado.
Enfarte é uma palavra tabu. Como a brochada, o exame de próstata e a “freada de bicicleta”. Homem evita tocar nesses assuntos.
É como se um vampiro escutasse alguém pronunciar “alhos e bugalhos”. Ou Disábato diante de um prato cheio de bananas. Ou, ainda, George W Bush recebendo pela Fedex um pacote de Osama. Mas, ali estava eu, na contra-mão da história, sofrendo por assuntos periféricos, que não mereciam mais a atenção. E enfartado.
No escuro do quarto de hospital depois que todos se foram, chorei miúdo. Afinal, quem tem coração, costuma chorar numa situação dessas.
Pensei nas pessoas que dependiam de meu trabalho para ter sobre suas mesas um pedaço de pão, nos que verdadeiramente me queriam bem e nos que não mereciam participar daquele pensamento dolorido na solidão de meu corner. Custou a amanhecer.
Sabino Torre, um italiano de aproximadamente 50 anos, bigode à Barão do Rio Branco, considerado uma das maiores autoridades em cardiologia em New Jersey, cuidou do caso. Antes de entrarmos na sala de procedimento cirúrgico, enquanto uma enfermeira filipina muita bonita depilava minha virilha – o que muito me constrangia -, ele chegou ao meu ouvido e cantou a bola. “Deixa comigo, meu chapa. Você não poderia estar em melhores mãos. Vai ser uma viagem suave”.
Mais um calafrio.
Felizmente, o cateterismo mostrou que não havia bloqueamento das artérias. Eu não havia, verdadeiramente, enfartado. Tratou-se de um vírus que se espalhara por várias partes do corpo e tentou, num momento de suprema audácia, se alojar no lugar sagrado onde só deveriam entrar as musas, os familiares, os bons amigos e as letras do alfabeto usadas na composição de poemas e canções.
O músculo da emoção, diante da ameaça de invasão, expele uma enzima que só é dectada através de exame sanguíneo. Trata-se da mesmíssima enzima que anuncia o enfarte. Após uma semana sob observação e transformando minha ala do hospital numa Marquês de Sapucaí, fui liberado. As enfermeiras, acostumadas a lidar com velhinhos descendo a serra e suas bocas sempre abertas, abandonaram por alguns dias a sisudez e o pragmatismo pelos quais elas são conhecidas, e entraram no samba do mineiro doido. Foi quase uma festa.
Fazia muito que as moças do Saint Barnabas não cuidavam de um paciente tão pirado. Uma delas chegou a sugerir que eu estaria na ala errada. A de psiquiatria ficava no outro extremo do grande complexo hospitalar de Livingston. Se não deixei saudades, terei deixado alívio. Vou enviar flores e chocolates qualquer dia destes. Junto com meu pedido de desculpas, obviamente.
Conversando sobre o assunto com Kledir Ramil, recebi algumas recomendações, que deverei seguir à risca. Para quem não sabe, além de inspirado cronista e cantor, ele é também dublê de proctologista e consultor de informática para leigos de todos os credos.
Usando seu método infalível irei cortar radicalmente o consumo de bebidas alcóolicas, sexo, rapé e alimentos gordurosos, como o torresmo de armazém e o pé-de-porco de botequim.
Passada essa fase de abstenção, entrarei na fase da prática de hábitos saudáveis. Caminhada na esteira, um litro de chimarrão por dia e vegetarianismo.
Vegetarianismo vem a ser um tipo de alimentação praticado por antigos povos afeminados, como os espartanos e os pelotenses, que sabidamente desenvolve a resistência das coronárias e a sensibilidade artística. Com sorte, serei parceiro de Kleiton & Kledir numa penca de canções.
Irei cortar os açúcares, as massas e, em caso supremo, os pulsos.
Se tudo isso não adiantar, instalarei um antivirus no coração. Segundo Kledir, se dá certo no computador, deve dar certo na gente também. Pode ser um Norton, um McAfee, ou de uma outra marca qualquer.
Embora eu preferisse, caso já existissem no mercado, os da marca Drummond, Rimbaud ou Baudelaire. Esses, sim, os antivírus mais adequados para coração de poeta.

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A certa altura da vida começamos a aprender
a esperar o tempo. A certa altura da vida o que
nos mata não são as horas. O que nos mata são
as palavras e a ausência de palavras.

Baptista Bastos

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Limando o Lima


Fosse aqui nos Estados Unidos, alguém com o sobrenome Lima iria procurar quem inventou a expressão “Mandar o Lima” e processá-lo. O bordão é sinônimo de descaso e é usado toda vez que alguém não quer ir a algum compromisso, e resolve mandar o Lima em seu lugar. Dizem que Tim Maia mandou o Lima a muitos de seus shows, e que teria sido ele o cunhador do mote.
Estivesse vivo e morando nos Estados Unidos, algum distante parente meu arranjaria um jeito de processá-lo, demandando milhões. Aqui se processa por tudo. Teve uma dona que ganhou uma grana porque uma lanchonete McDonalds serviu-lhe um café quente. Já no carro, o copo de café caiu-lhe sobre o colo, queimando parte das coxas. Isto talvez explique o cafezinho morno que andam servindo por aí.
Nos anos noventa, “Bráulios” do Oiapoque ao Chuí bem que poderiam ter se manifestado em tribunal. Foram injustamente estigmatizados.
Fosse o Brasil os Estados Unidos, o processo teria sido movido contra o ministério da Saúde, que na campanha de prevenção contra a aids, sugeriu que se plastificasse, encapuzasse, encamisasse os suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis, Bráulios de todo o país.
Os imprudentes burocratas da Saúde teriam facilitado as coisas sem traumatizar ou ofender ninguém, tivessem escolhido um nome que não quisesse dizer outra coisa, que não o próprio dito-cujo. Qualquer slogan simpático resolveria:
“Não corra riscos desnecessários! Na hora da transa, plastifique o seu Bilau”.
Não conheço ninguém com esse nome. Bilau da Silva; Bilau Osório; Bilau de Andrade.
Essa de mandar o Lima é uma bossa relativamente nova. Mas existem registrados alguns casos bem antigos. Dizem que o Lima fez muitos dos exames anti-dopings de Diego Maradona, quando este jogava no Napoli. Aliás, era o Limone quem fazia o xixi no lugar do baixinho.
Aldir Blanc narra em seu livro Rua dos Artistas & Arredores, uma preciosidade, que conto aqui com algumas “adaptações”.
Um rapaz do bairro havia combinado de fazer uma serenata junto à janela de uma moça. Seria uma serenata em que pediria a mão da beldade em casamento, e para a qual já estavam confirmados alguns dos melhores músicos da região.
Os preparativos corriam dentro dos conformes e houve até quem consultasse a folhinha Mariana para ver se seria noite de lua cheia. Afinal, serenata e lua cheia ficam perfeitas juntas.
A uma semana da grande serenata, no entanto, o candidato a noivo classificou-se para as semifinais de um campeonato de sinuca no bairro vizinho. A partir daquele momento criou-se um impasse. E ele teria que tomar uma decisão importante.
Uma decisão que denotasse responsabilidade e bom senso.
Foi assim que ele acabou em terceiro lugar no campeonato, sem fazer feio na serenata.
Um amigo dele – provavelmente de sobrenome Lima – fez um emocionado discurso, declamando versos românticos e pedindo a mão da noiva em nome do ausente, informando que este tivera um “compromisso inadiável”.
Foi muito aplaudido e o pai da moça não só permitiu o namoro, como ainda abriu uma garrafa de uísque, que guardara durante muitos anos para uma ocasião especial.
Se aconteceu, verdadeiramente, eu não sei, mas o certo é que todos estamos sujeitos a levar um bolo. E muitos destes bolos são involuntários. Aconteceu, muito recentemente, comigo.
Kiko Sales descobriu que seria aniversário de César Augusto, amigo querido de ambos. Precisávamos homenageá-lo.
Combinamos com outros amigos comuns de sairmos juntos, e celebrarmos a data magna do jornalista. Só que César e a esposa Luciana estavam de viagem marcada para as Bahamas naquele dia, e não poderia participar. Na ausência deles, remarcamos para a volta.
Quando ligamos novamente para avisar da nova farra, ficamos sabendo que na data escolhida, eles estariam a trabalho em Boston.
Não desanimamos.
Saímos, jantamos, festejamos e ligamos para ele na hora do parabéns, com todos soltando a voz em desafinado uníssono. Até os garçons ajudaram a engrossar o coro ligeiramente alcoolizado.
No dia seguinte, logo pela manhã, encontro no celular uma mensagem do aniversariante:
- Foi minha melhor festa de aniversário de que não participei. Muito obrigado!
Espirituoso, César Augusto não perdeu a piada e nem os amigos. E ainda ganhou, de presente, esta crônica aqui.

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Friday, November 20, 2009

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Tempo, o Senhor de Tudo
(Para Ciro e Marcie)

O tempo, às vezes, é um objeto. Ainda ontem escutei alguém afirmar tê-lo perdido. E comigo! Eu não o tenho em minha posse (juro!).
Eu, que já perdi a carteira, o telefone celular, as chaves de casa e do carro, e até algumas oportunidades na vida, fiquei matutando se já perdi o meu tempo.
Pensando nestes termos, é uma obviedade afirmar que tanto se perde quanto se ganha tempo. Já me peguei adiantando umas coisas para ganhar tempo. É regra geral.
Quem mata o tempo não é um assassino e, sim, um suicida. Afinal, o tempo é imortal. Desde o início dos tempos.
Ponho-me a divagar sobre o tema, mesmo sabendo que isto será pura perda do próprio.
O tempo é cruel. Erode. Enruga. Estraga. Desbota.
Apenas algumas coisas ficam melhores com sua passagem. Dizem que o vinho é uma delas. Certas pessoas, também.
O tempo é matéria: é duro, de ferro.... É volátil e evapora feito éter. Tudo depende de sua vontade.
É um atleta e corre como ninguém. Mas às vezes demonstra vocação para lesma – e passa bem devagar.
Ele é inesquecível. Deixa sempre sua marca. Basta um olhar no espelho para encarar essa triste realidade.
Nascemos condenados a sua ditadura, concluo. Mas ele também é democrático, pois passa para todo mundo.
É um estilista. Dita a moda. Nunca é omisso, está sempre presente. Ele é sina, comprida ou curta.
Tive um irmão que morreu aos três anos de idade. E uma irmã que partiu logo ao nascer. Não tiveram tempo sequer de olhar no relógio.
Tempos modernos. Tempos passados. Tempo, tempo, tempo...
Bons tempos. Velhos tempos. Tempos de guerra e paz.
Inventor da saudade e da nostalgia.
Latifundiário, criador de vacas magras. E também de vacas gordas. Vale perguntar: onde foram parar os bois do tempo? Ou serão eles os Bois-tempo de Drummond?
Trabalha com agricultura. É de semear e colher.
É capitalista. É dinheiro.
Algumas pessoas o possuem de sobra. Outras não o tem para nada.
Às vezes ele nos cobra na mesma moeda. E não temos outra opção senão dar tempo ao tempo.
De vez em quando, o temos a nosso favor. Mas, quase sempre, ele joga contra.
Vivemos correndo contra ele, quando na verdade é ele que corre contra nós. Sobre todos e sobre tudo. Ele nos atropela como um rolo compressor. Mas consegue ser sábio e justo.
É como um juiz que não erra em seus vereditos. Diz quem está certo ou errado. Ou será que vocês nunca escutaram o refrão: “o tempo dirá quem tem razão”?
E esta é uma grande responsabilidade da qual o tempo não se esquiva. Ele faz chuva e faz sol. É de boa e, ao mesmo tempo, má índole. Escutei no rádio, por exemplo, que amanhã vai fazer tempo bom. Mas que depois de amanhã fará mau tempo.
Este senhor de mil faces é, de fato, inquieto.
Ele não pára.
É um automóvel sem freios.
Não, não pára. O tempo é tic, tac – e o que o fica entre o tic e o tac.
É um tipo raro de pássaro sem asas. Mas voa.
É uma espécie de guru que desperta em nós a generosidade: devotamos tempo aos outros e ficamos sem tê-lo para nós mesmos. É onipresente. Está em todo lugar. Ou melhor, passa por todo lugar. Passa sempre. O que às vezes me faz pensar que o tempo é Deus.



*

No dia 11 de Setembro

Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibet, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Ela molhará seus cabelos grisalhos nas águas do riacho, e sentirá escorrendo por seu rosto uma alfazema límpida e confortante.
Tranqüila, entenderá perfeitamente a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale bonito, verdejante, e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.
No limite das duas Coréias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto, carros, buzina e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada rua londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos chilenos.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de idéia e promete plantar um jardim. Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Ariel Sharon receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.

Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.


** Essa crônica foi escrita um ano após o ­ataque terrorista de 11 de setembro e será publicada nesta época do ano, enquanto eu viver, como forma de tributo a todos que perderam sua vida no episódio.


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Minas Gerais, Um Lugar Especial

Não trabalho para a secretaria de turismo de Minas Gerais. Mas quero te convidar a vir comigo a Minas. Convoco os gaúchos a fazerem o mesmo que estou fazendo, exaltando os pampas e suas belezas.
Os paranaenses, cantando a Ópera de Arame, a Serra da Graciosa e o antológico barreado de Morretes.
Os cearenses, descrevendo suas praias, o calor do seu sol.
Os amazonenses, tecendo loas às belezas naturais da maior floresta do mundo. E por aí afora.
Todo brasileiro, caso seja da sua vontade e, cada um à sua maneira, poderia ser um guia turístico informal. E o Lula bem que poderia mandar um dinheirinho para ajudar na saliva.
Tenho orgulho do lugar de onde vim, de sua gente hospitaleira, suas montanhas que quase tocam o céu, suas ruas estreitas, as igrejas banhadas a ouro, a culinária robusta, e toda a história que Minas carrega em sua bandeira: Libertas Quae Sera Tamem.
Quero te convidar, caro leitor, a um passeio por Ouro Preto, Tiradentes, Mariana e Diamantina, para um banho de barroco.
Quero que tenha a estranha sensação de caminhar sobre as tabuas onde repousa o corpo de Aleijadinho. E te mostrar o que ele fez em vida, seus anjos, seus santos, seus girassóis. Vamos a Congonhas do Campo apreciar a beleza de seus profetas, sua obra-prima. E vamos além.
Quero que vá comigo ao Mineirão assistir Atlético x Cruzeiro, um dos clássicos mais importantes do futebol brasileiro. No intervalo do jogo, comeremos juntos um prato de feijão tropeiro: arroz, feijão tropeiro, alguns torresminhos, couve cortada bem fininha e um essencial ovo frito, esparramado por cima. E por apenas 5 reais.
Poderemos ir ao Vale do Jequitinhonha comprar umas peças de artesanato, lindíssimas, feitas por gente do povo, gente simples e talentosa, que transforma o barro que vem do chão em sustento.
Podemos conhecer o circuito das águas, ao sul do estado. Dizem que as águas de Caxambu, São Lourenço e Araxá operam milagres. Que elas lavem nossas mágoas e tristezas, então. E nos dêem uma alegria novinha em folha, além da sensação de frescor.
Se for da sua vontade, meu caro visitante, poderei te mostrar os cenários onde bambas de nossa literatura moldaram suas obras. Vamos a Itabira, trafegar pelas ruas de Drummond. Pode ser que encontremos aquela pedra do meio do caminho, do poema "José".
Sei de um atalho até Cordisburgo, onde Guimarães Rosa viveu e pariu seu Grandes Sertões, Veredas. Te levo à casa de Guimarães. Mostro-te a cama onde ele dormiu. A mesa onde ele se sentava para tomar café.
Não muito longe dali está a gruta do Maquiné, um lugar místico, especial. Dependendo da sua disposição, dá até para ir a pé.
Posso te levar para "savassear", termo usado por Roberto Drummond, para descrever as caminhadas que fazia todos os dias pelas ruas do bairro mais charmoso da capital do estado. Te mostrarei a estátua que ergueram em homenagem à ele. E nos sentaremos na livraria da Travessa para um cafezinho com pão de queijo, sentindo aquele cheiro inconfundível de papel e tinta, que exala dos livros ao nosso redor.
Irei te levar ao Mercado Central para tomarmos uma cerveja em pé, com o umbigo colado ao balcão. Comeremos fígado acebolado e jiló. Uma iguaria.
Te oferecerei abacaxi no palito. Mostrarei os saborosos e emblemáticos queijos mineiros, nossas compotas, as montras de carne de sol, o artesanato, e as frutas, que abundam na região.
Se ainda não saboreou uma pitanga, um jambo, uma jabuticaba, uma carambola, uma mangaba ou um cajá, essa será sua chance.
Você que anda precisando de sustância, refém das dietas e da ditadura da balança, relaxe: frango com “Ora-pro-nobis”, ao molho pardo e com quiabo e angu; leitãozinho à pururuca, tropeiro e tanta, mas tanta coisa gostosa, que você voltará para casa com um pequeno sentimento de culpa.
Te levarei pra uma via-sacra pelos bares de BH.
Comeremos uma traíra sem espinhas no Careca. Uma maçã de peito na Mercearia do Lili e um rabo apertado no Zezé. Tudo acompanhado por uma pinguinha de alambique, da boa.
Te levarei à praça do Papa para ver a cidade à noite. Com um pouco de sorte, pode ser que algum violeiro esteja fazendo uma serenata por lá. No outro dia sonhei que Celso Adolfo cantarolava a canção Nós Dois, compenetrado, derramando sua voz afinada e grave sobre os telhados de BH. Só ele e seu violão.
Minas tem montanhas, cachoeiras, tem rios formosos. Podemos fazer um passeio de vapor pelo São Francisco. Você vai gostar.
Para fechar o passeio, se não consegui te impressionar até aqui, passaremos pela casa de meus pais. Minha mãe faz um franguinho caipira que não é deste planeta. E meu pai tem sempre um causo pra contar.
Lá tem cuitelinhos que bebem água doce na janela da cozinha, tem sanhaços amigos bicando bananeiras no quintal, árvores frutíferas e um céu absurdamente azul. E uma varanda, com um sofá velho (daqueles que abraçam a gente) de onde dá pra ver, de dia, todo o esplendor das montanhas mineiras e, à noite, a lona do céu salpicada de estrelas.
Você, caro leitor, precisa conhecer Minas Gerais.


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Essas Mães Interioranas


Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.

Dona Marocas, dona Ercília, dona Dózinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.

Dona Cilinha cantava no coro da igreja.

Dona Marocas - mãe das moças mais bonitas - era sábia, dava conselhos, e não carregava nenhuma tristeza no olhar.

Dona Ercília ajudava os pobres.

Dona Dózinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.

Dona Lola freqüentava uma igreja crente.

Dona Niquinha cuidava do jardim.

Dona Vilma plantava hortaliças.

Dona Esmeralda chorava às escondidas.

Dona Filhinha mentia.

Dona Socorro fazia biscoitos.

Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.

Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.

Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.

Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.

Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.

Dona Ana era calada.

Dona Angélica alfabetizava meninos.

Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão scânia vabis.

Dona Rita organizava a novena.

Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.

Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.

Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.

Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.

Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.

Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.

Dona Teresa dançava catira.

Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.

Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.

Maravilhosas, aquelas mulheres. Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?

Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e recheado de oferendas da mais profunda gratidão.

Santificadas, sejam, as nossas mães.

Santifiquemos. Santificai!
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De Almas Gêmeas e outros Afins

Cada pessoa se encanta pelo que lhe enche o espírito. Ou pelo que lhe salta aos olhos. É raro quando encontra-se alguém tão parecido com nós próprios, e é nessa situação que aparecem as chamadas almas gêmeas, as grandes amizades, os grandes amores.
Mesmo nas diferenças, essas pessoas “iguais” aprendem logo de início a ser tolerantes, e não se incomodar tanto com os defeitos, ao passo que as virtudes ganham especial realce, um holofote azul que lhes maximiza cada detalhe.
Os amigos verdadeiros são solidários, tomam nossas dores, sopram nossas feridas e celebram sem inveja as nossas vitórias.
É muito bom quando encontramos na vida, alguém que se encaixa em nossa história de forma sincera, descomprometida com outra razão que não seja a dos laços genuínos.
Paulinho Mota, um conhecido meu lá de BH capaz de frases inspiradas e colocações sagazes, costumava dizer, depois de umas cervejas, que só tinha amigos iguais a si próprio.
E emendava: um cachorro cheira o outro, pelo rabo.
Os iguais se igualam, sim. Os opostos se evitam.
Inimigos não se sentam à mesma mesa por prazer.
Negociam, assinam tréguas, armistícios, mas são água e óleo e não se misturam, verdadeiramente, fora desse contexto estritamente de formalidade.
Não possuo esse “software” e não consigo me relacionar com pessoas que me beijam pela frente, enquanto sei que corro o risco de ser apunhalado pelas costas.
Guardo no coração amizades raras, que cabem na mão.
Deus foi generoso comigo ao longo da vida. E mesmo não sendo absolutamente iguais a mim, esses irmãos gerados no ventre de uma outra mãe, acrescentaram muito ao meu viver.
Nos momentos de perrengue, das desilusões ou das necessidades, tive a ventura de ter ao meu alcance, uma mão firme para segurar, olhos que enxergavam o que eu não conseguia ver e me apontavam a direção correta.
Infelizmente, na caminhada da vida em busca de um lugar ao sol ou de um pedaço de pão, acabamos por nos perder dessas pessoas especiais.
Sim, sou meio estranho, admito. Sou capaz de ficar no frio esperando o primeiro bluejay da primavera. Converso com pica-paus, saúdo cardeais - elogio suas penugens terracota -, enxoto corvos do meu quintal.
Desde menino sou assim.
Encanto-me com pessoas que enxergam beleza em carrapichos, acham as açucenas as flores mais lindas do mundo, admiram-se com a imponência brejeira dos buritis e que preferem uma mesa de bar, a uma pista de dança.
Talvez seja por esse motivo que me identifique tanto com pessoas portadoras de dois pés esquerdos.
Sou absolutamente obcecado por música, por literatura e pelo ofício de rabiscar versos.
Dou um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair dela. Identifico-me com os Quixotes desta vida, pessoas cujos moinhos de vento são reais.
Embora possa causar uma impressão errada com atitudes que possam parecer sofisticadas, à mesa gosto mesmo é de rapa de arroz, de pão com lingüiça e uma cachacinha de alambique. Quem me conhece bem, sabe de minhas preferências.
Escrevo isso tudo porque lembrei-me com saudade de Edson Balinha, absolutamente lelé da cuca, um amigo querido, que guardo do lado esquerdo do peito e de quem me perdi em minha caminhada.
Um sujeito com quem me identificava tanto, crescendo, que olhava-o, a transitar pelas ruas e me via, caminhando dentro de seus sapatos. Almas gêmeas, ele e eu.
Balas, querido, essa crônica é pra você.
Aonde você estiver.
Tramas de um tema fugidio

Nem sempre quem vive do ofício de escrever consegue traduzir em palavras as suas visões, obsessões e sentimentos. Já me frustrei em várias situações, vendo-me obrigado a enterrar temas que julgava bons. Alguns eram de cunho pessoal, outros meramente circunstanciais.
Os circunstanciais costumam passar. Os de cunho pessoal, não. E ficam ardendo em quem não teve lastro para parir seu invento, marcando na pele da alma como se ferro quente fosse.
Quando minha avó morreu, eu quis escrever uma crônica declarando a ela todo o meu amor. Tínhamos uma história maior do que aquelas normalmente inerentes - e que já são imensas, por si - a uma avó e seu neto.
Eu, que nasci à luz de uma lamparina numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, tive em Ana Emília a parteira. Foi por suas mãos que vim ao mundo. Ela foi a primeira pessoa a me tocar e a embalar um choro meu.
Cresci apreciando seus frangos ao molho pardo, seus biscoitos de polvilho e a habilidade de alinhavar versos de encantadora pureza.
Acho que meu gosto pela poesia veio dali, daquelas singelas trovinhas de Ana Emília.
Mas Ana Emília se foi.
Ao contrário de tanta gente que pede a conta da vida, paga e sobe, contente, Ana Emília driblou, o quanto pode, o “garçom” da vida.
Tinha 104 anos quando se viu obrigada a assinar a fatura.
Deixou saudades, lições preciosas, e uma lacuna impossível de ser preenchida.
Senti tanto sua morte, que não logrei escrever absolutamente nada que traduzisse o que sentia - e sinto - por ela.
Sentava-me à frente do computador e não conseguia digitar mais do que meia dúzia de frases. Lia em voz alta, relia, tentava costurar palavras às emoções e apagava tudo, logo a seguir.
Mais de um ano depois de Ana Emília nos ter deixado, vira e mexe, a vontade de escrever alguma coisa para ela renasce. E me ilude, uma vez mais.
Como uma brasa acesa pela brisa da saudade, a fogueira da inspiração chega a se insinuar. Mas bate um vento mais forte que a tudo apaga, bloqueando as emoções.
E uma chuvinha fina, a do desânimo, começa a respingar sobre as idéias, arrefecendo o desejo de homenagear minha avó.
Mas esta não é a única frustração neste, digamos, “departamento”.
Existem outros temas que também não foram bem resolvidos, mas que o precisam ser.
Durante um bom tempo de um tempo bom da minha vida, pensei em escrever uma história de amor. O palco: Santana dos Ferros, terra de Roberto Drummond, uma figura definitiva em minha trajetória de operário da palavra.
Como um pupilo que provocasse o mestre, eu queria surpreender Roberto, que tinha obsessão pela morte. Seus livros evocavam isto:
Quando Fui Morto em Cuba, A Morte de D.J. em Paris, O Dia em que Ernest Hemingway Morreu Crucificado, Os Mortos Não Dançam Valsa, sua última publicação, atestam bem essa obsessão.
E eu queria algo que evocasse e celebrasse a vida.
Uma estória que, ao contrário das suas, tivesse um final feliz.
Uma estória simplória como a água da chuva, cuja sofisticação residisse justamente nessa singularidade.
Não haveria eletrizantes perseguições policiais, mas uma charrete rodando numa estrada de pé-de-moleque, ao som da percussão das ferraduras batendo nos cubos de pedra.
Ao invés de ditadores e agentes de espionagem truculentos, crianças correndo pelo jardim forrado de margaridas, lírios e jasmins.
Ao invés de assassinos de aluguel, seresteiros.
Ao invés do estampido de tiros de pistolas, espingardas, metralhadoras e garruchas, a suavidade de cavaquinhos, bandolins, violões e uma flauta.
Ao invés de golpes de estado, saraus.
E uma lua cheia cuja luz atravessasse a vidraça e a cortina do quarto desta aludida casa das margaridas, e iluminasse um casal trocando beijos e juras de amor eterno.
Mas sei que Roberto Drummond acharia essa idéia ingênua demais. Ele certamente não me permitiria escrevê-la, até o fim.
Meu mestre sempre preferiu beber da água turva do caos.
Ou a morte pela sede, com a dramaticidade apropriada de um personagem seu.

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O Cheiro de Deus


Feche os olhos, respire fundo, projete na parede imaginária que se ergue diante de você, não uma imagem, mas um aroma.
Resgate de sua memória a lembrança de uma coisa boa. Transcenda ao olfato e projete um cheiro de manga. De cajá-manga. E de pitanga.
Projete um cheiro de mar. Um cheiro de serra.
Cheiro de jaca madura. De Pequi.
Cheiro da pipoca estourando na panela mágica do carrinho do pipoqueiro na pracinha do seu bairro.
Cheiro do querosene queimando na trempe, que aquece a panela do carrinho do pipoqueiro da pracinha do seu bairro.
Cheiro de posto de gasolina.
Cheiro de oficina mecânica.
De lança-perfume.
Do perfume de alfazema.
E do bálsamo bengué.
Evoque o cheiro do álcool no algodão, antes da vacina ou da injeção.
Cheiro de um hospital brasileiro.
Cheiro de um jasmineiro.
Cheiro de cravos amarelos no caixão, adornando e perfumando os que partem.
Cheiro de fazenda, de estrume de boi e de chiqueiro de porcos.
Cheiro de churrasco no quintal do vizinho, num domingo, por volta das 11:30 da manhã.
Esse é o cheiro da inveja, meus amigos, uma inveja quase saudável.
Cheiro de tangerina, de bergamota ou mexerica, que é exatamente a mesma coisa, em diferentes regiões do Brasil.
Cheiro de chuva na estrada de terra levantando o poeirão.
Cheiro de feira.
Cheiro de pastel fritando em feira.
Cheiro de peixe. Peixe vivo. Peixe-frito.
De feijão saindo da panela-de-pressão.
Cheiro de hortelã. Cheiro de uva malbec.
Cheiro de talco pompom, com protex, que “protege o bebê”.
Cheiro de vela queimando na igreja. Cheiro de sacristia. E de confessionário.
Cheiro, mau-cheiro, de desodorante “vencido” em ônibus lotado em horário de ponto.
Cheiro de plantação de eucalipto.
Cheiro de pinheiral.
Cheiro de coentro.
De fumo de rolo.
E de manjericão.
Cheiro do guarda roupa rescendendo a traça, que é o cheiro do tempo transpirando.
Cheiro de naftalina. De creolina.
De pomada minâncora.
E de óleo de fígado de bacalhau.
Cheiro de biblioteca. De livro novo.
De lona de freio de caminhão, segurando o tranco a cem por hora numa descida de morro na Br-116. Ou na Fernão Dias.
Cheiro de banheiro de estádio de futebol, que é o cheiro de gol.
Cheiro de loção de barbearia. E de ponto final de ônibus.
Cheiro de rodoviária, que é o cheiro do adeus.
E o cheiro de Deus. Que é o cheiro de tudo isto, se manifestando num milagre que chamamos saudade.

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