Wednesday, March 21, 2012

Al Berto, grande poeta português

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16 de Janeiro (1985)

em tempos li muitos livros, hoje raramente leio. os livros cansaram-me, devoraram-me a pouco e pouco o prazer de ler.

o vento da noite traz imagens: um rapaz em calcário deitado no dorso dum cavalo azul perfura a claridade do mar. abro a janela do sonho, aceno-lhe, mas ele não me pode ver.

uma ave de palavras escreve no espaço a remota sabedoria do voo, depois desce e vem pousar suavemente na palma da mão. olho-a mas não ouso tocar-lhe.

acordo quando a ave e o rapaz se deitaram sobre a pele. abro os olhos e estendo a mão e o corpo para fora do sono, ergo-me por dentro do imenso vazio.

tudo se despedaçou. o sonho , e o amor que é sempre tão breve. o mundo dorme sob o vento. só eu continuo acordado, em vigília. se houvesse agora uma catástrofe eu daria por ela. levantar-me-ia daqui para encarar a morte, dizer-lhe que são inutilidades o que arrasta consigo.

estou gasto. dei-me sempre mais do que podia. não há nada que me possam roubar, sou um homem espoliado de todos os bens, de todas as doenças, de todas as emoções. sou um corpo pronto para a viagem sem regresso, para o crime e para a morte. sou um corpo que se evita, um homem cujo nome se perdeu e cuja biografia possível está no pouco que escreveu. sou um corpo sem nacionalidade, pertenço às profundidades dos oceanos, ao voo da ave migrante. sou um alfabeto e não sei se terei tempo para me decifrar.

lá fora anoiteceu.

são raras as claridades que do meu sangue sobem ao rosto. há um lume invisível no teu olhar, uma visão que o espelho me revela: cintilam cristais enquanto dormes, uma árvore cresce nos pulmões. assim construo as paisagens, assim te ofereço a morada de sossego e de prazer. mas tu não vens, porque me és exterior. posso criar o universo inteiro a partir das minhas células, só não posso criar-te a ti, corpo que morre na falsa juventude dos espelhos...

... a paixão revelou-se-me no instante em que percebi que sabia quase tudo da vida, mas já não foi possível perder-me na tentação do suicídio. nunca amei e nunca fui amado: ignoro se isto é verdade, o mais provável é ter inventado, um dia, esta mentira, unicamente para me salvar.

que horas serão para lá deste século?

onde estaremos neste momento?

estarei eu em ti ou serás tu que me devoras e me comoves?


... teu nome, pronuncia teu nome para que seja impossivel esquecer-me do meu. diz-me o teu nome de ontem, quando éramos o reflexo exacto um do outro. toca-me o rosto com o teu nome, ou pousa-o sobre as mãos; debruça-te para dentro de mim e deixa que o segredo do tempo fulmine os ossos.



Al Berto
In: O Medo


A Música Que Toca Sem Parar:
de Celso Adolfo e na voz de Renato Braz, Trentina.

Rovereto, Ouro Preto, um camim, meio do mato
Piedade, o capim, nove horas tem missa
cadê seu missal, Zizinha, Joaquim?

Já vai dar seis horas, a mesa tá posta
Virgílio aponta a beleza da encosta
e na gente a imensa paixão

Castelos, assombros e mais estações
troféus de caçada, muro, monções
'que alma no mundo é sem senões?'*

O olhar de Sofia
nem imagina, nem desconfia
quanto ela provocou da minha frágil paixão

Dudu, seu irmão, menino de colo
eu sei, foi Apolo o deus que lhes deu
esse olhar claro e quente que me ganhou

Um lobo saiu do Caraça
e passa voando tirando um fino
o meu coração trentino é um cafarnaum

Admirei maçãs no caminho do Castelo Thun
aonde eu cantei mais tranqüilo
e sereno do que pensei

Vi a fôrma da hóstia que o bispo benzeu
a cisterna, a uva, a memória no breu
telhado e telhas que a chuva torceu

Falaram de um verso latino que é feito
de um espondeu e dois coriambos
e um jambo que o tempo colheu e comeu

Vê-se que o tempo ali desistiu
sob tábuas, túneis, tonéis e barril
fundição, mulheres, véus e funil

Passei a ponte, subi a torre
do Castelo Thun, pensei minha vida
eu era sozinho, eu era nenhum

A capela, o século quase comeu
umas pedras, o século treze engoliu
tinha gente que o século não demoliu

Era eu na janela com olhar de jejum
eu e Gilson e Beppo, Antonello e mais um
era nós e Francisco no Castelo Thun.


* Do poema "Castelos, estações" de Rimbaud.

8 comments:

Índigo said...

¡Madre mía, qué crónica: pura poesía! Me rindo ante tanta belleza. Y de nuevo me quedo sin palabras. Una prosa poética intensa, que no se agota, que brota, cada vez más bella, Roberto. Nunca nadie que no fuera amado ni amó pudo escribir lo que tú has escrito. Amaste y te amaron y la vida dejó lienzos escritos entre tus dedos. Y tú ahora nos los entregas, despojados y bellos. Sin palabras, Roberto. Una vez más boquiabierta. Un beso, Roberto.

Mirze Souza said...

Poxa, Roberto!

Enganar não vale.Eu já começava a ensaiar e dizer EU TE AMO, aí vi que não era seu e sim fdo Rimbaud, que também adoro.

Mas desta vez você ganhou. Me enganou.

Beijos, mano!

Mirze

Linda Simões said...

Lá fora anoiteceu e aqui dentro há o lume, a poesia,a vigília, as paisagens...

Beijo,

Linda Simões

Verso Aberto said...

as mais sinceras mentiras
nas quais nos reinventamos

do cacete Beto

abração mano

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Senão os grandes poetas, quem nos pode enganar a ganharmos com isso?

Abraço deste mero fingidor (que finge que finge que finge),

da rama.

Juliana Vinagre said...

Manin,

"debruça-te para dentro de mim e deixa que o segredo do tempo fulmine os ossos..."
Sasinhora...
Tá de brincadeira comigo esse Al Berto...

Saudadocê, Ro Berto.

LauraAlberto said...

fogo, Roberto, ainda nem consigo respirar...

abraço
beijo

Índigo said...

A mí también me engañaste, pero ya sabes que como soy manchega de adopción y algo quijotesca, leí, rauda y convencida de que eras tú... porque podrías ser tú, porque en el fondo eres tú, porque lees y nos traes crónicas, poemas y lecturas y nos haces respirar poesía, sea o no sea tuya. Porque trayéndola aquí la haces tuya y un poco nuestra... Abrazo grande, grande, Roberto.