Wednesday, March 7, 2012

A verdadeira cidade eterna

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Ultimamente tenho tentado me reaproximar de Governador Valadares.
Sempre amei Valadares, cidade em que passei 17 felizes anos de minha vida. Há muito que não apareço por lá.
Meu medo é o de que aquele lugar que cresci amando, já não exista mais.
Algo como um amor da adolescência que você reencontra, muitos anos depois, casada, maltratada, mãe de cinco filhos, esperando a condução num ponto de ônibus. Não, ainda não aconteceu comigo.
A Valadares da minha saudade tinha coqueiros beira-rio, ingazeiras, mangueiras onde se colhia frutas de ouro, suculentas e doces.
Em São Raimundo - o bairro que me viu crescer -, as ruas tinham nome de pedras.
Os poetas Abel Costa e Bispo Filho moravam na Esmeralda. O meu pouso era na Topázio e os amigos de futebol, Marquinhos, Ney e Wellington Mingau viviam na Turmalina.
Joguei bola na Granada, quase namorei uma moça na Ametista, corri da polícia na Safira.
Nada grave, apenas um bando de meninos pulando a cerca de uma chácara alheia para apanhar carambolas, jambos, jenipapos e pitangas.
Na minha Valadares tinha campinhos e os varzeanos Ibituruna, Democrata, Pastoril, Copevale, Covepe, Santa Helena, Everest e Vermelho 27.
O rio, que ainda hoje atende pelo mesmo nome, Rio Doce, tinha margens verdes, prainhas, remansos, corredeiras, e peixes de ouro e prata.
Tinha piau, tucunaré, timburé, corvina, lambari, bagre e tantos outros tipos de peixe, que eu precisaria de uma crônica inteira para tarrafeá-los.
Na cidade que resiste em minha emoção como oitava maravilha do mundo, tinha uma pracinha e uma fonte de onde jorrava uma cascata luminosa que mudava de cor.
Tinha banquinhos de cimento onde casais namoravam sem medo de assalto; tinha ainda um pipoqueiro e meninos sem camisa carregando caixas de isopor entoando o bordão: Aê o picolé! Aê a laranja!
Tinha castanheiras frondosas espalhadas às margens das estradas, ypês amarelos e roxos aos pé da serra e flamboyants que sangravam no verão.
Na Valadares - que não morrerá jamais - existia uma santa que nos abençoava do alto do pico do Ibituruna, braços sempre estendidos, sorriso enigmático como se anunciasse chuvas.
Minha cidade eterna tinha personagens igualmente eternos, como o ceguinho Olé.
Reza a lenda que Olé teria ganho na loteria mais de uma vez, mas que continuava a esmolar pelas ruas por puro prazer.
É a mesma cidade de Adriano Dias da Silva, o Casca Grossa, lenda do radio, uma espécie de celebridade local e que acabaria se elegendo vereador.
Cidade de Beto Tranca-Rua, repórter esportivo que também acabaria enveredando pela política, mesmo caminho escolhido por Júlio Tebas Avelar, homem que inventou o colunismo social nos jornais da cidade e que hoje colhe bonanças.
Naquele lugar que não morre nunca, jovens de ambos os sexos se amontoavam nas proximidades do cine Pio XII para tomar sorvete, comer cachorro quente e flertar nas noites calorentas de sábado.
Naquela cidade em que cresci, os vizinhos eram vizinhos de verdade, uma espécie de extensão da família.
Muito mais do que receitas de bolo e fofocas do cotidiano, trocavam gentilezas que iam desde um pouco de pó-de-café a uma caneca de açúcar, quando a lata da casa de alguém ficava vazia antes do combinado.
Viravam compadres, apadrinhavam filhos uns dos outros, casavam os filhos de uns com os dos outros, consolavam-se nas tristezas, ficavam felizes nas alegrias.
Naquele lugar tinha leilão de gado e barraquinhas no parque de exposições agro-pecuária, festa junina com bandeirolas coloridas, quentão, canjica, batata doce e fogueira no pátio da igreja.
Minha cidade eterna tinha quadrilha, dias de chuva e sol, sol e chuva, e casamento de viúva.
Também tinha quermesse e novena, um padre que nos ‘passava o sabão’ e um serviço de alto-falantes que despejava Roberto Carlos, Wanderléa e Wanderlei Cardoso sobre nós.
Tinha passarinhos nos quintais: tizís, rolinhas, canários do reino, curiós, andorinhas e cuitelinhos, que muitos chamavam de beija-flor. E tinha muito mais.
Na Governador Valadares do meu coração tinha cantos encantadores em todos os cantos, e tantas outras maravilhas, que fizeram de mim esse homem estranho, que passa o resto de sua vida correndo atrás do menino e do rapaz feliz que foi.



A Música Que Toca Sem Parar:
o hino (o verdeiro hino) de Governador Valadares é este aqui, composto por Zé Geraldo. Dele e com ele, Rio Doce.


Deposito em suas águas meu grande segredo
Parto pra cruzar fronteiras, engrossar fileiras

Compor meu enredo
Deixo suas margens ricas sob a sombra lírica da Ibituruna
Una, pobre sabiá que perdeu seu canto de frases ligeiras

Por ver se apagar a ilusão ardente
Tão inconseqüente da paixão primeira

Oh! Meu Rio Doce, doce são os seios da morena flor
Cor do seu Ipê
Que vive sob as gameleiras, pés de jenipapo

Junto de você
Leva essa morena no seu leito manso
Faz o seu remanso se vestir de azul

Que eu tô levando a minha mocidade
Pras velhas cidades e praias do sul
Tô levando a minha mocidade pras velhas cidades
E praias do su..ul

Oh! Meu Rio Doce, doce são os seios da morena flor
Cor do seu Ipê
Que vive sob as gameleiras, pés de jenipapo

Junto de você
Leva essa morena no seu leito manso
Faz o seu remanso se vestir de azul
Que eu tô levando a minha mocidade

Pras velhas cidades e praias do sul
Tô levando a minha mocidade pras velhas cidades
E praias do su..ul

Que eu tô levando a minha mocidade
Pras velhas cidades e praias do sul

8 comments:

Tania regina Contreiras said...

Nossa, uma viagem, porque, claro, viajei junto, só que indo para a minha "Rio Doce" baiana, da minha infância...histórias tão parecidas as dos que vêm das cidadezinhas. Uma crônica doce como o nome da sua cidade, Roberto, que mexe em memórias tão boas e bonitas! :-)
Beijos,

Bípede Falante said...

Então, Roberto, essa bípede também é cria do interior, também cresceu brincando de sombra em sombra, comendo os frutos no pé, isso quando já não comia as flores. Você já experimentou flor de goiabeira? Flor de goiabeira é praticamente uma goiabada com queijo em uma matéria só. Romeu e Julieta em um corpo só. E então, Roberto, essa bípede, que também saiu de casa pra viver outra vida (bem menos que a sua, é evidente), mesmo estando a quatro horas de casa, chorava um domingo sim, outro idem com fritas. Porque o interior é uma cidade de grandes espaços e gigantesco aconchego. No interior, o futuro fica quase sempre deslocado, mas o passado e o presente são como as casas e os lares que nos mostram o quanto a gente pode se transformar sem ferir a infância generosa que nos coube.
Belíssima crônica. Poética. Poesia crônicada rs
beijoss
BF

gagau said...

QUANTA SAUDADE,BRODINHA UMA VIAGEM NO TEMPO EMOCIONANTE, O HINO DE GV COM CERTEZA É ESTE MESMO,NÃO CABE OUTRO, NÃO EXISTE DECLARAÇÃO DE AMOR MAIOR.. QUANTO AO MINGAU EU JÁ TE FALEI O RISCO QUE TU TÁ CORRENDO ,FALA AGUA E FUBA MAS, NÃO MISTURA..RSRS BEIJOS NO TEU CORAÇÃO,LER VC ME FAZ UM BEM INIGUALAVÉL. GAGAU OU AGUA E FUBA

Assis Freitas said...

essas pedras no caminho não fizeram calo, elevaram-se em altos voos


abração

Índigo said...

Una ciudad que te vivió y que tú viviste y que ahora revives en tu memoria y que hizo de ti ese hombre que escribe estas crónicas de lo bello y lo pequeño; ese hombre que atesora esas pequeñas grandes cosas que valoramos cuando te leemos. Un abrazo grande, entre azules y añiles, y algún que otro recuerdo, Roberto.

MIRZE said...

Roberto!

Conheço quase todas as cidades de MG, mas nunca fui em Governador Valadares.

Perdi, como sempre.

Beijos

Mirze

Daniela Delias said...

E a gente que te lê viaja "facinho, facinho" pra esses mundos tão bonitos de que falas...

Bjo!

Aline Pereira Silva. said...

Olá!
Muito obrigada pela visita e por seguir meu blog. É uma honra para mim.
Você escreve maravilhosamente bem.

Grande abraço
Aline