Saturday, March 3, 2012

Dois Poemas de Vasco Gato e uma canção portuguesa
























Um dizer ainda puro



imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.


dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.


diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.



in
Um Mover de Mão,
Assírio e Alvim, 2000.


***


A tarde despedaçou-se
e nunca houve outro anseio
senão esta claridade sem sol,
a lenta supressão de uma morada.
Espiamos as naves que se soletram
a ouvido nenhum,
tocando um do outro
os dedos mais
sinceros.

Estamos prontos para singrar
na noite do nosso
desassossego.


[in Napule, Tea for One, 2011]



A Música Que Toca Sem Parar:
da lavra do mestre Sérgio Godinho, a magistral Definição do Amor.

"Amor é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer"
(Camões)

Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas mãos do amor
coroando o amor e os seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos

Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um "assim fosse"
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta na pena deste poeta:)

É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá cor
é uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas

Mordidas mansas, emoções
suspiros, densos, afagares
liberto das definições
o amor define os seus lugares
ilhas desertas até ver
ver o sol, a chuva
o arco do corpo
arco-íris, corpo a corpo
cara a cara, cor a cor
incandescendo o olhar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá cor
é uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

E ao pôr o dedo nas feridas
que supúnhamos curadas
provas de fogo atravessamos
no mar alto festejadas
não se controla o inesperado
nem se diz o indizível do amor
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá cor
é uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

11 comments:

Índigo said...

Posar dedos en dedos, criar el silencio y no abandonar la flor: ¡ojalá seamos capaces de seguir haciéndolo, incluso cuando ya no llame más a nuestras puertas ese flor que lo remueve todo y que duele sin doler y que nos esponja el dolor! Ojalá, Roberto, ojalá. Besos en añil.

Assis Freitas said...

ora pois, o moço com nome de navegante põe velas a içar no leito do poema e flutua em tantos horizontes, a canção vibra e de cá vibro eu

em abraços e saludos, broda

Luiza Maciel Nogueira said...

Sempre com um ótimo bom gosto musical e poético. Canto junto em homenagem ao nosso poeta:
"Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas mãos do amor
coroando o amor e os seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos"

Maravilha quantos Jerónimos cabem em um heterônimo e vice versa.

beijos

MIRZE said...

Mas que lindo!

Ó pÁ! Esse portugues dá para entender. Gostei!

Mas vim aqui para dizer: Olha o TORNADOOOOOOOOO!
]

Beijos

Mirze

Primeira Pessoa said...

pois é, mirze...
esses portugueses inventaram esta língua
e fazem dela, gato e sapato...

gosto muito.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

quantos jerônimos, luiza?
não sei.
juro que não sei.
mas sei que sergio godinho é uma espécie chico buarque de além mar (sim, não faço justiça), algo assim...sim, eu sei....
uma coisa é uma coisa...

e outra coisa é outra coisa...

boa mesmo, é a sua presença por aqui.

beijão do

roberto.

Tania regina Contreiras said...

sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

Nos-saaaa!!!!

A música que toca vei me embalando...

Beijos, querido!

Primeira Pessoa said...

taninha,
esses portas portugueses me encantam.
e a nova geração, putz.... sem de arrepiar.

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
esses caras são fodásticos...
a propósito do nome de marinheiro, o aviao sobrevoava a cidade do porto e eu vi, la em baixo, o mar todo encrespado e me deu um medão... um medão de lá dos anos 1500 de mim.

beijão, broda.

r.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
mais um poetama de seus vizinhos lusitanos, pintados no azul mais azul da verdadeira poesia.

beijão do

roberto.

Índigo said...

Besos, querido hombre mineiro. El azul. Los azules. La verdadera poesía me colma. Nos colma. A mi, a mis vecinos lusitanos. A ti. A nosotros. Beso grande, Roberto.