Sunday, March 25, 2012

Uma Canção Para Vó Glória

.


















Não vi que ela chegara de surpresa, momentos antes de eu emitir aquele sonoro palavrão.
Coisa corriqueira, uma dessas bobagens de trabalho, em que a pressão do “dead line” acaba levando a melhor sobre o bom senso e a razão.
O telefone tocava insistentemente e ninguém atendia.
E eu, que dava os retoques finais num texto qualquer, fui perdendo gradativamente a concentração e a paciência.
Visivelmente - leia-se audivelmente - irritado, gritei de minha sala:
- Atende essa porra aí…
Segundos depois, quando saio da sala para buscar um café, a cara quase caiu no chão, tamanha a vergonha.
Dona Glória estava lá, quietinha, sentada numa posição característica de “vó” (as pernas cruzadas, uma mão sobre o joelho e a outra mão postada em cima), com cara de quem estava fazendo de conta que não havia testemunhado tamanha grosseria.
Bem feito, terão pensado meus colegas de trabalho. Bem feito!
Fiquei desconcertado.
Extremamente desconcertado.
Mas fui lá, e fizemos as apresentações formais.
Dei-lhe um abraço, ganhei outro. Muito mais fundo. Um abraço maior.
No abraço de avó Glória veio o abraço de todas as avós do mundo e uma esperança de que meu dia iria mudar.
Que minha vida iria mudar.
E eu, aquele sujeito estressado que acabara de cometer uma enorme grosseria, senti-me perdoado ao ser abraçado por ela.
Senti na hora que não iria para o paredão.
Que não iria para o pelourinho.
Que não haveria cadeira elétrica, prestação de serviço comunitário ou outro degredo qualquer.
E que meu destempero havia sido compreendido, embora tudo ali tivesse sido devidamente registrado na caderneta de más-ações.
Não cheguei a pedir desculpas, creio eu. Bad boy!
Aquele nosso abraço, que durou alguns segundos e pareceu eternizar-se como uma das coisas boas dessa vida, transpôs-me a um lugar bonito, muito distante dali.
No abraço de vó Glória veio uma sopa de legumes num dia de gripe e febre.
Veio uma bandeja de quindins, brigadeiros e biscoitos de polvilho.
Veio um embrulho colorido com o meu nome escrito, sob uma árvore de natal.
Veio um dia ensolarado.
E um entardecer vermelho, com o sol se derretendo, lentamente, nas águas claras do rio.
Veio o som de um radio ao longe, na hora do ângelus, tocando a Ave-Maria.
Veio a lembrança de um bichinho de estimação que bem poderia ser um coelho branquinho, de olhos encarnados; um gato rajado ou um cãozinho vira-latas, daqueles que nos seguem o tempo inteiro e se deitam ao pé da cama.
Veio a imagem de um campinho de futebol, de gramado verdinho e traves feitas de bambu, com um monte de meninos pretos e brancos e pardos correndo atrás de uma bola alaranjada.
Veio a algazarra de crianças na hora do recreio.
E o canto de uma cigarra.
Veio um carrinho de rolimã desembestado descendo a rua, um embornal recheado de bolinhas de gude, um peão e um ioiô.
Veio um pé de fruta, carregado de delícias de toda cor.
Pitangas vermelhas, cajus amarelos, laranjas douradas.
Carambolas. Jambos. Graviolas. Pequis. Mangas. Cajás.
No abraço dela veio um ‘corguinho’ cheio de lambaris e carás, mandis, traíras, cascudos e piaus.
Veio uma árvore apinhada de passarinhos, canários-do-reino, tizius, sanhaços e bentevís.
Veio o telhado de uma igreja coalhado de andorinhas.
E um solo de curió.
Veio uma estrada de chão cortando a paisagem, e um Jipe Rural em plena trajetória, levantando a poeira.
E veio também uma chuva de verão, respingando tudo, renovando a vida e deixando no ar a fragância de terra molhada.
No abraço de vó Glória veio a primeira comunhão e a roupa nova, a camisa de tergal ainda com cheiro de loja, a calça-curta, o sapato “colegial” e a meia branca até o meio da canela.
Veio também o primeiro dia na escola. E um sorriso orgulhoso no dia da entrega do diploma do curso primário.
Veio um almoço de domingo, em família, com direito a macarronada, frango de “televisão de cachorro”, maionese, e uma soneca coletiva.
No abraço de vó Glória veio ainda uma blusa de lã, que ela mesma teceu, absolutamente compenetrada, gangorreando numa cadeira de balanço.
Veio também a esperança de que eu viesse a ser, no momento certo, e apesar de todas as carências e deficiências, um homem bom.
Um homem que soubesse pedir desculpas.
Que soubesse pedir perdão.
E é o que tento fazer até aqui.
É essa a intenção, apesar de todo o atraso, nessa crônica-pedido-de-desculpas.
Vó Glória, desculpa! Foi mal.
Desde aquele dia, tenho procurado me comportar melhor.


A Música Que Toca Sem Parar:
Caetano Vleoso e Nicinha, dele, Alguém Cantando


Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão

22 comments:

Índigo said...

Intensa, bellísima y lírica disculpa. Más que disculpa, abrazo, abrazo extendido, sentido y que llega hasta aquí, que trasciende y se huele, y se oye y se siente porque tuviste ese abrazo que te hizo redescubrir lo bello de lo diminuto, del instante más bello, de esa belleza sutil que borran las prisas, de ese abrazo que no pide nada, no juzga, comprende y abraza, con el corazón y los brazos bien abiertos. PRECIOSO, Roberto. PRECIOSO. Eres un cronista poeta. No me cabe la menor duda. ¡Qué belleza!

Assis Freitas said...

vó Glória deve ter te soprado esta canção com o olhar, meneios de mãos e gestos indeléveis que só sábios transmitem,


grande abraço

Verso Aberto said...

um abraço de infância
curva o tempo

curva o homem


(parece que esta semana estamos todos revisitando a infância
rsrsrs)

bjs mano

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Bela crônica-pedido-de-desculpas, Betoímã...
Aliás, será que não temos pedido menos desculpas do que deveríamos e devemos, no nosso dia a dia? E também não teremos abraçado e agradecido de menos?
Quanto ao mais, obrigado por mais essa bela crônica e, vó Glória a leu?

Abraço semanal, da rama.

Zélia Guardiano said...

Simplesmente maravilhosa, amigo Roberto!
Abraço apertado

Marisol Espaillat Pineda said...

Hermosisimo relato, que manera de manipular las palabras tienes Roberto!! Es un placer leerte.
Abrazos

Geraldo Maia said...

Tu amigo,
Que ama tenramente a família e não esquece a terra querida tem tudo para dentro do seu universo literário e de pensamentos realizar grandes projetos. Gostei dos temas do seu cardeninho eletrônico.
Eu Mesmo

Primeira Pessoa said...

Geraldo Maia,
seja mais que bem-vindo.

Suas palavras, doces como um caramelo, elaegram meu dia.

Abração do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

marisol,
um dia ainda aprendo a escrever espanhol para poder comentar em seu blog, e na lingua de cervantes, o que baila em meu pensamento.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

zelia guardiano,
você é uma querida.
quando você não vem aqui, fico achando que não postei.

beijo grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

da rama,
ja fiz tanta merda nessa vida que saio por aí pedindo desculpas até para estranhos.

um dia eu me desculpo.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
fica esse monte de homem véio andando em circulos, como um cão que quer morder o próprio rabo.

beijão

do

roberto.

ps: bispo falou com você?

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
dona gloria era minha única leitora.

deve ter se decepcionado de mais.

algum tempo depois do episódio eu a veria no aeroporto de confins, em bh. fiquei tão sem graça e tentei passar incólume... mas
ela me viu e veio transbordando amor e atenção.

eu não sabia onde colocar as mãos.

beijo grande ,

roberto.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
poeta é você.

que escreve em letras azuis.

beijo grande do

roberto.

MJFortuna said...

Pessoas incríveis nascem nas Minas Gerais! Passei 37 anos de minha vida pelas Alterosas e fico muito feliz quando encontro pessoas como você pela rede.
Adorei seus textos!
Um abraço

Maria J Fortuna

Daniela Delias said...

Bonito demais!

bjo

Primeira Pessoa said...

ô, dani, que bom que ficou do seu agrado.

sua presença no primeira pessoa é sempre motivo de alegria.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

Maria, seja bem-vinda entre os meus.
sinta-se em casa.

abração do

roberto.

Janice Adja said...

Que texto lindo.
Vó Glória deve ter ficado muito feliz com tal história na memória.
Beijos!

Luciana Marinho said...

depois de sentir vontade de abraçar vó glória e a alma pedir cobertor após ler "alguém cantando...", não vou dizer mais nada, viu?


(beijão!)

Primeira Pessoa said...

Janice,
crio que ela ficou feliz, sim. essas avós ficam felizes com qualquer coisinha dada de coração.
é o caso da crônica.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

Luciana,
abrace, nesse abraço, todas as vós glórias desse planeta enquanto elas existem.

enquanto ainda existimos.

beijão do

roberto.