
Abraçando Roberto Drummond
Hoje dei um abraço em Roberto Drummond. Um abraço tímido, é verdade, mas ainda assim um abraço.
A silhueta insinuava movimento, mas ele estava em pé, parado, na pracinha em frente ao café onde nos encontrávamos sempre que eu vinha a BH.
Olhei para o rosto de bronze e me recordei muitíssimo bem: era assim que Roberto passeava todas as tardes pelas ruas da Savassi: ligeiro, passo cadenciado, quase um trote.
Para onde estará indo Roberto Drummond? – penso eu parado à sua frente, sem me importar com a cara incrédula dos transeuntes, pouco afeitos a abraços afetuosos entre dois homens.
Coloco a mão sobre seu ombro e ele nada diz.
Estará Roberto indo pra casa onde o aguardam esposa e filha?
Ou estará indo para a livraria da Travessa, onde passava quase todos os dias para um papo com leitores e, não raro, autografar livros.
Algum amigo o aguarda em um bar da Cristóvão Colombo?
Alguma musa o esperará fumando um cigarro de piteira?
Assistir a um treino de seu querido Atlético Mineiro, certamente, não deve ser sua intenção. Roberto desprezava tigres de papel.
O grande cronista de todos os atleticanos não deve andar muito feliz com a campanha do Galo, mas sei que torcerá, por toda a eternidade, contra o vento. Isto, mesmo quando a camisa alvinegra já não estiver mais pendurada no varal.
Pode ser que Roberto esteja indo ao Mercado Central.
Certamente pediria uma limonada de limão capeta antes do primeiro gole de cerveja.
No mercado ele encontrará tipos mineiríssimos, personagens que comporão, em algum momento, uma nova história de sua lavra.
Cumprimentará a todos com a cortesia de sempre. Estudará seus movimentos. Roubará pedaços inteiros de suas almas.
Irá ele escrever uma crônica de costumes?
Estará envolvido com as escrevinhações de algum novo romance?
Será que Hilda Furacão o aguarda para alguma inconfidência sobre Frei Malthus?
Ou estará indo para o apartamento secreto, onde o espera para confidências um certo DJ, recém chegado de Paris?
Será que o encontrarão o poeta Pablo Tierra e a implacável fofoqueira Tia Marocas, figuras constantes em suas histórias?
Será que em seu ouvido canta uma cotovia, aquela mesma cotovia que costumava lhe dar conselhos quando descia a Rua Rio Grande do Norte?
Entrará num táxi?
Viajará num trem?
De avião, certamente ele não irá, seja lá qual for o seu destino.
Roberto tinha aerofobia. E não sabia dirigir automóvel.
Certa vez ganhou um prêmio literário e deveria recebê-lo em Curitiba. Fez as contas, constatou que o dinheiro da premiação seria suficiente para pagar um táxi BH-Curitiba. Ida e volta.
E foi exatamente o que fez.
Foi, recebeu o prêmio, pagou o táxi, e se aquietou à sombra da Serra do Curral.
Mas hoje Roberto Drummond não tem nenhuma premiação para receber. No entanto, ele parece apressado, como sempre pareceu estar.
Pressa, para que? – pergunto eu.
Novo silêncio.
Converso com ele uma vez mais, mas ele não responde.
Diante de sua estátua nesta pracinha da Savassi, sou apenas um amigo saudoso.
E ele, lá de cima, deve estar, certamente, rindo muito de mim.






