
Beleza na feiúra
Você acha que é bonito ser feio? – Dizia o humorista na televisão.
Fiquei pensando com meus botões, tentando achar graça na frase. E achei.
E aí, pus-me a lembrar do quão irônico, pode ser tudo isto, num esquema maior das coisas. Encontra-se beleza na feiúra, sim. Basta prestar atenção.
A pessoa pode ter belos joelhos.
O branco dos seus olhos ser, imaculadamente branco.
O ruim é quando é o contrário.
Existem pessoas lindíssimas, que se acham feias.
Existem pessoas felizes, que teimam em ser infelizes.
Pessoas que fazem dilúvios em copo d’água, quando deveriam guardar a cara de preocupação e o medo, para quando os tempos difíceis se apresentarem.
Estes que adoram transformar, como se tivessem uma anti-varinha de condão que “dispara” tiros de magia cinzenta pela culatra, seus dias de mormaço em épicas tempestades. Acordei meio filosófico, hoje.
Vinha dirigindo para o trabalho, um dia tipicamente londrino, plúmbeo, um congestionamento exacerbante na Rota 24, meu carro tangido junto com os demais, devagar, quase parando, quando vi, dois belíssimos bluejays fazendo malabarismos num galho de uma árvore de folhagem rosada, à beira da estrada.
Sempre me interessei por passarinhos, desde menino.
Gostava (e gosto!) de vê-los livres, ao contrário de meu irmão caçula, que criava e negociava canarinhos e curiós com outros aficionados tão tontos quanto ele.
Vez por outra, eu soltava seus bichinhos, sorrateiramente.
Tomava umas cervejas na rua , chegava em casa, de madrugada e me enchia de coragem.
Lugar de passarinho é na copa das árvores, nos telhados, nas cercas e muros, e no ar.
Sorri pra mim mesmo, com a imagem dos dois bluejays, essa manhã. Um bom presságio, quero crer. E com ele a lembrança de meu irmão.
No Brasil não existem bluejays, aves ciganas de plumagem azul e muito comuns no centro e norte dos Estados Unidos.
É um passarinho lindo, como os cuitelinhos, os tucanos, os cardeais, as saíras (uma maravilha de sete cores), as ararinhas azuis ou vermelhas e os azulões.
Todas as manhãs, quando me levanto, sento-me na varanda da casa para o primeiro cigarro da manhã, a caneca de café fumegando da mão, e fico ali, tentando identificar os cânticos e seus respectivos donos.
Descobri um ninho de pica-paus numa cerejeira do quintal do vizinho, converso com cardeais e bluejays, que fazem ponto por ali, todas as manhãs. Converso com eles, como se tivesse vocação para um São Francisco que certamente não sou.
Mas eu falava de minha filosofia barata, e da necessidade de achar beleza na feiúra, grandeza nas coisas menores, e na responsabilidade que nos é atribuída quando nascemos: buscar sempre a felicidade. É nossa obrigação encontrarmos essa felicidade, disse-o Friedrich Nietzsche, o seu Zaratustra, ou um amigo bebendo uma caipirinha num balcão de bar, não me lembro bem.
Nascemos, todos, com a obrigação de sermos felizes.
E com essa obrigação vem a necessidade de mantermos nossos cinco sentidos abertos. E, se preciso, desenvolvermos um sexto, um sétimo e quantos mais sentidos se fizerem necessários, nessa nossa jornada em busca desse, às vezes, elusivo estado de espírito.
Felicidade não é, ao meu sentir, apenas o contrário da infelicidade.
Ela é uma espécie de “conjunto da obra”, um ajuntamento de pequenas e grandes coisas que, reunidas, dão-nos aquela sensação de bem-estar.
E, nessa nossa caminhada, aprender a eliminar no nosso cotidiano as picuinhas. Perdermos essa vocação para o caos.
É essencial que nos libertemos de nossos redemoinhos de bolso, deixar na gaveta os camafeus de tufão, os brincos de terremoto, os abismos portáteis, os tsunamis em drágeas.
Afinal, mesmo nos dias cinzentos e feios, como o de hoje, podemos encontrar algum detalhe de beleza, capaz de nos fazer sorrir.
A Música Que Toca Sem Parar:
da trilha sonora do filme The Pledge, que teve a direção de Sean Penn e Jack Nicholson no papel principal, surrupiei Nwahulwana, da Orchestra Marrabenta Star, de Moçambique.