Tuesday, August 31, 2010






















Beleza na feiúra


Você acha que é bonito ser feio? – Dizia o humorista na televisão.
Fiquei pensando com meus botões, tentando achar graça na frase. E achei.
E aí, pus-me a lembrar do quão irônico, pode ser tudo isto, num esquema maior das coisas. Encontra-se beleza na feiúra, sim. Basta prestar atenção.
A pessoa pode ter belos joelhos.
O branco dos seus olhos ser, imaculadamente branco.
O ruim é quando é o contrário.
Existem pessoas lindíssimas, que se acham feias.
Existem pessoas felizes, que teimam em ser infelizes.
Pessoas que fazem dilúvios em copo d’água, quando deveriam guardar a cara de preocupação e o medo, para quando os tempos difíceis se apresentarem.
Estes que adoram transformar, como se tivessem uma anti-varinha de condão que “dispara” tiros de magia cinzenta pela culatra, seus dias de mormaço em épicas tempestades. Acordei meio filosófico, hoje.
Vinha dirigindo para o trabalho, um dia tipicamente londrino, plúmbeo, um congestionamento exacerbante na Rota 24, meu carro tangido junto com os demais, devagar, quase parando, quando vi, dois belíssimos bluejays fazendo malabarismos num galho de uma árvore de folhagem rosada, à beira da estrada.
Sempre me interessei por passarinhos, desde menino.
Gostava (e gosto!) de vê-los livres, ao contrário de meu irmão caçula, que criava e negociava canarinhos e curiós com outros aficionados tão tontos quanto ele.
Vez por outra, eu soltava seus bichinhos, sorrateiramente.
Tomava umas cervejas na rua , chegava em casa, de madrugada e me enchia de coragem.
Lugar de passarinho é na copa das árvores, nos telhados, nas cercas e muros, e no ar.
Sorri pra mim mesmo, com a imagem dos dois bluejays, essa manhã. Um bom presságio, quero crer. E com ele a lembrança de meu irmão.
No Brasil não existem bluejays, aves ciganas de plumagem azul e muito comuns no centro e norte dos Estados Unidos.
É um passarinho lindo, como os cuitelinhos, os tucanos, os cardeais, as saíras (uma maravilha de sete cores), as ararinhas azuis ou vermelhas e os azulões.
Todas as manhãs, quando me levanto, sento-me na varanda da casa para o primeiro cigarro da manhã, a caneca de café fumegando da mão, e fico ali, tentando identificar os cânticos e seus respectivos donos.
Descobri um ninho de pica-paus numa cerejeira do quintal do vizinho, converso com cardeais e bluejays, que fazem ponto por ali, todas as manhãs. Converso com eles, como se tivesse vocação para um São Francisco que certamente não sou.
Mas eu falava de minha filosofia barata, e da necessidade de achar beleza na feiúra, grandeza nas coisas menores, e na responsabilidade que nos é atribuída quando nascemos: buscar sempre a felicidade. É nossa obrigação encontrarmos essa felicidade, disse-o Friedrich Nietzsche, o seu Zaratustra, ou um amigo bebendo uma caipirinha num balcão de bar, não me lembro bem.
Nascemos, todos, com a obrigação de sermos felizes.
E com essa obrigação vem a necessidade de mantermos nossos cinco sentidos abertos. E, se preciso, desenvolvermos um sexto, um sétimo e quantos mais sentidos se fizerem necessários, nessa nossa jornada em busca desse, às vezes, elusivo estado de espírito.
Felicidade não é, ao meu sentir, apenas o contrário da infelicidade.
Ela é uma espécie de “conjunto da obra”, um ajuntamento de pequenas e grandes coisas que, reunidas, dão-nos aquela sensação de bem-estar.
E, nessa nossa caminhada, aprender a eliminar no nosso cotidiano as picuinhas. Perdermos essa vocação para o caos.
É essencial que nos libertemos de nossos redemoinhos de bolso, deixar na gaveta os camafeus de tufão, os brincos de terremoto, os abismos portáteis, os tsunamis em drágeas.
Afinal, mesmo nos dias cinzentos e feios, como o de hoje, podemos encontrar algum detalhe de beleza, capaz de nos fazer sorrir.


A Música Que Toca Sem Parar:
da trilha sonora do filme The Pledge, que teve a direção de Sean Penn e Jack Nicholson no papel principal, surrupiei Nwahulwana, da Orchestra Marrabenta Star, de Moçambique.

28 comments:

Bípede Falante said...

Pois é, mas, talvez, seja exatamente a obrigação de ser que ponha tudo a perder. Não sei. Vou pensar :)

Primeira Pessoa said...

bípede,
existem algumas "obrigações" que abraço com alegria.

não podemos escolher de onde e de quem viemos, por exemplo. mas acho a obrigação de amar o chão de onde brotei e as pessoas de quem vim, uma obrigação deliciosa...

essa mesma obrigação que sinto em relação às minhas filhas (amá-las incondicionalmente)...

não consigo condicionar estes "ítens" acima... é uma obrigação e uma honra...

como também deveria ser a condição de felicidade.

mas, como diria guimarães rosa, "viver 'e muito perigoso".

beijão,

r.

Francisco de Sousa Vieira Filho said...

AO EM.BEL.LESAR

Divisar o belo no imperfeito, no falho, no humano, como aprecia o expert na obra antiguíssima, mais as ranhuras que o tempo lhe fez, que as pinceladas do artista, é algo raro, extremamente raro... que se dirá de ver o belo no feio, ou mesmo no grotesco, na arte de cunho soturno, na decrepitude das velhas construções, na madeira podre, naquilo que trás e guarda a mesma marca que nos marca o tempo dos ponteiros. Gostar da vincada pele como goste dos sulcos da rocha esculpida que o tempo pacientemente desgasta – acaso isto não é amor?!...


Francisco de Sousa Vieira Filho

Fatima said...

Seus textos sempre tão interessantes.
Vou lá conhecer a música que toca sem parar. Fiquei curiosa.
Bjs.

Mai said...

A Beleza está espalhada em cada linha desta tua poesia em prosa. É isto, ela está nas coisas mais simples. Basta alcançar com o olhar.

Acredite, estava com saudades de ler você. Nem sempre deixo rastros, mas sempre estou por aqui. Você escreve poesia.


abraço

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Bluejays? Valadares agora tem: num quintal de São Raimundo e noutro da Vila Bretas, e a felicidade morou lá muito tempo, poeta das crônicas mais felizes da América.
Tenho uma honra danada de sua amizade comprada com muito afeto, você que me habita naturalmente sem cobrar nem pagar pedágios...
Férias!!! Nunca soube a cor disso...

Abraço de grátis,
Darramas.

Gerana Damulakis said...

A idéia é tentar encontrar beleza em tudo. Gosto quando vc está um tanto quanto filosófico, como disse.

Ira Buscacio said...

Adorei!!!!!!!!!

Se todas as nossas obrigações fossem relacionadas a felicidade, ao amor e ao respeito, certamente, nós fariamos parte de uma humanidade melhor.

Sou feliz pela obrigação de amar e as cumpro, sempre.

Bj

dade amorim said...

Além de perigoso, viver pode ser complicadíssimo e fácil demais, quando atravessa todos os acidentes de percurso sem esquecer como se pode sorrir e ser feliz, de vez em quando.

Abraço.

Tania regina Contreiras said...

Só vou desculpar o sumiço sem aviso prévio porque voltou ainda mexendo com nossas emoções. Mas muito feio, viu seu Roberto? Como que sai para as férias e deixa todo mundo preocupado? Um silêncio pode significar um monte de coisas, e como íamos saber se tu tava bem? E teve versos de Assis oferecidos a ti, já soube? Mas, enfim, voltaste...então estamos todos felizes novamente.
Beijos,

Jorge Pimenta said...

que bom ter-te de regresso, querido amigo. muitas foram as vozes que manifestaram saudades de te ter por aqui, como sabes.
e eis-te de volta e em excelente forma, num texto pejado daquela doce melancolia que repassa pelos rostos como uma aragem morna que remexe os cabelos e assobia nos ouvidos. e no final, a grande tese: temos a obrigação de sermos felizes (ou de lutarmos por isso, acrescentaria eu). certa ocasião respondia a um amigo, no blogue, que a vida precisa de nós para poder completar-se. nem mais!
um forte abraço, bluejay :)

nina rizzi said...

viver é muito sanguidolente...
e a bela sempre se afiniza com a fera...

demais o som, camarada.
beijão.

Zélia Guardiano said...

Querido Roberto

Um bálsamo, para mim, est seu post!
Lindo demais!
E , além de ser lindo demais, tem ainda um outro valor: eu estava necessitada dele!
Hoje pela manhã, no café, meu filho Guilherme e eu conversávamos sobre o mesmo tema: não fazer tempestades com míseros copos d'água...
A avó de minha nora (esposa do Gui) está hospitalizada, em fase que parece ser terminal, e a lembrança do real sofrimento dela motivou nossa reflexão...
Acontece, porém, meu amigo, que ando propensa a valorizar as picuinhas: coisa da idade, penso eu... Mas não quero que seja assim: então, sua maravilhosa crônica , que li e reli ( e vou ler muitas outras vezes), além de me proporcionar grande deleite, está desempenhando também importante função didática!
Muito grata!
Abração!

Zèlia

Lara Amaral said...

Muitos reclamam da secura por que Brasília está passando, realmente é barra pesada. Mas o ar do jeito que está faz o céu ficar com o arrebol mais lindo de todos.

Adorei o texto, meu amigo.

Beijinho no seu coração que, nem posso ver, mas sei que é bonito. =)

Mirze Souza said...

Roberto!

Achei que era candidato, quando sumiu!

Adorei o texto, e lógico que me identifiquei com ele. Olho com toda força da alma, o feio e sempre encontro uma beleza. Costumo exagerar nos detalhes. Assim sendo, dias nublados, mar revolto e outras coisas assim, me atraem.

Mesmo o visual de um ser humano, vivo, claro tem sempre uma coisa bonita. Se não o todo, o brilho do olhar, o jeito de falar, enfim observo mais o feio que o popularmente chamado bonito.

Muito bom encontrar um soltador de passarinhos. Nada nasceu para a gaiola. Muito menos um ser tão indefeso como uma ave.

Isto me lembrou os homens lá no Chile presos nas minas de carvão.

Bem, Foi ótimo seu retorno!

Espero que tenha descansado bem!

Beijos

Mirze

Selene * said...

De uma delicadeza imensa e até brutal.De tanto conversar com os passarinhos acho que você 'passarinhou'.

Wilson Torres Nanini said...

Roberto,

mesmo com o caos produzido todos os dias à velocidade telejornalística, viver ( estar de fato vivo, e respirar o hálito que há nos olhos das pessoas bentas, sorver os relentos e alentos que os animais nos ofertam gratuita e insontemente, introjetar essas mineiras paisagens amarelecidas de ipês, por exemplo) ainda me é a melhor alternativa.

Cada vez que venho aqui, provando de sua oferta cacha-sina e de seus cataventos arrefecendo e depurando o meu ânimo terçã de poeta em fase de berçário, volto pra minha vida como um menino que ganhasse um segredo de presente.

Forte abraço!

Luiza Maciel Nogueira said...

a beleza sempre está/ poucos a assistem. algum feios são bonitos/ alguns bonitos são horrorosos - depende do ponto de vista querido. Cada olhar é um acontecimento que repercute quando toca. Bela crônica!

beijos

Primeira Pessoa said...

ô, luiza...
suas palavras, essas sim, são só beleza...
sua presença me traz alegria.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

nanini,
nossos moínhos de vento são reais...
tenho absoluta certeza disto.

você, poeta grande que cresce a cada dia... você, poeta-homem que tanto admiro.

suas palavras me são puro alento.

abração do seu amigo

r.

Primeira Pessoa said...

ah, selene...
me passarinhar é tudo o que eu queria...

meu vôo é torto.
eu sei.

beijão do

roberto.

Primeira Pessoa said...

mirze,
voltei mais cansado do que quando fui.
agora preciso de férias das férias...rs

eu, candidato?
nem pra síndico do prédio...rs

me inclua fora desta.

bom te reencontrar aqui.
guardei um abraço pra ti.


r.

Primeira Pessoa said...

larinha,
um portugues amigo meu foi pra brasília esta semana...

quando ele chegar, pedirei contas do céu de brasília.

tava com saudades de sua presença nesse canteiro de afetos.

beijo meu.

r.

Primeira Pessoa said...

zélia,
eu falava com meu irmão no outro dia sobre este lance de "perder" pessoas próximas... quanto mais entrados estamos na vida, mais as bombas caem (e destroçam) no nosso quintal.

o jeito é ir aprendendo, em vida, a dominar a falta. e valorizar cada minuto passado junto.

é o que fica, sabia?
é o que segue conosco.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

ô, nina, repito-me, aqui...

como diria guimarães rosa... viver é muito perigoso.

é ruim. mas é bão...rs

mineiramente.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

jorge, existem bluejays em portugal?
são lindos... mas o canto é um pio... sem maior charme...
eu comentava isso semana passada... como mais bela a ave, mais feio é o seu canto. já percebeu?

estou de volta. feliz por estar de volta. viajar de aviao sempre rouba muito de mim... chego sempre destroçado em qualquer das pontas da viagem... chegada ou partida...

amanhã irei ao seu blog, postar, beber do nectar da sua poesia... saciar a saudade do amigo.

que fique registrado isto.

e o meu melhor abraço.

r.

Ana (Ballet de Palavras) said...

Roberto,
Extasiada é o sentimento que assola o lado esquerdo do meu peito na leitura do seu texto. Caracteres uniram-se, afeiçoando vocábulos que traduzem sentimentos e, opiniões actuais e, dissemelhantes do Roberto no ballet observado.

A vida gentilmente proporcionou-me, pelos anos já vividos, prazeres enobrecidos e, desgostos sentidos, no mesmo instante, ensinou-me que obrigações são deveres que se entendidos se transformam gentilmente em afazeres deleitosos.

Paralelamente, é a nossa atitude para quem e, o que nos rodeia que dissemelhante ou semelhantemente o faz refém de acontecimentos benéficos ou maléficos.

À sua questão?! Sou uma mulher atenta, e, partilho da sua opinião que existe Beleza na Feiura. Existem pessoas, detentoras de uma beleza interior enorme, mas, de beleza exterior diminuta. E, existem aquelas cuja beleza exterior é soberbamente encantadora mas a sua beleza interior devastadora, e, no entretanto Roberto existem, ainda, outras que acumulam suas belezas, de uma forma cativante e, apaixonante. No entanto, as pessoas cujas formas de estar, pensar e, agir ditam ser pessoas sofisticadas de essência são de certo as minhas eleitas porque possuem uma beleza rara, una e, eterna que confisca e, faz refém o o lado esquerdo do meu peito … o meu coração.

Semelhantemente, existem imagens que pelo seu desnudar de conteúdo se abrilhantam na beleza intrínseca de cada uma. Um deserto árido e, quente é um exemplo que recordo neste instante. Um jardim trajado de aromas e, colorações multifacetados é uma dádiva no reverso trajado e, um prazer admirável… A melodia que ecoa pelo passarinho não se vê mas que se sente no embalo deleitoso de quem com ele privilegia …

Instantes, inolvidáveis que são apreciados e, perduram na memória de quem privilegia de uma beleza interior inabalável.

Um dia natural e, requintado de mim para si Roberto.

Ana

Primeira Pessoa said...

ana,
muitíssimo grato pelo belo texto, e sua abordagem sensível.
moça atenta, boa observadora, conseguiu transpor com clareza, muito mais que um pensamento, uma forma de ser.

beijo grande pra você.

roberto.