Saturday, February 16, 2013

As férias brasileiras de Paul McIntire

Paul McIntire é um americano de quatro costados, tataraneto de irlandeses, daquele tipo que sai vestido de druída na parada do Dia de São Patrício e é fanático por esportes.
Como a maior parte dos americanos, satisfaz-se por aqui mesmo.
Para ele, o Havaí é o que há de melhor.
Já esteve lá quatro vezes.
Conhece as ladeiras de San Francisco como a palma de suas mãos e seus olhos já foram tocados pela beleza das cataratas de Niagara e do Grand Canyon.
Boston é um banho de cultura toda vez que passa por lá e, aventura de verdade, só aquela dos cassinos de Las Vegas, onde vangloria-se de ter já tirado quase 30 mil dólares de uma máquina caça-níquel.
Os desertos do Arizona não são um mistério para ele, afinal fez o trajeto da Rota 66 em mais de uma ocasião. "Coisa mais linda!", ele diz.
Mas ele andava cabisbaixo ultimamente.
Ficou assim desde o seu divórcio com Diana, uma ruiva que conheceu no primeiro dia de aula do ginásio, e com quem viria a se casar, tão logo tirou o canudo de técnico em computação e arrumou o primeiro emprego.
O divórcio depois de apenas 3 anos de casamento e nenhum filho foi uma pauleira.
Sem destino ao final das jornadas de trabalho, conseguiu abrigo num Go-Go Bar de Newark.
Foi lá que ele conheceu - entre rodadas de uísque e cerveja -, as inigualáveis meninas do Brasil.
E o mito americano começava a desabar.
No início, relutou um pouco.
Recusava-se a comparar as ondas de Honolulu com as da praia da Joaquina.
Foi nos braços de uma loirinha de Maringá, que passou a acreditar que as Sete Quedas fossem mais exuberantes que as rivais de Niagara.
No movimento dos quadris de uma carioca ele teve a certeza de que o carnaval do Rio de Janeiro era o que os americanos chamam de “The Real Thing”.
E que o Mardi Gras, de New Orleans, era uma imitação barata da folia momesca.
Após uma noite com uma mineirinha de Governador Valadares, Paul passou a contemplar a possibilidade de ir ao Brasil, onde teria as mais belas mulheres do mundo ao alcance de suas mãos.
Passou os meses seguintes estudando o país, e teve até algumas discussões com pessoas de sua família.
Ninguém aceitava esse seu arroubo de paixão e compaixão por um país cuja capital era a Argentina.
“Estão vendo? Vocês são uns tapados!”
E foi assim que Paul Mc Intire classificou de propaganda imperialista aquela matéria de página inteira no New York Times.
Nela, o jornalista insensível e tendencioso chamava São Paulo de Capital Mundial dos Seqüestros-relâmpagos e as favelas do Rio de Janeiro de Nova Medellin.
Feliz e animado, ele partiu de New York para um mês de volúpia, caipirinha, pagode, churrasco a rodízio, praia e sol nos doces trópicos do sul.
A viagem não começou muito bem, é verdade.
Sua bagagem foi extraviada e ele ficou com a mesma roupa durante quase dois dias no calor abafado do Rio de Janeiro.
O que lhe valeu foi aquela camiseta com a estampa da Ararinha Azul, que ele comprou ainda no aeroporto do Galeão.
Apesar do abafamento e de pequenos momentos de mormaço não fez sol durante os primeiros 5 dias.
Neste período, registraram-se as maiores enchentes de toda a história da cidade.
Uma tragédia que ele via na televisão do Oton Hotel sem entender direito o que o William Bonner dizia no Jornal Nacional.
Foram dias de tédio e mal-entendidos com os funcionários do hotel, que insistiam em comunicar-se com ele em português.
“Droga, o inglês deveria ser obrigatório no resto do mundo”, resmungou para a camareira de sorriso humilde, fazendo lembrar o homem que era antes de conhecer as brasileirinhas de Queens.
No dia em que a chuva parou, Paul McIntire resolveu sair à caça de mulheres pelo calçadão de Copacabana.
Agora, sim, finalmente, chegara a sua vez.
Cinco horas depois e já um pouco desapontado por não querer sucumbir aos encantos de uma garota de programa com um suspeitíssimo pomo-de-adão, resolveu voltar ao hotel.
Eram quase 3 da manhã quando sentiu o cano frio do revólver encostado em sua nuca.
Mesmo sem falar o português, entendeu direitinho o que os assaltantes queriam.
E foi assim, trajando apenas uma prosaica cueca branca, que Paul McIntire chegou à delegacia do bairro para reportar o crime ao cabo de plantão, mas este também não conseguia captar os detalhes de seu infortúnio.
Uma vez mais, a maldita barreira da língua.
Passou os dias seguintes no quarto do hotel, convalescendo daquilo que pensava ser uma feijoada mal digerida.
Não dava mais.
Pouco mais de uma semana após a sua chegada, desiludido e sem bronzeado  - continuou chovendo no Rio -, Paul McIntire voltou aos States.
Três dias em casa, e ele ainda estava febril, com o corpo dolorido.
Acabaria no leito de um hospital novaiorquino.
O diagnóstico médico causou surpresa entre seus pares, enterrando de vez o fascínio tupiniquim sobre Paul McIntire:
Ele havia sido picado por um mosquito inofensivo, de nome esquisito, um certo Aedes Aegypti.




20 comments:

Irineu Magalhães said...

Que belo ritmo, palavras bem escolhidas e com fascínio bem empregadas, um simples conto que se transforma numa obra de arte, me lembrei de James Joyce, muito bom.

Assis Freitas said...

pô eita cara azarado, este confirma todas as teorias de Murph,


abração

Irineu Magalhães said...

Que ritmo fascinante, lembrei de James Joyce. Em contos curtos como esse o que menos se espera é uma moral, desfecho, etc. Empregou muito bem as palavras, lindo! Gostaria de publicar no meu blog, posso?

Verso Aberto said...

não seria o fim da picada rsrsrs

afinal
uma visão estranhada
faz a gente parecer
bem mais normal

Primeira Pessoa said...

gostei do trocadilho, markim...
ainda essa semana te citei, sabia?
falei da "lustrosa" ... bispo deve ter rido do lado de lá.
lembra da prosa?

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

Irineu,
faça uso e gaudio.
a crômica é sua.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

é o famoso " bunda de foca", zé de assis...

mais pé-frio, impossível...

abração, broda.
r.

eurico portugal said...

robertílimo,
há sempre uma linha que separa a ilusão da realidade. quantas vezes não é preferível deixar que o sonho nos embale, tornando-se na única referência, na nossa única verdade? mesmo sendo uma espécie de vida não-vida...

admirável este teu registo, humano como todos, desses que fazem as personagens parecerem fulanos com quem nos cruzámos ontem mesmo, num bar de esquina, numa qualquer cidade deste nosso mundo.

coincidências que sublinho: acabo de falar na road 66 em resposta ao teu comentário lá no orvalho; tive um tio que foi gerente do hotel oton do rio de janeiro durante mais de 20 anos; curiosa a referência :)

abraço com saudades das tuas estórias em viva voz!

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
começo meu dia e fico pensando nos olhos lusitanos do seu tio, todos os dias vendo as moças de biquini na frente do othon, as caipirinhas fazendo cócegas no palato turista, as ilhas cagarras boiando no atlântico... logo em frente.
eu ja me hospedei no othon, generosidade do governo brasileiro que me mandou até o rio pra falar de imprensa brasileira fora do brasil...
a vista era uma maravilha. o saguão, uma beleza.
o quarto, não.
mais se parecia o de uma pensão barata e velha, com carpete mofado e manchado de sei lá o que, cama desconfortável e um ar-condicionado barulhento.

assim como tantas coisas na vida, o othon se parece com algumas pessoas.

falando em hotel, lembrei-me daquele na rua do rosário... a mocinha da recepção perguntando se a habitação dupla era com camas juntas ou separadas...rs... e o peter fazendo o que o peter sempre faz, sacaneando o amigo...rs
(e aqui chego a dar uma risada...rs)

saudades daí, mas, principalmente, saudade do amigo.

domingão de frio também aqui. felizmente, temos futebol.

abração.

r.


Índigo said...

Es una crónica perfecta para un día de domingo como este, gris, desapacible y frío. Una crónica perfecta de como las ilusiones se tejen con hilos finos que se desvanecen... Una crónica perfecta, por su ritmo, por todo lo que transmite, y por haberme dejado una sonrisa, azul, en el rostro. Yo no soy de fútbol pero de azules sí, eso ya lo sabes. Así gracias, por los tuyos.

Un abrazo grande y añil, por supuesto.

dade amorim said...

Tadinho, né não? Um americano tão azarado que dá certa pena. Mas não vamos julgar logo de entrada. Vai ver as aventuras ensinaram a ele que não adianta vir até aqui só por causa das mulheres.

Beijo procê, Roberto.

Tania regina Contreiras said...


Beto, quero o livro! :-) Quero ter você no papel, na cabeceira, folheando incansavelmente como faço com os que me encantam na escrita. Já havia lido e acho seu olhar muito especial.

Beijos,

Primeira Pessoa said...

taninha,
ta pertinho de sair.
estamos catalogando na camara brasileira do livro.
assim que sair da gráfica, cê recebe o seu.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

eu também acho, dade... eu também acho.
mas é que os caras tem esta idéia do brasil, um lugar paradisíaco, cheio de mulheres deslumbrantes.

às vezes, dá errado.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

indigo,
fico muito feliz que minha corônica tenha feito parte do seu domingo.
muito mesmo!

abraço azul do

roberto.

Bandys said...


É o cara devia ter ido na Bahia passar pelo filhos de gandhi e se benzer..


Beijos Roberto, to voltando de vagar.

Primeira Pessoa said...

pois é, bandys...
e um banho de sal grosso, pra tirar a energia ruim do corpo.
quanto à sua volta à blogosfera, devagar e sempre, já dizia o "velho deitado"...
seja bem vinda neste seu retorno.

abração do

r.

Luciana Marinho said...

o pé nas nuvens só fez ele atolar o corpo inteiro na jaca!

excelente crônica, roberto!
prazer imenso lê-la.

beijos!!

Primeira Pessoa said...

luciana,
duvido que nosso "inoxidável" paul mc'intire retorne a terras brasileiras nas próximas férias.

na outra mão, receber você aqui no PP é uma grande alegria. v
ocê, que não é turista neste minifúndio de afeições e sim, residente oficial.

beijão do

r.



Tatiana said...

Que história mais rica de filosofia, Roberto. Que bem contada a coisa, seu gênio, um misto de pasquim com tragédia grega pós moderna. Quer dizer que vem livro por aí? É romance ou crônica? Lança quando?