Saturday, February 9, 2013

Carnaval, o túmulo do samba

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A letra da antiga cantiga diz que quem não gosta de samba não é bom sujeito.
E que é ruim da cabeça ou doente do pé.
Eu gosto de samba, mas não sei sambar.
Sim, tenho um pé bichado, herança dos tempos em que achava que sabia jogar futebol, mas não sambo porque não sambo.
E isto não deveria fazer de mim um mau sujeito.
Gosto de samba de roda, canção e de breque.
Gosto de samba com cheiro e sabor de samba.
E me dá coceira o pagode industrial que tentaram me empurrar goela baixo, posto que, para mim, ele é uma degeneração.
Constato que samba e carnaval se deformaram com o passar dos tempos.
Onde foi parar o Rei Momo?
O que foi feito das colombinas e dos pierrôs apaixonados?
E os bailes de salão, movidos a marchinhas, serpentinas e confetes?
Esse atrofiamento do carnaval de agora me deixa sem graça.
E o bom e velho samba foi banalizado e já não passa de um pretexto - e não de uma razão - para a maior celebração nacional .
O samba já não veste fantasia.
Ele usa um disfarce.
Chamem-me de purista, de antiquado ou do que quiserem.
Rotulem-me como saudosista.
Mandem-me para um museu.
Coloquem-me numa camisa de força.
Despachem-me para Guantanamo Bay ou exilem-me em Cabul.
Mas não me calarei.
Teimo em associar samba e carnaval, embora tenha cada vez mais a certeza de que hoje são coisas bastante distintas, e que já não caminham de mãos dadas.
São como aquele casal que continua vivendo debaixo do mesmo teto, ainda casado, mas não se ama mais.
Uma vez por ano, carnaval e samba saem juntos à rua, cordiais, mas sem afeto.
Um casamento de aparências e de aparências somente.
Com o passar dos tempos, empresários espertos transformaram o carnaval num grande negócio e não existiria nada de errado nisto, se o conceito original não tivesse sido distorcido, adulterado, em detrimento do lucro.
Seria justo que aqueles que fazem a festa – o povo - recebessem um pedaço do bolo. Mas isto não acontece.
Os camarotes patrocinados por grande empresas são uma espécie de virtrine da vaidade por onde circulam apenas os bem nascidos, os bonitos, os famosos, aqueles a quem chamam de VIP.
É para sair bem na tv. E rende um dinheirão.
Uma vez por ano o morro desce à avenida, mas cada pessoa ali é usada como figurante de uma superprodução aos moldes de Hollywood.
Uma produção que travestiu o que deveris ser uma celebração de nossa cultura de raiz.
Tomem o carnaval baiano, por exemplo.
A Bahia possui um dos sambas mais interessantes do Brasil.
O samba de roda baiano tem uma característica própria e é completamente diferente do samba do resto do país.
Mas ele, o samba de roda, não é convidado para o carnaval baiano.
Ali, predomina o axé, um dos piores tipos de poluição sonora já inventado pelo homem.
Ala das baianas, em Salvador, é aquele lugar em que as vendedoras de acarajé se perfilam na margem das ruas para vender quitutes aos turistas.
Carnaval baiano virou sinônimo de axé music, abadás e dancinhas sexistas que já estarão esquecidas e substituídas por outras igualmente descartáveis no ano que vem.
A meu ver, o carnaval da Bahia deveria ter outro nome e ser apenas mais um axé-folia, como tantos outros  que acontecem fora do estado nas micaretas que se reproduziram feito praga.
Melhor seria se mudasse tudo isto de nome e legitimassem a farsa.
Pode ser que, assim, Noel, Dorival, Cartola, Lamartine e seus iguais, descansassem, finalmente, em paz.


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13 comments:

Dois Rios said...

Lendo agora as tuas letras, encontrei o alvo do tiro, Roberto. Andava me perguntando o porquê de uma pessoa como eu, que adorava carnaval, saia em todos os blocos possíveis, ansiava pelo Baile da Atlantic, no Monte Líbano, perdeu, completamente, o tesão por este evento. Achei que era coisa minha. Coisa de DNA (tempo de nascimento avançada). Coisa daquela gente que enche a boca pra dizer "no meu tempo...". Não, nada disso. Na realidade, não foi eu quem mudou. Foi o carnaval. Que alívio! rs.

Beijos,

Verso Aberto said...

estou neste túmulo também

que joguem os últimos torrões

Primeira Pessoa said...

marquim,
eu tinha uma duzia de mensagens neste post e apaguei sem querer....
deve ser a caipirinha... felizmente, a sua sobreviveu...

após muuuuitos dias sem beber nadica de nada de álcool, fiz uma caipira de steinhegen e fui pro fogão na tentativa de um "coq au vin" inspirado em renato braz (que jura que faz este prato muito bem).

é o meu primeiro.
tomara que não seja o último.

carnaval pra mim, marquinho, teve dois: um no garfo e outro no minas.
naquele tempo, lança-perfume era uma música da rita lee (rs)...

beijão, poeta.

r.

Primeira Pessoa said...

inês,
acho que é mais ou menos por aí.
espero não ter ofendido meus amigos (e inimigos) baianos...

conheci luís caldas, inventor do axé há dois anos, em fort lauderdale e foi muito legal.
foi empatia na hora, nos demos bem desde o primeiro momento.

todas as noites, no saguão do hotel lugano, ele cantava sambas de adoniran, contavam causos impagáveis, inteligente e articulado que é, e eu tentava "me defender" com essa minha vocação de fazer amigos.

luís caldas inventou o axé, música que nunca entendi e que jamais abracei.
eu inventei quase nada.

com o passar do tempo, o próprio luís caldas foi engolido pela criatura e pelas claudias leittttttes (com sei lá quantos tês) e ivetes e chicletes desta vida "mudernosa".

o que não tem nada a ver com nossa prosa.

pra mim, o carnaval acabou.
ontem, eu vi no tera o "beijaço" de salvador e arredores mais distantes e me lembrei da peleja que era, no "meu tempo" (SIM!), para conseguir "beijar o beijo" de uma mulher.
pra beijar alguém, tinha que ter um cadiquim a mais de vontade e empatia das duas bandas do beijo.
hoje???
hoje não é mais assim.
o que me faz pensar que não nascem mais amores no carnaval.

alguém avise aí pra esses milhões d epessoas felizes, que eles não estão no carnaval.

o carnaval é outra coisa.
ou, era.

beijão,
r.

eurico portugal said...

sinais dos tempos, amigão,
e não é apenas com o carnaval que esta triste história se passa...
a verdade é que a genuinidade da maioria das tradições festivas começa e acaba no povo, mas a ironia maior é que quando os media aparecem, quando os empresários descobrem novas formas de ganhar dinheiro e assim que o turismo promove já não o que era mas o que se diz ser, o povo continua a ser o mote da festa mas passa a ficar do lado de fora. por isso te confidencio: o rio de janeiro faz parte do meu roteiro de viagens a cumprir até ao fim dos meus dias, mas espero que não por altura do carnaval. acredito mais nas essências do que o rio metonimicamente pode oferecer à margem da festa.

um abraço!

p.s. a propósito, o meu carnaval é com cozido à portuguesa na casa da mãe fernanda. e como ele é bom! pior mesmo, a sobremesa: empate do benfica na madeira e dois pontos atirados ao vento nesta lide a dois tão renhida que até o menor dos descuidos pode ser fatal.

byTONHO said...



Pois é Roberto...

"Este samba é que tá doente do pé!"
RUIM da cabeça estão os atrave$$adores que vão matar mais esta 'GALINHA'!"
...

A próxima "galinha que tá no papo" e o futebol.
Ainda vamos ver em campo (arenas) os 'Newmares e Messis' chutando bola para o alto e a galera ensandecida vibrando com a altitude atingida... isto será o novo GOL... não haverá goleiras no gramado.

E$petáculo circen$e dos novos tempos, "as focas" com focinho NIKE (chuteiras), equilibrando a bola em volta olímpica... e a galera ensandecida gritando... isto será o novo GOL!
Novos tempos virão... será que veremos em outros verões?

Abraço-tchê!

:o)

Cris de Souza said...

O circo está armado
Para quem samba
Na corda bamba!

(Cris de Souza)

Aquele abraço, Roberto.

Adri Aleixo said...

Um pretexto e não uma razão... tá aí!

Queria que meus filhos conhecessem um baile, mas acho que não vai ter jeito. Foram todos sepultados.

Beijo, Beto!

Primeira Pessoa said...

ou, uma desculpa, né adri?
eu fui a algunbs bailes.
gostava do cheiro de lança-perfume que ficava impregnado no ar.
e, como era bem moço e pierrô platônico, prestava atenção nas colombinas...

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

o circo está "amado" , cris.
cê brinca direitim com as palavras.
eu acho bacana demais o seu jeito de juntar letra e sentimento.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

ô, tonho...
e não é que comecei a te ler e ficou tocando, dentro de mim, aquela do caetano... aquela feita pra sampa, em que ele fala da força da grana que ergue e destrói coisas belas.

acho que é bem por aí.

abração, amigo querido.

r.

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
de todos os carnavais que me contaram, este na casa de dona fernanda é o único que me teria de corpo e alma (e garfo e faca na mão).
eu dançaria de felicidade como dancei, certa vez, na velha braga.

como disse a adriana, o carnaval - aquele outro - virou um pretexto em que os fins não justificam os meios.

grande é a saudade do amigo.

r.

Tatiana said...

Roberto, tu tá coberto de razão e traduziu minha decepção este ano e a cada ano. Sabe que aqui no sul pegou a moda do carnaval eletrônico ...socorro! É Dj gringo puxando o tum ti tum.
Por sorte no Rio ainda tem o samba de roda em todo o morro, mas não se compõe mais como antigamente. É só diversao, essa coisa que tá no sangue. O que me preocupa é a influencia do funk q tb ta no morro a milhão. Será que o samba vai morrer?