Monday, November 22, 2010










há dias em que acordamos e percebemos tudo
o recorte das cidades no horizonte
a distância que há nos caminhos que rasgam os corações
como se fossem searas de trigo
o nome de certas coisas que só sentimos num abraço

depois percorremos a mão pelo granito
como se fossemos o tempo
e como se a vida não fosse mais do que uma claridade
que invade pela frincha da porta o quarto escuro

é então que descobrimos
num desses rostos com que cruzamos o olhar
que a vida podia ser outra
e que seríamos felizes num outro sorriso
se lhe entregássemos inteiros os nossos lábios

há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema

José Rui Teixeira

* José Rui Teixeira nasceu no Porto, em 1974. É licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor no colégio Luso-Francês e teólogo do Centro Catecumenal da Igreja do Porto.
É autor de Vestígios (2000), Quando o Verão Acabar (2002 - Quasi Edições), Para Morrer (2004 - Quasi Edições), Melopeia (2004) O Fogo e outros utensílios da Luz (2005 - Quasi Edições) e Assim na Terra (2005 - Quasi Edições). Participou ainda na antologia Poesia à Mesa (Quasi Edições).

A Música Que Toca Sem Parar:
de Leo Masliah e Clara Sandroni, este manfesto... Guardanapos de Papel, na voz especialíssima de Milton Nascimento.



Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados
Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas
Não desejam glorias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro

26 comments:

Indigo said...

Como si la vida cupiese en un poema... y pudiéramos ser felices en otra sonrisa ¡PRECIOSO! Gracias por traerlo aquí y hacérmelo descubrir. No lo conocía. Y la música, bella también. Un abrazo.

Primeira Pessoa said...

Indigo,
ando em falta com você, postando pouquíssimo no blog, envolvido que estou com meus tempos no hoje.
que o ano novo me traga o comprometimento que preciso para tocar a vida e as coisa que me dão alegria.
o contato com os amigos, aqui no blog (e nas casas destes amigos), é motivo de grande alegria.

receba um abraço meu.

R.

Zélia Guardiano said...

Mais do que lindíssimo, Roberto!
Ah, esses poetas...
Cheguei a chorar!
Abraço bem apertado, amigo!

Assis Freitas said...

há dias que tudo cabe num poema, inclusive a vida


abração

Primeira Pessoa said...

e, há dias que o poema cabe num abraço.
esse.

é seu, assis.

Primeira Pessoa said...

o choro é amigo da arte, zélia.
se o choro é chorado por um motivo bom, choremos.
juntos.

beijo grande,
r.

rosa-branca said...

Existem dias em que a visão é tal qual o lince. Outros que se deixa passar tudo ao lado...não porque não se veja, mas porque não se quer ver. Beijos com carinho

Fatima said...

Amo está música!
Bjs.

Marcantonio said...

Um belo poema. E eu que sou tão precavido contra teólogos. Talvez um teólogo poeta veja num cometa um sinal que une as eras, o que é mais reconfortante do que vê-lo apenas como um belo rasgo no vazio.

Sei é que há dias famintos de todos os outros dias, os passados e os vindouros.

E essa letra da canção! Que beleza dizer que poetas são cometas num estranho céu de estrelas idiotas! Rs.

Ah, e no comentário ao comentário da Zélia você usou uma frase muito inspirada: o choro é amigo da arte!

Grande abraço, Roberto.

Bípede Falante said...

Mais que dias, eu acho, sei lá, que eu já fui muito amada pela metade.

Primeira Pessoa said...

bípede, amar e ser amado pela metade.... cada pessoa com sua medida, acha.

viver pela metade.
des-viver.

mas, o que sei eu?

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

marquinho, nem sei se a palavra aplicável seja, ealmente, "precavido"...
nossos tempos são outros e parece-me que teologia, Deus, ganharam outra (e menor) importância.
você sabia que daniel faria (no meu sentir, um dos maiores poetas da lingua portuguesa) era "noviço", e morreu após um acidente no mosteiro em que vivia?

trem de doido, né?

caso queira, passe-me seu email que lhe mando a música. o autor é da letra é uruguaio.

abração, marquinho.

Primeira Pessoa said...

fátima, sei o quanto a música é importante em sua vida.
viver não apenas afinar o intrumento. é soltar a voz.

assim como você faz.
abraçao do

roberto.

Primeira Pessoa said...

rosa branca,
não querer ver é um tipo de aniquilamento. às vezes não gostamos do que vemos e nos abstemos.
questão de foro íntimo, quero crer. não ver por não querer não é saudável. seria melhor se certas coisas não acontecessem, certamente. mas acontecem e precisam ser endereçadas.

bem vinda ao blog!

Pólen Radioativo said...

Em dias assim poderíamos crer "que os sonhos são reais e a vida não"

Um beijo, querido!

Obrigada por fazer deste dia um tanto mais bonito.

Primeira Pessoa said...

a vida é melhor vivida quando sonhada.

e só fica em technicolor pela lente mágica do sonhar.

quem perde a capacidade de sonhar vive em preto e branco.

abração,

r.

Tania regina Contreiras said...

Essa música me levou a um tempo exato, Roberto...Curioso como as músicas são rápidos meios de transporte e nos levam a lugares e tempos distantes muitas vezes. Eu estou passando por aqui só pra te ler/ver... Estou numa espécie de recesso de um tanto de coisas. Mas saudades se tem e saudades se mata.

Beijão,

Rejane said...

Adorei seu blog, parabéns. A partir de agora sou mais uma de suas seguidoras.
Rejane

AGNALDO NO ESPELHO said...

Roberto,

Esse poema do J. R. Teixeira é um ferro em brasa para a humanidade. Não há quem não tenha se sentido assim n'algum momento e, portanto, carregamos, todos, a mesma marca de ferro. Um inconsciente coletivo cicatrizado e traduzido pelas belas e sábias palavras.

Não há acréscimo a ser feito. Só admiração. Admiração devota, como de uma criança que, por primeira vez, vê a imagem de um anjinho barroco e pensa ser de verdade (porque de fato, de alguma maneira, o é).

Bela escolha, belíssima escolha.

Super abraço.

José Rui Teixeira said...

Caríssimos amigos, tenho que participar neste encontro como à volta de uma mesa... eu sou o teólogo ou o poeta em questão. Obrigado por me fazerem presente, através das minhas palavras.
Eu fui amigo pessoal do Daniel Faria... que poetas! Tantas saudades. O meu blogue pessoal é o http://www.equinociodeoutono.blogspot.com/. Apareçam, é sempre um lugar de encontro. Se me derem as vossas moradas, envio por correio a minha poesia reunida em 2009 (Diáspora). Abraço profundo, poético ou teológico...

Primeira Pessoa said...

Seja bem vindo a esta mesa, José Rui. Existe nela uma cadeira com o seu nome escrito.
Sinto-me honrado pela presença do poeta entre nós.
Seu comentário colocou um ponto de exclamação no meu sábado.
Sinta-se em casa, aqui.
Grande abraço do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

Agnaldo,
fico feliz que tenha gostado do poema.José Rui Teixeira pode ser encontrado em muitos blogs, inclusive no dele próprio:
http://www.equinociodeoutono.blogspot.com

se eu fosse você, dava uma passadinha por lá.
abração do
r.

Primeira Pessoa said...

rejane,
esta casa é também sua.
sinta-se bem entre os meus.

abraço e afeição do

roberto.

Primeira Pessoa said...

taninha,
tambémm tenho essa relação com a música, tapete voador de minhas emoções. é incrível como cada momento meu, está relacionado a uma canção diferente.
não sei o que seria da minha vida sem a música.

beijo grande,
r.

Andrea de Godoy Neto said...

é...há dias em que acordamos assim, alma desencaixada, mal aprisionada na fronteiras do corpo, percepção aguçada ao que nos rodeia

beijo enorme, roberto!
e um lindo domingo pra ti

Primeira Pessoa said...

andrea,
um dia o encaixe aparece e seremos felizes para sempre.
como nos contos de fada.
enquanto isto não acontece, é um dia de cada vez... num é não?

beijo ainda no sábado,

r.