Wednesday, November 17, 2010



Há Mais de 20 anos não escrevo um único poema. Foi como se a poesia tivesse desertado de mim. Da última vez que fui a Belo Horizonte, no entanto, vi que em um canto mais reservado da casa, meu pai rezava. Murmurava de olhos fechados - no ouvido de Alguém -, seus pequenos e grandes segredos, inconfidências...
Eu, que saí de casa aos 21 anos de idade sem sabê-lo temente.
Eu, que, tinha absoluta certeza de que meu pai era ateu.
Eu, que emocionei-me tremendamente com a visão que se repetiria todas noites, durante todo o tempo que ficaria em BH.
Foi desta imagem reveladora que nasceu um poema.
Esta miudeza, aqui:



REZA
meu pai
nasceu
cresceu
e viveu
ateu.

no que envelheceu,
deu de cochichar
todas as noites
no ouvido
de Deus.

(12 de novembro de 2010)

A Música Que Toca Sem Parar:de Fernando Brant e Tavinho Moura, Paixão e Fé, na voz inconfundível de Milton Nascimento.


Já bate o sino, bate na catedral
E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressureição

E sai o povo pelas ruas a cobrir
De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei
No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração
E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor

42 comments:

Marcantonio said...

Tenho cá as minhas razões pessoais para me emocionar com a sua descrição e com o próprio poema, que não é uma miudeza, já que reflete grandeza emocional, busca de transcendência e a afirmação dos misteriosos vínculos da fé e do afeto. Não é de alguma forma a expressão de uma comunhão simbólica entre dois tipos de filiação e duas formas de paternidade? Afinal que sei senão que emociona e comove de forma elevada?

Tomara marque o seu reencontro, então, com a escrita da poesia, pois a vivência e a percepção dela nunca deve ter lhe faltado.

Marcantonio said...

Esqueci do mais importante, de lhe mandar um grande abraço!

Tudo de bom, Roberto.

Primeira Pessoa said...

marquinho, sabe aqueles abraços que "abarcam"... assim mesmo... "abarcam"?

pois é, amigo, é asim que me sinto agora. e numa felicidade imensa de te ler aqui. pensei zilhões de vezes antes de postar o poema (poesia é um assunto de gente séria... não quero "blasfemar" a poesia... não quero e nào posso...)... daí, me aconselhei com 4 pessoas queridas demais, antes de tomar coragem e postar...

quem sabe a volta não vem por aqui mesmo?
esperei 20 anos, como um presidiário que sai da cadeia e vai direto pra cama da mulher amada.

e tá quentinho, aqui.

abraçao.

r.

Andrea de Godoy Neto said...

na reza do teu pai
a libertação dos teu versos...

Roberto, que tua poesia seja bem-vinda!
depois de 20 anos de sono,
feito bela adormecida,
foi despertada não pelo beijo do príncipe,
mas pela fé em Deus
do herói ateu.

teu poema comove!

beijo e um imenso abraço
de saudades que eu tava daqui

Pólen Radioativo said...

Roberto,

Lindo, delicado e cheio de vida.
Como assim desertou se tu és todo poesia, querido?! Acho que o que estava guardado em teus olhos resolveu agora fugir por tuas mãos.
Como é bom amanhecer contigo e com Milton.
Um beijão.

Assis Freitas said...

cochichar no ouvido de Deus é uma bela imagem, e todo o simbolismo do pai que se confidencia ao grande pai,

abração

Primeira Pessoa said...

assis, acho que esta imagem (e o som sussurrado do cochicho) fizeram esta misturança em mim.

tomara que agora a poesia volte e eu não tenha que esperar mais 20 anos pra parir outro.

vale até brincarilhar: a poesia, em mim? foi o pai quem a pariu! rs

abração,
roberto.

Primeira Pessoa said...

pólen,
poesia é assunto sério. não brinco com essas coisas.

é fogo que, muito mais que as mãos, queima a alma do vivente.

vou ser cauteloso.
prometo.

abração,

roberto.

Primeira Pessoa said...

andrea,
receber comentários carinhosos como este deixado aqui por você é meu prêmio jabuti. rs

um galápagos, que fique registrado.

o carinho e a generosidade dos amigos me enternecem.

beijão do roberto.

Magnolia said...

Devias escrever mais vezes poemas.....
Bj

Primeira Pessoa said...

devia e gostaria, magnólia...
mas, cadê ela em mim? rs

abração do

roberto.

Zélia Guardiano said...

Ah, coisa mais linda, a surpresa da descoberta: o pai era próximo do Pai e o filho não sabia...
O espanto sabe escrever cada coisa, Roberto!
Emocionei-me por demais...
Forte abraço, amigo!

Mirze Souza said...

Não me emocionei. Apenas chorei. MUITO!

Roberto, que poema mais lindo esse.

Parabéns, meu amigo!

Beijos

Mirze

Escritor de Rua said...

Otimo blog, estou a seguir....

Tania regina Contreiras said...

Ah, que coisa mais bela e suave!!! Eis o poeta de volta, trazido pelas mãos unidas do pai! Tão lindo, Roberto! Não precisava de mais nenhuma palavra. Ele veio inteiro e para além de...
(minha primeira reação)...

E emocionei-me, Roberto, pelo que o poema diz, e bem dito, e do tanto que essa minha alma, ao leê-lo, sente sem saber dizer.

Lembrei do meu próprio pai, que se foi há anos...

Lembrei de mim própria, na minha fase ateia, quando orava ao deus que cuida dos ateus pra que velasse por mim...rs

Lembrei que o poema que nasce do espanto, da descoberta inesperada, do pai revisto pelo filho....é um poema assim, como o seu, tão belo.

Que esse poeta volte muitas vezes em versos, porque em prosa ele está presente sempre e o admiro muito.

Beijão

Beijão,

AGNALDO NO ESPELHO said...

Rapaz,

Os labirintos antigos eram mais perigosos e menos atrativos; digo isso porque entrei em um sem saber o que queria ou o que esperar. O fui percorrendo, despojado de novelos de lã. Migalhas, tampouco; também não as deixei...

E quando vi estava aqui, no centro do jardim. Dei, logo de cara, com um poema branco - copo-de-leite - florido por décadas a fio, desde a infância até a idade adulta. Poema fermentado, caseiro, assado lentamente no formo dos silêncios familiares.

Então é isso que nos aguardo no centro do labirinto? Perguntei-me em silêncio reverente. Sim! Acabei por concluir. O labirinto internáutico tem dessas surpresas, poemas que transcendem ao tempo e são capazes de decifrar a beleza que se esconde nas simplicidades.

Se me permite, não quero voltar. Fico por aqui, seguidor; Teseu que confronta o Minotauro, mas ao invés de matá-lo o reverencia.

(Não se ofenda pelo Minotouro; foi a melhor analogia que encontrei para o arrebatamento).

Super abraço.

AGNALDO NO ESPELHO said...

Ah, e se me permite, o referenciei em meu blog, para poder acompanhar de perto seus movimentos.

Super abraço.

Primeira Pessoa said...

agnaldo,
seja bem vindo ao blog, faça uso e gáudio do que lhe apetecer. existe uma turminha bacana que passa sempre por aqui. torço para que se descubram.

não se preocupe com o minotauro. entendi direitinho.
tenho agora que visitá-lo em seu canto e me fazer, também, de casa.
recebo e retribuo o afeto.

abraço grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

tania,
sou um religioso meio estranho... fico bem mais temente quando tô empipinado e chego a me tornar fervoroso dentro de um avião. rs

é quando sou um verdadeiro crente!

beijo grande. só seu.

r.

Primeira Pessoa said...

bem vindo, Escritor.
minha casa, sua casa.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

mirze, emocionou-me o seu comentário.
essas coisas ficam à flor da pele, e nos tocam, mesmo.

a gente se irmana neste sentimento e se emociona... juntos.

abração do
r.

Primeira Pessoa said...

o espanto sabe escrever cada coisa...rs
adorei sua frase, zélia.

qualquer dia destes eu dou uma sampleada, como costuma dizer o pedro ramúcio.

beijão do

r.

OutrosEncantos said...

... e quando cheguei ao que tu chama de miudeza já eu caminhava um tamanhão assim de emocionada, que nem enxergava o caminho...
porque me encanta essa tua maneira doce e de menino sempre que falas de ti, das tuas emoções e sentires.
Imagino o espanto, incrédulo como quem tem a sensação de estar a ver algo ou alguém pela primeira vez com olhos de ver, depois de já tantas vezes ter olhado, com amor e carinho...
ah..., parece mal se eu disser que adoro você com esse tamanhão de sensibilidade?!
Abração, moço.

Primeira Pessoa said...

moça dos outrosencantos,
nunca parecerá ou, mais importante, será mal, falar às pessoas de um sentimento bom.

afeto retribuído, com o carinho de sempre, do


roberto.

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
o maior poema é aquele que se nos atravessa na garganta e, atirando à valeta o que de mais banal nos consuma, deixe todos os poros da pele e vasos sanguíneos respirar. sabes o que penso sobre este teu texto...
parto amanhã para atenas em trabalho. naquelas pedras onde há tanto tempo nasceu a civilização ocidental lembrar-me-ei de cada amigo que coleccionei. estarás comigo.
um forte abraço!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
jogue um verbo português nas águas do mar grego. jogue um fado desbotado de amália. um verso de zeca. jogue cinzas e restos de pastéis de belém, pataniscas mofadas. jogue mentiras que não serviram pra nada. jogue verdades sem serventia e que soaram mentirosas. jogue mágoas. jogue os desenganos que a vida porventura lhe tenha enfiado garganta abaixo e fotografias de moças bonitas, fraudulentas em seus diminutos biquinis.

e deixe no nascedouro da civilização ocidental tudo o que já morreu em você (e o que jamais deveria ter nascido).

deixe tudo, jorgíssimo. e leve pra portugal, na sua volta, apenas aquilo que está indo buscar.

sim, eu preciso de um conhaque! rs
sim , hoje to chato pra caraleo!

te esperamos com um abraço na sua volta. e com isto você pode contar.

faça uma belíssima viagem. vá e volte, seguro.
e em paz.

abração do

roberto.

Luciana Marinho said...

já é de belo tamanho tu seres feito de poesia por dentro.. a gente só tem a agradecer quando um tantão desses escapole em infinitas (mesmo quando poucas) palavras, querido roberto.

beijinho de domingo!

Primeira Pessoa said...

lu,
tô me escondendo por detrás daquela máxima (mínima) de que "tamanho não é documento"... rs... aplicando-a noutros aspectos de minha vida, chegando agora à poesia.

você é muito generosa.
só espero não demorar outros 20 anos pra parir outro anãozinho destes.

beijo grande,

r.

CAROLINA CAETANO said...

Roberto, fiquei muito emocionada. Emocionada pela espera da poesia, pelo tempo de seu pai, pelo fato de ser seu pai, pela poesia que se deu, pelo ouvido de Deus. Roberto, isso é grande demais, os olhos estão esticando pra caber. O fato dos vinte anos sem poesia me pareceram tão necessários diante da imagem de seu pai. Não sei, ainda estou emocionada.
Um abraço.

LauraAlberto said...

Há muito tempo atras, escrevi aqui que voltaria a escrever poesia, faltava era algo que o despertasse!
ainda bem que o despertador tocou!
Beijos
Laura
P.S.:para mim as suas crónicas são poesia!

Mulher na Polícia said...

Oi Roberto, querido!

Muitos dizem que não acreditam em Deus e eu não acredito em ateus.

: )

Lindo poema.

Um beijo!

Primeira Pessoa said...

e eu acredito em saci pererê. em papai noel. em lula.

até em mula-sem-cabeça, mulher na polícia, eu acredito.

só não acredito em vida sem amigos, sem família, sem poesia e música.

crenças?

discute-se.
como quem discute futebóis.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

laura,
poesia é, também, sua constante presença entre os que gosto.

alegria é revê-la, aqui.

abraçao do

roberto.

Primeira Pessoa said...

carolina,
suas palavras me emocionam muito.
saiba-se sabedora disto.

grande abraço do

roberto.

Fernando Campanella said...

Beleza o poema, Roberto. Deus é essa beleza que você enxerga no cochilo do pai no ouvido de Deus.
Um abraço, meu amigo.

Primeira Pessoa said...

fernando,
poesia é igual dente do siso. um dia ele dói e você o reconhece em si.
será que a metáfora convenceu? rs

beijão,
r.

Wilson Torres Nanini said...

Roberto,

o poema me tocou profundamente, como poucos o lograram, num dizer de Drummond. Fiquei emocionado por demais. Vou telefonar pro meu pai e reatar a reza que fazíamos juntos.

Não tenho mais que um coração. Cuidado com o que cê me dá a ler!

Abraços!

Márcio Ares said...

Meu caro,

Estou faca afiada, para cortar na carne dos que mais gosto. Talvez eu admire menos o poema que a imagem donde foi arrancado. E até a música, que nesse agora eu nem ouvi, fica pequena. Deus é mesmo essa coisa inventada que muito às vezes se vê de repente num pai. Talvez ele só quisesse que o menino dele voltasse. Ou talvez agradecesse por que você achou o caminho que aos olhos dele chegasse.Não saber faz parte desse mistério onde esperneia a poesia, mesmo nos meninos grandes que há muito deixaram suas aldeias. Ser poeta? Melhor? Você? ... deixa de ser besta, homem! Leia só o que você escreve a toda hora, meio verso, meio prosa... é só uma questão de nome. Eu fico pura inveja, querendo esse tempo, esse jeito, esse tanto!

Abraço,irmão.

Márcio Ares.

Primeira Pessoa said...

marcio,
meu pai foi, por um quarto de século, soldado da pm. no que eu crescia, minhas roupas (e de meu irmão) era feitas com as fardas que minha mãe desconstría para nos vestir. vesti cáqui. uma cor que pesa, e que honra, também.
quando eu for a bh, sei que a gente vai se conhecer (você e eu).

quero lhe apresentar seo lima, um homem que era tão brabo, lá naquele interiorzão, que o povo na rua o graduou: era cabo lima, sargento lima...rs


abração,

r.

Primeira Pessoa said...

nanini,
você é uma das pessoas mais doces que conheço. bora ver se tomamos vergonha e nos encontramos em bh, em outubro.


ah, sim, claro... meu pai:
meu pai é um redemoinho pacificado, poeta.'

seu comentário me traz alegria.


abração

r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Betoímã,
Da próxima vez que eu for a BH, quero ir ver o Seu Lima, que eu via tanto quando menino, lá em casa ou no San Remo, que o Rudson me levava quando ia namorar umas morenas por lá...
Duns 20 anos pra cá apenas falei com seu pai umas duas ou três vezes por telefone, e é pouco, principalmente depois do poema: que é muito...
E eu que sou mílpe mas não sou bobo, guardo na lembrança umas coisas sábias que ele dizia, mas nem vale ocê ficar com ciúmes hein...

Aceite o abraço deste crente que reza pela cartilha da poesia, que é de tantos ateus, mas ressoa uma pessoa tão boa em mim,

o da rama, ou ramúcio...

Tuca Zamagna said...

Não entendi nada quando vi a data da postagem:7.11.2010. Achei que tinha caído num mata-burro do tempo...

O poema é uma pequena jóia, Beto. Cavuca mais no baú e ache outras pra nós.

Essa letra do Brant é demoníaca de tão divina! Acho, desde a primeira vez que ouvi a música (e, infeliz ou felizmente, ninguém concorda comigo), uma das três melhores letras da fera! E não me pergunte quais são as outras duas, senão vai ter gente puxando a peixeira pra mim quando eu disser que são “Morro velho” e “Boca a boca”. Desta, acho que nem o Milton gosta, porque nunca a cantou em seus shows. Ainda bem que existe a Nana pra cobrir de sedas e veludos vocais obras-primas como essa.

Abração