Friday, November 12, 2010

Três Poemas de Manoel de Barros (e um dele é dito)

.
















Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada
(I)


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.


Glossário de transnominações em que não
se explicam algumas delas (nenhumas) - ou menos


Poesia, s. f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos com empregos de palavras imagens cores
sons etc. geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados

Poeta, s. m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de um vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto

Boca, s. f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto

Sol, s. m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém

Árvore, s. f.
Gente que despetala
Possessão de insetos
Aquilo que ensina de chão
diz-se de alguém com resina e falenas
Algumas pessoas em quem o desejo é capaz de irromper
sobre o lábio, como se fosse a raiz de seu canto

Apêndice:
Olho é uma coisa que participa o silêncio dos outros
Coisa é uma pessoa que termina como sílaba
O chão é um ensino.



Manoel de Barros
Gramática Expositiva do Chão
Editora Civilização Brasileira, 1990

In, O Guardador de Águas


A Música Que Toca Sem Parar:
Pedro Paulo Rangel
recita Matéria da Poesia, de Manoel de Barros.

32 comments:

Costurando-Marias said...

Belo blog!!!

Mirze Souza said...

Roberto!

Esse também é meu! Essa gramática é meu livro de cabeceira junto aos outros todos dele.

Pó parar!

"ABELHAS NOVEMBRAS MURMURAM MEUS OLHOS" EM CONCERTO A CEU ABERTO PARA SOLOS DE AVE."

Parabéns, Roberto, você escolheu o melhor.

Beijos

Mirze

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Roberto,
Que loucura de verso, de despensamento: sol, quem tira a roupa da manhã e acende o mar...
Esse Mané é de barro mermo, será que vai virar pó?
Bão demais passear um dedo de prosa e poesia aqui, poeta!

Abraço substantivo,
Darrama.

Fatima said...

Ah, vô falá pro cê viu!
Bom dimais da conta!
Bjs

Primeira Pessoa said...

fátima, se cê fala eu acredito...rs
sim, manoel de barros é tudo de bom.
sabemos.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

da rama,
c6e viu paulim cantar ondem? como foi o lance, aí nos valadôncios.

quero saber.
preciso saber.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

,irze,
acho que dei sorte, porque é muito difícil escolher o melhor de manoel de barros.

fui pelo cheiro.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

muito grato pela visita, sônia.

seja bem vinda ao blog.

abração do

roberto.

Zélia Guardiano said...

Que dizer, Roberto?
É ler e ouvir.
E ouvir outra vez...
Ah...
Grata!
Grande abraço, amigo

Selene * said...

Grande Manoel *-*

Primeira Pessoa said...

zélia,
gosto muito desta desconstrução poética de manoel de barros.
e tem muito o que aprender, ali.
muito.
é assim que sinto a poesia dele.

esta despoesia.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

grande, selene...
imenso!

Tania regina Contreiras said...

O Manoel é meu querido, leio sempre e muito quando me sinto com ferrugem, não há outro, é ele, é ele... Escolher o que há de melhor no Manoel de Barros é um problema sério: gosto de tudo! Que bom encontrá-lo aqui!
Beijos,

OutrosEncantos said...

Ai meu Deus

amei esse blog, Roberto!
soberba poesia, essa de Manoel de Barros.

beijos.

Jorge Pimenta said...

"há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras."
que, no seu caso, não são apenas palavras, mas todos os gritos e silêncios que lhes (re)vestem o rosto.
um abraço, amigo roberto!

Primeira Pessoa said...

devo estar entre os tontos, jorgíssimo.

ó, escrevi ontem o primeiro poema em 20 anos. um poemeto, bebido das águas minimalistas de líria porto, mariana botelho, estes que escrevem tão bem deste que sintetiza o silêncio sem a verborragia da maioria.

to tomando coragem de mandar pros amigos mais proximos. mas já mandei pra líria. dependendo do que ela falar, eu posto. o poema, que é na verdade uma bobagem minha, ajuntamento de palavras desajeitadas, diante do meu espanto ao ver meu pai rezando, na minha ultima passagem por minas gerais.
eu não sabia que ele sabia de Deus.

beijão, bardo bracarense, desse seu amigo das terras altas de minas gerais.

r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Fomos ouvir o Paulim, claro. De há muito eu sentia que meu coração queria rabiscar alguma coisa pro F. Brant, e tive o estalo quando de repente, não mais que de repente, Pedrazul mandou "Travessia". Ganhei a noite e a ideia prum poema, que depois te mando. Ou melhor (ou pior rs), tome-o:

ANTE O CANTO ANCESTRAL
DE FERNANDO BRANT

Ante o canto de Fernando Brant
Eu me encanto bem muito antes
De a primeira sílaba se dar
De o segundo acorde ressoar
Seu canto é ancestral
Ao que a gente se mente
Tão diferente, tão de frente
Pressente toda a vã travessia
Um saber que não nos cabia
Contentamento descontente

Ante o canto de Fernando Brant
Eu me espanto bem muito antes
De a primeira vírgula se dar
De o segundo verso ressoar
Seu canto é sensual
Alma animal da gente
Tão de frente, tão diferente
Encontra paz na despedida
Um sabor de morte e vida
Severina sorte, San Vicente

(Dedicado a Tadeu Franco)

(Pedro Ramúcio)

*

Abraço valadonciano,
De la rama.

Primeira Pessoa said...

moça dos outrosencantos,
manoel de barros foi, até muito pouco tempo, o melhor segredo mais bem guardado do brasil.

que bom que nos revelaram, finalmente, manoel.

abraçao do
r.

Primeira Pessoa said...

tania, depois te passo o link d eonde ce pode baixar o disco inteirinho com a poesia de manoel de barros, recitada pelo PP rangel.
é um lindo disco.

sei que vc vai curtir.

beijao,

r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Seu poemeto! não li e já gostei, saca?

Seu leitor de poemas ocultos,
Da rama, do cio.

Primeira Pessoa said...

da rama,
passarei, com seu consentimento, o poema ao tadeu.

quanto ao meu primeiro poema em 20 anos, é um trenzim pequeno, bobo, desimportante.

te mando por email. mas preciso tomar coragem antes.


beijao,

r.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
Ò, ou ocê me manda o poemeto ou nossa amizade eterna tá acabada aqui, rs!
Aproveita e pede pro Tadeu pra ele deixar eu postar "Esperando a Feijoada" dele e Heraldo do Monte lá no quintalzin de quimeras. Pedrazul cantou essa música no show (aliás, ele sempre a canta) e eu me toquei que é uma linda homenagem a grandes mestres do choro, esse chorinho bom.
Poeta, você, como já disse o próprio Tadeu, é como Irene entrando no céu: não precisa de pedir licença; e tem sempre todo meu consentimento pra o que quiser, menos prá...
E será uma honra pra mim, ser levado até ao Tadeu, dono dum canto com que me espanto...

Abração do Valadão,
Dellarrama.

Assis Freitas said...

taí um cara para o qual não tenho palavras, observo silencios,


abração

Primeira Pessoa said...

ô, zé de assis, nós dois compartilhamos muitas similaridades... pra esse aí, manoel de barros, tiro o chapéu. tiro até o coração azul, de pedra.

mas sou seu fã, também.

saiba.

torça por mim... vai começar cruzeiro x corinthians. se os mineiros perdem, vou mergulhar num breu de dar pena...rs


abração desse seu amigo, o

roberto.

Júlio Castellain said...

...
Qualidade de letrinhas.
Meu abraço, amigo Roberto.
...

Jorge Pimenta said...

meu querido amigo,
aguardo ansioso pelo momento em que a crónica tenha virado poema. quanto a teres sido surpreendido pelo pai e por deus... o que a nós escapa, jamais lhes foge. então juntos...
um abração!

Primeira Pessoa said...

meu jorgíssimo, poeta e amigo querido que respira e existe em braga...
passei-lhe o poema por email. uma bobagem, que vale mesmo como registro de uma vontade.

se você aprovar, posso até tomar coragem e mostrar pra mais pessoas...

abraçao do

roberto.

ps: roubaram nosso cruzeiro, ontem, em são paulo. foi assalto à mão armada. querem (por força!) que o time do presidente seja campeão do brasil. safadeza!

Primeira Pessoa said...

julio,
voce, poeta que so se veste de palavras elegantes...

aceite um abraço meu.

roberto.

nydia bonetti said...

que dizer de manoel de barros... melhor reler,reler, ouvir, ouvir... abraço! nydia

Luciana Marinho said...

me deixou com vontade de manoelar mais... ser tão bonito de natureza!

beijão, roberto!

Primeira Pessoa said...

nydia, e o que dizer de mim, que me esqueci de responder seu comentário?

menino destanto, né?

manoel de barros descarece (rs) de afagos.

será?

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

manoel de barros é e deixa tudo tão natural, né?

luciana, cê já faz isto. do seu jeito, você faz, manoelizando-nos. é só passar pelo seu belíssimo blog pra esta constatação aflorar.

beijão,

r.