Saturday, November 6, 2010

Na tela do teto
















Durante muito tempo tive o costume de avaliar o dia quando me deitava para dormir. Desnecessário dizer que muitas vezes perdi o sono, dependendo de uma ação errada minha, ou de alguém para comigo.
Perdoar é uma dádiva.
E não ser dadivoso com alguém pode pesar tanto quanto não o terem sido com você.
De uma forma ou de outra, as consequências são sempre cruéis. Exercitar o perdão deveria ser uma obrigação. E não uma opção.
E foi assim que o perdão foi, muitas vezes, o meu calcanhar de Aquiles, motivo de grande frustração.
Preciso aprender a perdoar.
E a exercitar um monte de outras virtudes, que deveriam fazer parte da cartilha de toda pessoa do bem.
Mas eu falava do costume de avaliar as ações ao fim de cada dia, hábito que deixei de praticar.
Tão logo me deitava, projetava uma tela no teto do quarto e esmiuçava as últimas 24 horas com o compenetramento de um legista que disseca um cadáver:
Fui ríspido com alguém? Sim ou não?
Mas abri a porta para uma senhora bem velhinha no correio. E paguei sozinho a conta do restaurante.
Comprei ingressos para um show que só vai acontecer daqui a seis meses.
Estarei vivo até lá?
Morrerei?
De que morrerei eu?
Ficarei doente no dia?
Darei os ingressos antecipadamente a algum amigo?
Hoje fiquei triste porque meu time perdeu.
Fiquei feliz demais com a vitória de meu time.
Não deu os 15% de gorjeta ao garçom.
Emprestei o carro a um amigo. Sorri para uma criança na rua.
Não disse eu te amo a quem de direito.
Não fui afetuoso o suficiente.
Fui rude nesta ou naquela situação.
Mostrei o dedo médio - sim, aquele infame dedo médio! - a alguém no trânsito? Passei uma luz amarela? Andei acima do limite de velocidade?
Dei a vez a uma pessoa no trânsito, apesar de ser minha a preferência.
Fui gentil com alguém. Fui atencioso. Fui dócil e doce com quem de direito.
Fiz que não vi um antigo desafeto na rua, apesar de ele ter me cumprimentado com cara de quem queria fazer as pazes.
Dei dinheiro a um veterano de guerra, que esperava no frio pessoas de coração generoso.
Mesmo não possuindo coração tão generoso e fraterno, enfiei a mão no bolso e colaborei, impressionado, talvez, com as pernas mutiladas e o estado precário de suas roupas.
Mas dei. E dei de bom grado. Mas ainda preciso amolecer meu coração.
No trabalho, a crônica não saiu boa. Agredi a gramática com erros grotescos, por pura desatenção?
Ou, não, hoje a crônica saiu dentro dos conformes. Não preciso me envergonhar dela.
Exagerei no chope? No macarrão e no açúcar? Extrapolei no uísque?
Prolonguei o horário do almoço jogando conversa fora no restaurante?
Deixei de retornar um telefonema? Deixei de retornar vários telefonemas?
Não respondi ao e-mail de fulano ou fulana?
Não fiz caminhada pela manhã?
Telefonei para Minas Gerais e disse à minha mãe da saudade que sinto de todos? Há quantas semanas não ligo para Minas Gerais, deixando a impressão de que não sinto saudades de ninguém? Nem de pai, nem mãe...
Deixei de ir a este ou aquele lugar?
Adiei para o futuro esta ou aquela ação? E por aí a fora...

Era assim que tratava de buscar soluções para situações cotidianas antes da chegada do sono. Dependendo do tamanho da encrenca ou da dúvida, o sono não aparecia e eu ficava ali, rolando de um lado para o outro, penitenciando-me por este ou aquele pecado, independente de seu calibre ou teor.

O medo de me tornar um zumbi e não conseguir mais dormir fez com que eu interrompesse o hábito de pesar os prós e os contras do meu dia, adiando para o futuro a possibilidade de me tornar uma pessoa melhor. E de fazer, assim, a minha parte para um mundo melhor. Afinal, a paz do indivíduo é a paz do mundo.


A Música Que Toca Sem Parar:
passei o dia inteiro com Vítor Ramil tocando dentro do meu coração. De seu disco A Paixão de V Segundo Ele Próprio retirei Satolep (Pelotas, lugar que o viu nascer, de trás para a frente), porque tudo o que eu queria hoje era estar em paz. Eu, e o mundo.

Sinto hoje em Satolep
O que há muito não sentia
O limiar da verdade
Roçando na face nua
As coisas não têm segredo
No corredor dessa nossa casa
Onde eu fico só com minha voz
A Dalva e o Kleber na sala
Tomando o mate das sete
A Vó vem vindo da copa
Trazendo queijo em pedaços
Eu liberto nas palavras
Transmuto a minha vida em versos
Da maneira que eu bem quiser
Depois de tanto tempo de estudo
Venho pra cá em busca de mim.

E o céu se rirá d'amore
No olho azul de Zenaide
Outrora... lembras flam(ingos)
Jê ne se pá, singulare
Yê na barra uruguaia
E letchussas no Arroito
Marfisas gemerão de paz
No The Lion!
La Jana torpor vadio
Cigarra sem horizonte
Lia, Alice e a lua
Num charque sem preconceito
O CISNE NEGRO APRISIONA
O bélICo AmoR perdidO
E a Esma num bissaje só
Cativa alguém
Nessa implosão de signos e princípios
Eu guardo o Joca e ele a mim.

O teu nome, Ana, escrito
No braço da minha alma
Persiste como uma estrela
Nas horas intermináveis
Chuva, vapor, velocidade
É como o quadro do Turner
Sobre a parede gris da solidão.
So-to-me-lo te verás-me
Como-lho-me verte-ás-nos
Solo te quiero dizer-te
Que me sinto mui contento
Porque vou na tua casa
E lemos cousas bonitas juntos
No silêncio eu pego em tua mão
Tu do meu lado e eu no teu quarto quieto
Teu ser se confunde no meu.

Vitorino de La Mancha
Minha luta se resume
No compasso de um tango
Na minha triste figura
Meu piano Rocinante
A YOGA e o chá no fim da tarde
E depois a noite e meu temor.
Eu converso com o Kleiton
Na mesa da casa nova
Sobre a vida após a morte
Sobre a morte após a vida
Vencedor é o que se vence
E a falta do Kleber é dura
O que a gente quer é ser feliz
A paz do indivíduo é a paz do mundo
E viva o Rio Grande do Sul!

Só, caminho pelas ruas
Como quem repete um mantra
O vento encharca os olhos
O frio me traz alegria
Faço um filme da cidade
Sob a lente do meu olho verde
Nada escapa da minha visão.
Muito antes das charqueadas
Da invasão de Zeca Netto
Eu existo em Satolep
E nela serei pra sempre
O nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina
Quem viver verá que estou ali.

22 comments:

Assis Freitas said...

esse teu cinematógrafo mental em projeção das equações diárias,
de pensar o meu dia angustia e prefiro o fade out,


abração

Primeira Pessoa said...

eu também prefiro o fade out, assis.

terei desistido de me melhorar? rs
pelo menos, a música do vitor é um petardo... observe: a mistureba dele deu certo...

beijão,

r.

Daniela Delias said...

Querido Roberto...escrevo esse "comentário" com lágrimas nos olhos. Pela beleza do texto, tão de todos nós, eu penso...mas especialmente por Satolep, por Vitor. Satolep é minha cidade. Quando a saudade aperta canto para mim mesma...

...Eu existo em Satolep
E nela serei pra sempre
O nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina
Quem viver verá que estou ali

Bjos, carinho imenso.

Tania regina Contreiras said...

Ah, Roberto, pois que eu perdia o meu sono pensando, não no que fiz ou deixei de fazer, mas planejando o que faria. Dava no mesmo, afinal: ia-se o sono... Aprendi que hora de dormir é hora de...dormir!

Bela música! Não, não é uma indireta...não mais, é direta mesmo! rs
Beijos, Roberto, mais uma crônica gostosa de ler.

Primeira Pessoa said...

amo os irmãos ramil, daniela. e tenho o privilégio de desfrutar da amizade de dois deles (fui apresentado ao vítor, um menino interessante e sombrio...rs)..
ontem, recebi um email do kledir falando do cancelamento do show de abertura que fariam (ele e kleiton) para paul mc'cartney e não resisti, respondendo na hora: - foda-se o paul! sempre gostei mais de george, mesmo...rs

pelos guris aprendi a gostar da cidade em que vocês existirão para sempre.

e levanto daqui, a milhares de milhas de distância, um solitário brinde a vocês e a satolep.

tim-tim!

Primeira Pessoa said...

taninha,
no outro dia conversava com minha advogada e ela me perguntou que cara amarrotada era "aquela". respondi que eu era assim mesmo (rs)... que aquela cara é porque sou muito ruim de cama... e a gringa, muito séria:
- não fale assim, senhor lima... aqui no nosso país as pessoas não costumam ser francas o bastante pra se assumirem ruins de cama...
e eu:
pois eu sou. desde menininho.

e dei uma sonora gargalhada ao ver aquela cara dela, certa de que nada havia se perdido na tradução.

ó, xá comigo que mando a cantiga.
vítor ramil é genial. sou fã demais. sei que cê também ficará.

beijão,

r.

Zélia Guardiano said...

Crônica maravilhosa, Roberto!
Demais!
[Hoje, quase postei "Passar da página dois", uns modestos (como sempre) versinhos, inspirados no que eu poderia chamar de este seu tema.]
Cancelado o show?
Azar do Paul!
Linda a música do Vitor:
"Vencedor é o que se vence"
Abraço apertado, amigo!
Zélia

putas resolutas said...

com o tempo, beto, aprendi a me perdoar - e erro sim senhor - essa é minha humanidade - vou ver se acho algo escrito faz tempo, peraí:

(des)enganos
líria porto

erro quanto erro
enquanto acerto
sempre que tento
intento berro
erro nesse verso
naquele inverso
erro quando peço
careço devo
e nada ofereço

erro por teima
cisma queima
erro pelo avesso
poros pelos
erro ao não sê-lo
ao desconhecê-lo
descolar um selo
deslocar um medo
ao não decolar

***

e de ser assim, se não me perdoasse - e dormisse - morreria...

besos


(ah... estás cada dia melhor para escrever!)

Primeira Pessoa said...

zélia, cancelaram na véspera. o kledir já disse vai retaliar, quando forem fazer sow em londres, não deixam o paul fazer a abertura...rs

quer guerra, paul mc cartney?
temos um exército em bombachas...

beijo grande, zélia querida.

Primeira Pessoa said...

ta vendo???... voce pelo menos consegue achar em você a decência de transformar sentimento em "velson" bonito...

acabo de descobrir um osso invejoso em mim. rs

saudades, lírica.

Mirze Souza said...

Roberto!

Que beleza esse texto! A coisa mais difícil que acho é o perdoar a si próprio. E só partindo desse ponto saberemos perdoar o outro.
A não ser aquele perdão recitado que você nem ouve e já vai respondendo: tá, perdoo.

Só te peço que ligue quase sempre para sua mãe.

Beijos

Mirze

OutrosEncantos said...

Oh Roberto, nessa tela do tecto a gente às vezes vê um retrato danado, não é, não?!... pôxaaa...
:-) beijo, amigão.

Primeira Pessoa said...

é verdade, moça dos outrosencantos... a imagem que pintamos de nós mesmos, nem sempre á a mais bonita, mas às vezes somos muito duros com nós próprios e distorcemos um pouco as coisas.

desaprender o sofrimento, talvez, seja uma boa coisa.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

mirze,
ligo sempre pra dona rute. menos do que deveria e menos do que ela gostaria e merece...rs

vamos aprendendo. ainda somos "jovens"...rs

beijão do

r.

Lara Amaral said...

Minhas horas antes de dormir são sempre insones, não importa quando deito, meu cérebro tira uma, duas horas para matutar. E tbm não importa se durante o dia eu só tenha pensado "na vida"; ao deitar, minha mente entra em super atividade: penso em mais causos do que qualquer mineiro, passa em minha cabeça mais vidas do que eu jamais poderia ter.

Amigo, seu texto me tocou profundamente, incrível!

Beijo no seu core.

Primeira Pessoa said...

larinha,
mesmo as minhas horas, depois que adormeço, são insones...rs
acho que o medo que a morte passe, me pegue desprevenido... por isso, quase sempre, é um olho aberto e o outro fechado. quando arde, eu troco de olho... rs

falando sério, isso aí é software de poeta, o que você tem.
esquenta não. tomare que não passe nunca.

beijão,

r.

Jorge Pimenta said...

querido amigo,
...
puseste-me a olhar para o tecto à procura de um espelho que se abrisse por detrás das patas de ácaros semi-visíveis... e o sono perdeu-se... e a consciência anda vagueando pelas paredes à espera do invólucro que a mereça... nem valium me vai valer, esta noite, por certo...
bela crónica, robertílimo. podes dormir descansado :)
um abraço!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo, nosso benfica é que não nos deixa dormir em paz... onde é que já se viu?
levar uam mão cheia dos jagunços de pinto da costa?

to brabo! rs

abração,

r.

Jorge Pimenta said...

nem me fales...
ontem o dia nem despiu o pijama... hoje, os seus olhos ainda ardem... espero amanhã já conseguir pensar que, afinal, os jagunços do pinto da costa fizeram a festa por ganharem ao CAMPEÃO!
um abraço, amigo cruzeirista que há muito vive no meu coração!

Carla Farinazzi said...

Linda crônica!

Geralmente são essas e outras as coisas que ficam povoando nosso imaginário ao deitarmos. Eu pelo menos fico remoendo diversos assuntos. Às vezes, para minha tristeza, um assunto só. Indo e vindo, rodando, se debatendo e se revirando.
Me sinto um "bife" nestas noites...

Beijos

Carla

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
fui, em julho do ano passado, assistir cruzeiro x estudiantes, final da libertadores. não havia mais bilhetes e sorin, ídolo do meu cruzeiro, conseguiu-me alguns "ingressos"...
após o resultado adverso (foi o último jogo de ramires com a camisa do cruzeiro), entrei em parafuso.
juliana vianagre, euler vieira e renato braz (meus parceiros na jornada e no jantar, pós-jogo) tentavam me consolar, em vão.
coube a sorín (que não jogou, sacaneado pelo treinador) me fazer entrar nos eixos novamente:

- roberto, o futebol não paga as nossas penas. isto é apenas um jogo de meninos, que transformaram num negócio milionário. vá por mim, vivo disto.

voltei mais leve para nova york.

mas continuo sofrendo, apaixonadamente, quando meu time perde.

abração, bardo de braga!

r.

Primeira Pessoa said...

carla,
nessas noites to bem mais pra carne moída... segundo líria porto, ja tenho olhar de boi, mesmo....

a caminho do matadouro, todo dia... toda noite...rs


bom te ler aqui, entre os meus.

beijão,

roberto.