Sunday, May 22, 2011

3 Poemas de Mia Couto

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Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia


in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas



Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?


in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas




Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas


A Música Que Toca Sem Parar:
da terra de Mia Couto, Moçambique, fomos buscar a belíssima Nwahulwana (tocando aqui pela terceira vez), de Humberto Carlos Benfica e sua Orchestra Marrabenta Star.

Tuesday, May 17, 2011

Uma voz soprando ao meu ouvido

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Sempre vai aparecer alguém dizendo que escutou uma voz divina assoprando ao seu ouvido, antes de uma guinada em sua vida.
Isto não vem de hoje e se manifesta de diferentes maneiras.
Imagino que os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold, perpetuadores do Massacre de Columbine tenham escutado vozes.
O mesmo aconteceu com José Datrino, personalidade urbana carioca, que perdeu toda a sua família num incêndio do Gran Circo Norte- Americano, ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961.
No dia seguinte ao incêndio que culminou com a morte de cerca de 500 pessoas, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais" - segundo suas próprias palavras -, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual.
Foi assim que ele se transformou no Profeta Gentileza, personagem que inicialmente fazia pregações de cima de um caminhão, mas passou a fazer inscrições pacíficas sob o viaduto de Santa Tereza.
Cabelos e barbas longos, vestido sempre com uma túnica branca, tornou-se uma lenda na cidade do Rio de Janeiro.
"Gentileza gera gentileza" é a sua frase mais conhecida.
Este pode ser o caso de Harold Camping, líder de um ministério evangélico independente chamado Family Radio Worldwide, com sede na cidade de Oakland, Califórnia.
Ele leu o novo testamento, fez a sua interpretação e chegou à conclusão de que Jesus está chegando - no que escrevo esta crônica - daqui a quatro dias.
Sob a sua orientação foram espalhados milhares de outdoors pelas estradas do país, pôsteres em paradas de ônibus e postes.
E a mensagem é inequívoca: neste 21 de maio, seremos todos réus.
Este será o dia do grande julgamento e, sabemos, é larga a porta do inferno.
Fiz as minhas contas e meu caso não tem solução.
Quatro dias é muito pouco para eu me redimir, me purificar ou recomeçar.
Tenho pecados demais em minha conta corrente.
Abusei do corpo - este templo a mim presenteado - e tive pensamentos impuros que não cabem na palma da mão.
Bebi, fumei, praguejei, comi além do que deveria, cobicei, tive momentos de vaidade e cólera.
Menti para salvar a pele e tenho no currículo inúmeras mentirinhas comerciais.
Fiz uma ou outra coisinha boa que podem amenizar a minha pena, mas tenho consciência de que as agravantes são maiores que as atenuantes. Afinal, a mão da justiça divina é pesada e justa.
Só me resta esperar a passagem destes próximos quatro dias tentando corrigir algumas coisas, procurando realizar o que não realizei nestes últimos 48 anos.
Quero conhecer a Andaluzia e escutar flamenco tomando um porre de cidra.
Quero ficar sem ar em Matchu-Pitchu.
Quero celebrar mais um campeonato brasileiro vestindo o azul do meu glorioso Cruzeiro Esporte Clube.
Quero uma casa no campo e aprender a tocar violão.
Quero andar sobre patins.
Quero dançar um tango no Caminito, em Buenos Aires.
Quero voltar a escrever poesia e publicar um livro.
Quero fazer uma dieta e emagrecer oito quilos.
Quero caber dentro de um terno.
Quero a oportunidade de falar aos congressistas de Washington, da necessidade de se aprovar uma lei de imigração com urgência urgentíssima.
Argumentarei por aqueles que não veem pai e mãe há muitos anos, porque sabem que se forem, não conseguirão voltar para prosseguir na labuta diária por um pedaço de pão.
Defenderei os que não conseguem trabalhar porque não podem conduzir livremente pelas ruas do país.
Pleitearei pelas famílias que ficaram divididas, rachadas ao meio por deportações.
Falarei do terror proveniente do medo das cada vez mais constantes batidas do Ice.
Falarei do medo maior que a vontade de ser de ser feliz, de cada um dos imigrantes indocumentados.
Falarei da voz que sopra ao meu ouvido – agora -, a menos de quatro dias antes do fim.
E é a mesma voz que murmura ao ouvido de milhões de pessoas, que merecem dignidade e liberdade, como um desígnio de Deus.



A Música Que Toca Sem Parar:
Gentileza, letra e música de Gonzaguinha.

Feito louco
Pelas ruas
Com sua fé
Gentileza
O profeta
E as palavras
Calmamente
Semeando
O amor
À vida
Aos humanos
Bichos
Plantas
Terra
Terra nossa mãe.

Nem tudo acontecido
De modo que se possa dizer
Nada presta
Nada presta
Nem todos derrotados
De modo que não de prá se fazer
Uma festa
Uma festa.

Encontrar
Perceber
Se olhar
Se entender
Se chegar
Se abraçar
E beijar
E amar
Sem medo
Insegurança
Medo do futuro
Sem medo
Solidão
Medo da mudança
Sem medo da vida
Sem medo medo
Das gentilezas
Do coração.

Feito louco pelas ruas...

Sunday, May 8, 2011

Dois Poemas de Silvio Mendes
















Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma fórmula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete
o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela
janela nem atravessa pontes.
E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.
A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma
tirania difícil de inalar.

Dão-lhe a poesia e ele escreve tempestades.


(2)

Semear



Semear, gota a gota, os filhos

da palavra, os únicos que

sentem, sílaba a sílaba, a

sua forma, os significados

primordiais do sentido

e uma inaceitável estrutura

de conforto. Semear, página

a página, todas as faces do mundo,

uma a uma, reconvertidas. E depois

colher.

Isto

Isto é o passado.

A culpa de um homem, em caso de dúvida, começa aqui.

Quando se sente só, se acha perdido, é no passado que se deita,

aqui, onde a mãe o viu crescer com o nó de mãe no peito,

onde disse o primeiro palavrão com o pânico da desordem,

onde se engasgou para sempre cravando a estaca do seu esconderijo

definitivo.




Sílvio Mendes nasceu em Vilela, Paredes, licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho e trabalha actualmente como comunicador de ciência na Associação Viver a Ciência e na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Assinou um capítulo do livro “Vidas a Descobrir” (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2009) e mantém actividade poética no blogue www.idiotequesw.blogspot.com. É comunicador, tradutor de interacções entre espécies e amante regular da palavra.

A Música Que Toca Sem Parar:
daquela primeira lavra das composições de Raimundo Fagner, gravada aqui com participação especial de Paulinho Pedra Azul, Pobre Bichinho.

Tuesday, May 3, 2011

Onde está Osama Bin Laden?

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Onde está Osama Bin Laden?
Estará no fundo do mar, enrolado numa túnica branca?
Estará no paraíso dos fundamentalistas de Alá, rodeado pelas setenta e uma virgens prometidas aos mártires muçulmanos, e beijando os anéis do profeta Maomé?

Onde estará Osama Bin Laden, esse homem nascido em berço de ouro e de pés feitos de ódio, poeira e fuga?
Ele, que estava em tantos lugares e estava em lugar nenhum.
Que não estava em cavernas seculares.
Que não estava nas nuvens.
Que não estava em um oásis ou na bagagem de um jipe.
Que estava num lugar onde não estava.
Ele, que jamais esteve ou estará.

Ele e seu ódio escancarado ao mundo ocidental e sua sede de matança.
Ele e sua barba comprida, suas sandálias de beduíno, seus cabelos feitos de vento, areia e dunas de sangue do seu deserto.
Ele.
Onipresença diabólica, um dogma, um pecado, um haram.
Ele, um cidadão árabe. Uma vingança. Uma causa.
O árabe mais conhecido do mundo. E nem por isto, popular.
Odiado por tantos, amado por quantos?
Onde ele está?

Posso afirmar que Osama Bin Laden está no coração de um homem-bomba, meus senhores.
Ele está dentro da burca de uma afegã, minhas senhoras.
Está na alma e na ferrugem dos precários jihadistas da Al Qaeda.
E na perigosa cintura da odalisca dançando a dança-do-ventre.
Ele está na tristeza dos camelos que vagueiam pelo Saara, nas montanhas paquistanesas e nas tempestades desavisadas.
Está no doce traiçoeiro das tâmaras e nas palmeiras de um oásis fincado numa miragem.

Onde estará Bin Laden?
Estará no fundo do mar, lavado, enrolado numa túnica branca?
Estará na cama de Barack e Michelle Obama?
Estará na minha cama? E na sua?
No luto das viúvas do Marco Zero?
Tudo isto dito, posso dizer que sei onde ele está.

Osama Bin Laden reside no nosso medo e habita nossos pesadelos.
Ele balança a nossa confiança, sentimento esmagado entre os debris das Torres Gêmeas.
Dá expediente, sete dias por semana, no nosso rachado sentimento de indestrutibilidade e nos desejos mais reprimidos.
Está no nosso pensamento todas as vezes que entramos num avião e ficamos olhando sobre os ombros, tentando adivinhar os demais passageiros.
Está no meu olhar confuso, todas as vezes que olho para o sul da ilha de Manhattan e vejo - onde existiu um dia os dois prédios mais altos do mundo - uma boca banguela.
Como repor esses dentes? Como recuperar o sorriso e o sorrir.
Osama Bin Laden está no inferno, meus amigos.
E o inferno também é aqui, bem dentro de mim, bem dentro de todos que se descuidam de si, dos outros e de tudo o mais.


A Música Que Toca Sem Parar:
Dele e de João Donato, A Paz, na interpretação de Gilberto Gil.

Sunday, May 1, 2011

Um Poema de Nuno Júdice
























"Leio o amor no livro da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.”

Nuno Júdice



A Música Que Toca Sem Parar:
Antony and The Johnsons, Cripple and The Starfish.

Sunday, April 10, 2011

fechado pra balanço





amigos queridos,
este blog vai dar uma pausa.
quanto tempo? confesso que não sei. pode ser uma semana, um mês. pode ser pelo resto dos meus dias.
por motivos tantos e que não merecem ser citados, não tenho conseguido produzir cronicas que mereçam ser lidas por vocês.
e, para que cesse em mim essa sensaçao de fraude, peço a vocês que me concedam esta pausa.
neste meio tempo, tentarei retomar a escrita de um romance que adormeceu dentro de mim e, esta madrugada, pediu-me para caminhar.

deixo-lhes uma canção de Roberto Mendes e muito de afeto.

abração do

roberto.

ps: assis, lírica, nina, taninha, mirze, diubs, beta, jorge pimenta, marcantonio,lu marinho, ramúcio, nanini, campanella, andrea e todos aqueles que esqueci de mencionar, o meu muito obrigado. vocês fizeram este blog.

Saturday, April 2, 2011

A Lupa de Adolfo Bioy Casares











__«Não espero nada. O facto não é horrível. Desde que o
resolvi, ganhei tranquilidade.
__Mas essa mulher deu-me uma esperança. Tenho que
temer as esperanças.
__Ela olha os entardeceres todas as tardes; eu, escondido,
fico a olhá-la. Ontem, e hoje outra vez, descobri que as
minhas noites e dias estão à espera dessa hora. A mulher,
com a sua sensualidade de cigana e com o lenço colorido
grande demais, parece-me ridícula. No entanto, sinto,
talvez com um pouco de humor, que se pudesse ser olhado
um instante por ela, falar com ela um instante, receberia
ao mesmo tempo o socorro que o homem tem nos amigos,
nas noivas e nos que são do seu próprio sangue.»
(...)


A mostrar as mensagens mais recentes com o marcador adolfo bioy casares. Mostrar mensagens mais antigas A mostrar as mensagens mais recentes com o marcador adolfo bioy casares. Mostrar mensagens mais antigas
__«Não espero nada. O facto não é horrível. Desde que o
resolvi, ganhei tranquilidade.
__Mas essa mulher deu-me uma esperança. Tenho que
temer as esperanças.
__Ela olha os entardeceres todas as tardes; eu, escondido,
fico a olhá-la. Ontem, e hoje outra vez, descobri que as
minhas noites e dias estão à espera dessa hora. A mulher,
com a sua sensualidade de cigana e com o lenço colorido
grande demais, parece-me ridícula. No entanto, sinto,
talvez com um pouco de humor, que se pudesse ser olhado
um instante por ela, falar com ela um instante, receberia
ao mesmo tempo o socorro que o homem tem nos amigos,
nas noivas e nos que são do seu próprio sangue.»
(...)


«Quinta hipótese: os intrusos seriam um grupo de mortos amigos; eu, um viajante, como Dante ou Swedenborg, ou se não outro morto, de outra raça, num momento diferente da sua metamorfose; esta ilha, o purgatório ou céu daqueles mortos (fica enunciada a possibilidade de vários céus; se houvesse só um e todos para lá fôssemos e nos esperasse aí um casamento encantador com todas as suas quartas-feiras literárias, seríamos já muitos a ter deixado de morrer).


Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. Fiquei horrorizado (pensei com teatralidade interior) por ser invisível; horrorizado por Faustine, próxima, estar noutro planeta (o nome Faustine deixou-me melancólico); mas estou morto, estou fora de alcance (verei Faustine, vê-la-ei a ir-se e os meus sinais, as minhas súplicas, as minhas tentativas, não a poderão atingir); todas as soluções medonhas são apenas esperanças frustradas.

(…)

É assombroso o invento ter enganado o inventor. Também eu acreditei que as imagens tinham vida; mas a nossa situação não era a mesma: Morel tinha imaginado tudo; tinha presenciado e conduzido o desenvolvimento da sua obra; eu deparei com ela finalizada, a funcionar.

Esta cegueira do inventor a respeito do invento é surpreendente, e recomenda-nos circunspecção nos juízos… Talvez eu esteja a generalizar acerca dos abismos de um homem, a moralizar a partir de uma peculiaridade de Morel.

Aplaudo a orientação que, sem dúvida inconscientemente, ele imprimiu aos seus tacteios de perpetuação do homem: limitou-se a conservar as sensações; e, embora equivocando-se, predisse a verdade: o homem, só, há-de aparecer. Em tudo isto poderá ver-se o triunfo do meu velho axioma: não se deve tentar conservar vivo o corpo todo.»

Adolfo Bioy Casares
A Invenção de Morel


A Musica que Toca Sem parar:contribuição de Luiz Nassif, o Coral do Sadaic desfia lindamente a antológica Regreso a La Tonada, de Armando Tejada Gómez e Tito Francia.
Antígona, 2003