Wednesday, March 31, 2010

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceitado o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer pelo menos não fui tolo e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
Clarice Lispector
Tuesday, March 30, 2010

Alencar, o rei da mentira
É claro que já menti nessa vida, mas nunca disse um ‘eu te amo’ que não tivesse sido verdadeiro. Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessavam. Escorados nesse mote, muitos de meu convívio demoraram a acordar para uma realidade melhor. Outros continuaram dormindo.
À medida que fui amadurecendo, passei a evitar os pequenos deslizes. Mentir por mentir, jamais. Mas tem gente que mente por costume e o faz de tal maneira, que as mentiras se transformam em doentias verdades. São os casos patológicos.
Estes não aprenderam ainda que a verdade é tinta permanente.
É cinzel esculpindo na pedra.
Já a mentira é um paliativo.
É o rabisco da vara na areia.
E não apenas o antônimo da verdade.
A verdade pode machucar, é ferro em brasa, que marca para sempre o couro do gado.
Mas a mentira vai mais fundo, tem vocação de punhal.
A verdade pode provocar dor, mas com o tempo traz alívio e luz.
A mentira, não.
Com a mentira vem o rancor, a quebra da confiança e o desprezo.
Que fique claro: mentir e omitir são duas coisas completamente diferentes.
A omissão pode ser uma atitude com resquícios de covardia.
Mas a mentira é 100% covarde.
Conheci muito mentiroso nessa vida. Mas nenhum com a eloqüência e a cara-de-pau de um caminhoneiro de São Raimundo, o Alencar.
Mentia para impressionar, ou para tirar vantagem de situações completamente irrelevantes. A maior parte do que falava era ficção barata.
Segundo seus relatos, havia percorrido o trecho Valadares - Belo Horizonte, 360 quilômetros de estrada esburacada e perigosa em fantásticas três horas. E com o caminhão cheio de bois.
Num outro dia, aparecia no bar, pagava cachaça para todo mundo e dizia que estava comemorando os treze pontos feitos na loteria esportiva. O tempo passava e ele continuava vivendo de aluguel e comprando fiado no armazém de Zé Barbudo.
Segundo Alencar, o pára-choque amassado de seu caminhão era a prova material de que havia atropelado uma onça enorme, quase chegando a São Paulo. “Não deu para aproveitar nem o couro”, fartava-se de repetir.
Se viajava ao Rio, dizia ter almoçado na casa de Roberto Carlos e era amigo de Zico, do Flamengo. Era o rubro-negro, o rapaz. E gostava de música romântica.
Com o passar do tempo, ficou estigmatizado e ninguém mais acreditava nele.
Como começaram a ignorá-lo, resolveu se assumir mentiroso e mandou pintar, com as cores do Mengão, nos dois pára-lamas traseiros de seu caminhão Mercedes 1113, os seguintes dizeres:
Alencar, o rei da mentira!
E foi acolhido de volta.
Em todo lugar onde estivesse, a roda se fechava em torno dele e as estórias fantásticas eram garantia de entretenimento. Afinal, Alencar tinha um tio astronauta que fora à lua duas vezes, um primo que namorara a miss Brasil (uma certa Marta Rocha), e um conhecido que estudara com o ex-presidente Getúlio Vargas.
Não raro, mentia atendendo a pedidos.
Numa destas ocasiões, cruzou com a viatura da polícia rodoviária na entrada de um posto de gasolina. Os dois carros ficaram lado a lado e um patrulheiro pediu:
- Ô Alencar, conta uma mentirinha aí.
Alencar pediu desculpas, mas disse que não podia.
- Estou indo pedir socorro em Valadares. Teve um acidente a 30 quilômetros daqui e tem gente ferida espalhada pelos dois lados da estrada.
Os patrulheiros nem se despediram. Ligaram as sirenes e seguiram, em alta velocidade, na direção do horrível acidente.
Duas horas depois retornaram ao posto de gasolina e lá estava o Alencar, comendo uma picanha e bebendo uma Brahma bem gelada com outros dois caminhoneiros.
Um dos patrulheiros foi até a mesa e, de dedo em riste, mandou o seu recado nervoso:
- Escuta aqui, Alencar! Dessa vez você passou dos limites! Que brincadeira de mau gosto foi essa de dizer que tem um acidente cheio de mortos e feridos perto daqui?!
Alencar deu uma garfada na parte gorda da picanha e respondeu, impávido:
Uai, mas você não pediu para eu contra uma mentira?
E todos caíram na gargalhada.
Ninguém imaginou, no entanto, que Alencar ainda pagaria caro pelo seu estilo de vida.
Numa madrugada, acordou a mulher e disse que estava enfartando. A patroa ajeitou melhor o travesseiro, resmungou qualquer coisa e continuou a dormir.
Dois dias depois ele foi enterrado, humildemente, sem as pompas normalmente reservadas a um rei.
*
A Música Que Toca Sem parar:
a improvável parceria de Ritchie, musicando e cantando Meantime, poema da fase inglesa de Fernando Pessoa.
Saturday, March 27, 2010
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Cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania.
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite
concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria Abençoada sejas!
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra tu
o seu novo sentido: significa rei.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.
Arsenynij Tarkovskij
Poeta e tradutor russo
(Elisavetgrad, 25 Junho 1907 – Mosca, 27 Maio 1989)
***
A Música Que Toca Sem Parar:
Antonio Vlleroy, Sinal dos Tempos, dele e de Bebeto Alves

Cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania.
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite
concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria Abençoada sejas!
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra tu
o seu novo sentido: significa rei.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.
Arsenynij Tarkovskij
Poeta e tradutor russo
(Elisavetgrad, 25 Junho 1907 – Mosca, 27 Maio 1989)
***
A Música Que Toca Sem Parar:
Antonio Vlleroy, Sinal dos Tempos, dele e de Bebeto Alves
Friday, March 26, 2010
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Um Roqueiro de Ficha Limpa
Preciso parar com a mania de levar revistas masculinas para o banheiro.
Até já tentei, como explicarei a seguir. Mas, juro, não compro essas revistas para ver as moças peladas.
Faz tempo que não as adquiro para esse fim.
Compro pra ler as entrevistas e os artigos, que são muito bons, e pelo excelente trabalho editorial que realizam.
Sim, eu sei. Ninguém acredita. Minha mulher não acredita.
Desde a primeira namorada, esse tem sido um problema sério.
E esse, que julgo salutar, costume, já me fez passar por algumas situações embaraçosas.
Há não muito tempo, eu saía do mais íntimo dos redutos, e esbarrei com um conhecido pastor evangélico.
Na verdade, foi mais que um esbarrão. Foi uma “colisão”.
Ele, um pastor da velha guarda com fama de severo, tinha muita pressa de entrar no banheiro.
E eu tratei de colaborar o melhor que pude, apressando-me, vendo a maçaneta da porta girar nervosamente.
Acho que ali, na saída, ao vê-lo suando nas têmporas, é que matutei pela primeira vez na vida que, assim como qualquer um de nós, pecadores, pastores e padres também freqüentam banheiros.
E, assim como nós, pecadores, dependendo do que tiverem ingerido, estão sujeitos às intempéries intestinais.
Voltando ao episódio, colidimos violentamente, o pastor e eu.
E a revista masculina escorregou de debaixo do meu braço, caindo no chão com as páginas centrais escancaradas.
As páginas, e as pernas de uma conhecida atriz de televisão, que revelava aos homens comuns desse mundo, um tanto bom de sua cobiçada intimidade.
Num flash, recordei-me de ter lido em algum lugar sobre o cachê milionário recebido para posar para a revista.
Mas este detalhe, ali, em nada importava.
E eu e o pastor ficamos com cara de dois cowboys, cada um com sua respectiva arma na mão, olhando nos olhos do adversário, tentando adivinhar o próximo movimento.
Ele portava uma bíblia.
Eu, uma playboy.
Corremos os olhos pela fotografia colorida naquela fração de segundos, que nos pareceu - quero crer, também a ele -, uma eternidade.
Apressado em acertar as contas com sua barriga, ele só teve tempo de me passar um olhar severo, antes de bater a porta firmemente atrás de si.
Segundos depois ouvi o barulho característico de alguém que não estava bem dos intestinos.
Fui para minha sala, refugiei-me detrás da escrivaninha e fiquei naquele estado de espírito que oscilava entre o envergonhado e o já conformado, esperando a bronca dele.
E ele veio, mas não trouxe o sermão para o qual eu tanto me preparara.
Deve ter ficado constrangido com os sons inerentes à “natureza” humana, que ele sabia que eu escutara do lado de fora do banheiro.
Entrou em minha sala, falou de um evento em sua igreja e eu achei melhor não tocar no assunto da revista, ou tentar me explicar.
Estava de ótimo tamanho.
Enquanto ele falava, eu me prometia que, mesmo sendo a título de material de leitura para a duração “do procedimento” cabível (dar uma utilidade extra ao tempo consumido no banheiro), eu nunca mais levaria uma revista masculina comigo.
E durante muito tempo mantive a promessa, até que no outro dia apareceu alguém com uma revista destas na redação, e não resisti.
O entrevistado era Marcos Nasi, o polêmico vocalista do grupo Ira.
Nesta entrevista ele falava de sua trajetória na profissão de músico, gabou-se de ter namorado Marisa Monte e Marisa Orth, chamou o sertanejo Luciano de “anão de jardim” e contou “todas” as suas inconseqüentes rusgas com a polícia. Disse que nunca foi preso.
"Tecnicamente", pensei eu.
Nasi se esqueceu de um episódio ocorrido em Framingham, no início dos anos 90.
Episódio este, que relembro aqui:
Após um show do Ira no Ipanema ele ajudava e desconectar o equipamento da banda, quando se aporrinhou com um fã embriagado.
Pela ira do vocalista do Ira, o moço deve ter insistido para que ele cantasse uma música de Zezé de Camargo e Luciano.
Nasi estava possesso.
O roqueiro desceu do palco e já foi socando o pobre rapaz, que teve sangramento no nariz e não chegou a reagir.
Nocauteado, apenas chorou.
Alguém chamou a polícia e Marcos Nasi foi algemado e colocado dentro de uma viatura.
Carlos Silva, que trazia o Ira ao Ipanema, foi conversar com os policiais, enquanto eu, que nada tinha a ver com o peixe, limpava o nariz do rapaz com um maço de guardanapos de papel e tentava convencê-lo a não prestar queixa.
Na minha ignorância, isto poderia trazer-lhe alguns problemas, pois o agredido era um imigrante indocumentado.
A vítima não prestou queixa e Nasi pode voltar ao Brasil com o grupo no dia seguinte, sem nenhum problema.
Mas naquela noite eu não dormi.
Perdi o sono, arrependido por ter me envolvido na confusão.
No fundo do meu coração eu sabia que Marcos Nasi deveria ter passado a noite na cadeia e sido responsabilizado por sua agressividade. Ele não deveria ter ficado impune.
Em sua entrevista à revista masculina tantos anos depois, eu o vejo alardear que tem a ficha policial limpa. O que talvez seja verdade.
Mas, inocente, eu sei que ele não é.
*
A Música Que Toca Sem Parar:
Barão Vermelho, já não tendo Cazuza nos vocais, Down em Mim (Cazuza e Frejat)

Um Roqueiro de Ficha Limpa
Preciso parar com a mania de levar revistas masculinas para o banheiro.
Até já tentei, como explicarei a seguir. Mas, juro, não compro essas revistas para ver as moças peladas.
Faz tempo que não as adquiro para esse fim.
Compro pra ler as entrevistas e os artigos, que são muito bons, e pelo excelente trabalho editorial que realizam.
Sim, eu sei. Ninguém acredita. Minha mulher não acredita.
Desde a primeira namorada, esse tem sido um problema sério.
E esse, que julgo salutar, costume, já me fez passar por algumas situações embaraçosas.
Há não muito tempo, eu saía do mais íntimo dos redutos, e esbarrei com um conhecido pastor evangélico.
Na verdade, foi mais que um esbarrão. Foi uma “colisão”.
Ele, um pastor da velha guarda com fama de severo, tinha muita pressa de entrar no banheiro.
E eu tratei de colaborar o melhor que pude, apressando-me, vendo a maçaneta da porta girar nervosamente.
Acho que ali, na saída, ao vê-lo suando nas têmporas, é que matutei pela primeira vez na vida que, assim como qualquer um de nós, pecadores, pastores e padres também freqüentam banheiros.
E, assim como nós, pecadores, dependendo do que tiverem ingerido, estão sujeitos às intempéries intestinais.
Voltando ao episódio, colidimos violentamente, o pastor e eu.
E a revista masculina escorregou de debaixo do meu braço, caindo no chão com as páginas centrais escancaradas.
As páginas, e as pernas de uma conhecida atriz de televisão, que revelava aos homens comuns desse mundo, um tanto bom de sua cobiçada intimidade.
Num flash, recordei-me de ter lido em algum lugar sobre o cachê milionário recebido para posar para a revista.
Mas este detalhe, ali, em nada importava.
E eu e o pastor ficamos com cara de dois cowboys, cada um com sua respectiva arma na mão, olhando nos olhos do adversário, tentando adivinhar o próximo movimento.
Ele portava uma bíblia.
Eu, uma playboy.
Corremos os olhos pela fotografia colorida naquela fração de segundos, que nos pareceu - quero crer, também a ele -, uma eternidade.
Apressado em acertar as contas com sua barriga, ele só teve tempo de me passar um olhar severo, antes de bater a porta firmemente atrás de si.
Segundos depois ouvi o barulho característico de alguém que não estava bem dos intestinos.
Fui para minha sala, refugiei-me detrás da escrivaninha e fiquei naquele estado de espírito que oscilava entre o envergonhado e o já conformado, esperando a bronca dele.
E ele veio, mas não trouxe o sermão para o qual eu tanto me preparara.
Deve ter ficado constrangido com os sons inerentes à “natureza” humana, que ele sabia que eu escutara do lado de fora do banheiro.
Entrou em minha sala, falou de um evento em sua igreja e eu achei melhor não tocar no assunto da revista, ou tentar me explicar.
Estava de ótimo tamanho.
Enquanto ele falava, eu me prometia que, mesmo sendo a título de material de leitura para a duração “do procedimento” cabível (dar uma utilidade extra ao tempo consumido no banheiro), eu nunca mais levaria uma revista masculina comigo.
E durante muito tempo mantive a promessa, até que no outro dia apareceu alguém com uma revista destas na redação, e não resisti.
O entrevistado era Marcos Nasi, o polêmico vocalista do grupo Ira.
Nesta entrevista ele falava de sua trajetória na profissão de músico, gabou-se de ter namorado Marisa Monte e Marisa Orth, chamou o sertanejo Luciano de “anão de jardim” e contou “todas” as suas inconseqüentes rusgas com a polícia. Disse que nunca foi preso.
"Tecnicamente", pensei eu.
Nasi se esqueceu de um episódio ocorrido em Framingham, no início dos anos 90.
Episódio este, que relembro aqui:
Após um show do Ira no Ipanema ele ajudava e desconectar o equipamento da banda, quando se aporrinhou com um fã embriagado.
Pela ira do vocalista do Ira, o moço deve ter insistido para que ele cantasse uma música de Zezé de Camargo e Luciano.
Nasi estava possesso.
O roqueiro desceu do palco e já foi socando o pobre rapaz, que teve sangramento no nariz e não chegou a reagir.
Nocauteado, apenas chorou.
Alguém chamou a polícia e Marcos Nasi foi algemado e colocado dentro de uma viatura.
Carlos Silva, que trazia o Ira ao Ipanema, foi conversar com os policiais, enquanto eu, que nada tinha a ver com o peixe, limpava o nariz do rapaz com um maço de guardanapos de papel e tentava convencê-lo a não prestar queixa.
Na minha ignorância, isto poderia trazer-lhe alguns problemas, pois o agredido era um imigrante indocumentado.
A vítima não prestou queixa e Nasi pode voltar ao Brasil com o grupo no dia seguinte, sem nenhum problema.
Mas naquela noite eu não dormi.
Perdi o sono, arrependido por ter me envolvido na confusão.
No fundo do meu coração eu sabia que Marcos Nasi deveria ter passado a noite na cadeia e sido responsabilizado por sua agressividade. Ele não deveria ter ficado impune.
Em sua entrevista à revista masculina tantos anos depois, eu o vejo alardear que tem a ficha policial limpa. O que talvez seja verdade.
Mas, inocente, eu sei que ele não é.
*
A Música Que Toca Sem Parar:
Barão Vermelho, já não tendo Cazuza nos vocais, Down em Mim (Cazuza e Frejat)
Wednesday, March 24, 2010
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TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Manuel António Pina
Jornalista e escritor português
(Sabugal, Beira Interior, 18 de Novembro de 1943)
A Música Que Toca Sem Parar:
Roberto Mendes, Flor da Memória, melodia dele, vestindo as palavras de Capinam

TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Manuel António Pina
Jornalista e escritor português
(Sabugal, Beira Interior, 18 de Novembro de 1943)
A Música Que Toca Sem Parar:
Roberto Mendes, Flor da Memória, melodia dele, vestindo as palavras de Capinam
Tuesday, March 23, 2010

Isabella Sonhava
Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão?
Gostaria de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia?
Qual seria a sua fábula infantil favorita?
Será que seu cabelo ficava bonito amarrado por laço de fita?
Usava trancinhas? Tererês?
Será que ela gostava de sorvete de morango?
Será que comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de inocência e nuvens, será que ela conversava com animais de estimação?
Falaria com anjos?
Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? O amiguinho imaginário? Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o seu primeiro dentinho?
Quando caiu o primeiro?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? Gostaria de ter um?
Amaria passear pelo zoológico?
Gostaria de livros, de desenhar? Gostaria de flores?
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava Isabella Nardoni?
Os irmãos? Bichinhos? Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? Já teria pintado suas unhas?
Será que algum dia mergulhou no oceano? Teria gostado do carinho das águas deslizando pelo corpo?
Gostaria de mar e brisa, de vento e verão?
Seria fogo ou água, essa menina tão linda?
Qual seria o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne no rosto? Sardas quando exposta ao sol?
O que estaria escondido nas cartas da cartomante, ou nas linhas desenhadas na palminha de sua mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez? Estaria, em seu futuro, reservado um grande amor?
Que profissão teria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? Trabalharia num banco? Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? Seria dona de casa?
Se casaria? Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voou.
Foi atirada do 6º andar do edifício em que vivia com o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voou. Virou anjo.
Como aqueles com os quais conversava nas noites em que sonhava.
Sim, Isabella sonhava.
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A Música Que Toca Sem Parar:
ancorando um coral de crianças, Milton Nascimento... Benke
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