Wednesday, March 31, 2010

















Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceitado o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer pelo menos não fui tolo e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

Clarice Lispector

11 comments:

Magnolia said...

Adoro tudo o que esta senhora escreveu...
Beijo

J. said...

Enfiamo-nos em caixotes e seguimos padrões sem ao menos entendê-los... Covardia? Falta de coragem? Falta...

Beijo.

Lídia Borges said...

Clarice Lispector, uma autora especial que vale muito a pena ler.
Acabei recentemente o "Laços de Família". Recomendo!

Um beijo

Primeira Pessoa said...

magnólia,
clarice era uma alma atormentada, uma escritora de imenso talento.

eterna, clarice.

Primeira Pessoa said...

lídia,
existe uma entrevista impagável com clarice no youtube. podendo, veja.

ajuda a entendê-la um bocadinho mais.

abs,
R.

Primeira Pessoa said...

falta ou excesso?
nunca saberemos, juliana...
ou, saberemos?

abraço grande do
roberto.

Lou Vilela said...

Tudo sempre tão atual, né? Fantástica!
Bela escolha, meu caro!

Bjs

Paulo Jorge Dumaresq said...

Roberto, concordo com a Lou Vilela.
O texto de Clarice é muito atual e profundo.
É para mexer con os nossos brios de seres racionais e limitados.
Sempre um prazer passar aqui e ficar menos ignorante.
Abração, amigo, e ótima Páscoa.

Primeira Pessoa said...

lou,
essa senhora viveu em recife...rs
abração,
roberto.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
por increça que parível, isso se repete: os grandes autores nunca saem da "moda" (rs)... mais ou menos isto...
os grandes autores nunca deixa de ser atuais.
nunca!
e olha que "nunca" é uma cidade longe pra caráleo.

abração.
R.

Berenice said...

Clarice é insondável. Me sinto entorpecida quando a leio. Se a entrevista que fala do youtube é aquela um pouco antes da sua morte, é mesmo impressionante.

Roberto, meu blog apresenta uns problemas, aparece como aberto apenas pra convidados, mas não é verdade, coisas do blogger! Ele tá sem atividade, sem postagens e sem visitas. Espero retornar em breve.

Beijos
Berenice