Monday, March 1, 2010

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Um céu e nada mais

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.



Ana Luísa Amaral

4 comments:

Reflexo d Alma said...

Ei!
Linda semana!
Que delícia começar o o mes,
o dia a semana com leitura tão gostosa.
Sigo com a postagem pro-vo-ca-ção la
no blog, se quiser depois de ler a ultima
ja conhecendo a sequência
deixar alguma provável sugestão ou ideia...
ja tenho vários textos que dão prosseguimento prontos..
mas quem sabe...
provocar é um pouco disso.

Bjins entre sonhos e delírios

Wilson Torres Nanini said...

Mais um maravilhoso poema para manter o alto nível de propagação do melhor da poesia, neste seu blog. Forte abraço!

Primeira Pessoa said...

catia,
acho que o que você fez não foi exatamente uma provocação...
tem muito de apelo, de convocação... sinto assim...
parabéns pela iniciativa que conseguiu reunir um tantão de gente legal em torno das suas palavras.
esses desafios são saudáveis.
abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

nanini,
qualquer dia apresentarei aos meus amigos que ainda não conhecem, um certo wilson torres nanini, uma revelação da poesia de minas gerais.
abração do
roberto.