Sunday, March 21, 2010











As férias brasileiras de Paul McIntire

Paul McIntire é um americano de quatro costados, tataraneto de irlandeses, daquele tipo que sai vestido de druída na parada do Dia de São Patrício, e é fanático por esportes.
É Yankees no beisebol, Knicks no Basquete, Giants naquilo que os americanos chamam de futebol e, até já se meteu numa briga durante uma partida de hóquei sobre gelo, ao torcer pelo Rangers numa semifinal contra o Devils.
Como a maior parte dos americanos, satisfaz-se por aqui mesmo.
Para ele, o Havaí é o que há de melhor. Já esteve lá quatro vezes.
Conhece as ladeiras de San Francisco como a palma de suas mãos, e seus olhos já foram tocados pela beleza das cataratas de Niagara e do Grand Canyon.
Boston é um banho de cultura toda vez que passa por lá e, aventura de verdade, só nos cassinos de Las Vegas, onde vangloria-se de ter já tirado quase 30 mil dólares de uma máquina caça-níquel.
Os desertos do Arizona não são um mistério para ele. Afinal, fez o trajeto da Rota 66 em mais de uma ocasião. Coisa mais linda!
Mas ele ultimamente andava cabisbaixo.
Estava assim desde o seu divórcio com Diana, uma ruiva que conheceu no primeiro dia de aula do ginásio, e com quem veio a se casar, tão logo tirou o canudo de técnico em computação.
O divórcio, após apenas 3 anos de casamento e nenhum filho foi uma pauleira.
Sem destino ao final das jornadas de trabalho, conseguiu abrigo num Go-Go Bar de Newark.
Foi lá que ele conheceu - entre rodadas de uísque e cerveja -, as inigualáveis meninas do Brasil.
E o mito americano começava a desabar.
No início, relutou um pouco.
Recusava-se a comparar as ondas de Honolulu com as da praia da Joaquina.
Foi nos braços de uma loirinha de Maringá, que passou a acreditar que as extintas Sete Quedas, em Foz do Iguaçu, foram mais exuberantes que as rivais de Niagara.
No movimento dos quadris de uma carioca ele teve a certeza de que o carnaval do Rio de Janeiro era o que os americanos chamam de “The Real Thing”. E que o Mardi Gras de New Orleans era uma imitação barata da folia momesca.
Após uma noite com uma mineirinha de Governador Valadares, Paul passou a contemplar a possibilidade de ir ao Brasil, onde teria as mais belas mulheres do mundo ao alcance de suas mãos.
Passou os meses seguintes estudando o país, e teve até algumas discussões com pessoas de sua família.
Ninguém aceitava esse seu arroubo de paixão e compaixão por um país cuja capital era a Argentina.
“Estão vendo? Vocês são uns tapados!”
E foi assim que Paul Mc Intire classificou de propaganda imperialista aquela matéria de página inteira no New York Times. Nela, o jornalista insensível e tendencioso, chamava São Paulo de Capital Mundial dos Seqüestros-relâmpagos e as favelas do Rio de Janeiro de Nova Medelim.
Feliz e animado, ele partiu de New York para um mês de volúpia, caipirinha, pagode, churrasco a rodízio, praia e sol nos doces trópicos.
A viagem não começou muito bem, é verdade.
Sua bagagem foi extraviada, e ele ficou com a mesma roupa durante quase dois dias no calor abafado do Rio de Janeiro.
O que lhe valeu foi aquela camiseta com a estampa da Ararinha Azul, que comprou ainda no aeroporto do Galeão.
Apesar do abafamento, não fez sol durante os primeiros 5 dias.
Neste período, registraram-se as maiores enchentes de toda a história da cidade. Uma lástima!
Foram dias de tédio e mal-entendidos com os funcionários do hotel, que insistiam em comunicar-se com ele em português.
“Droga, o inglês deveria ser obrigatório no resto do mundo”, resmungou para a camareira de sorriso humilde.
No dia em que a chuva parou, Paul McIntire resolveu sair à caça de mulheres pelo calçadão de Copacabana. Agora, sim, finalmente, chegara a sua vez!
Cinco horas depois e já um pouco desapontado por não querer sucumbir aos encantos de uma garota de programa com um suspeitíssimo pomo-de-adão, resolveu voltar ao hotel.
Eram quase 3 da manhã, quando sentiu o cano frio do revólver encostado em sua nuca.
Mesmo sem falar o português, entendeu direitinho o que os assaltantes queriam.
E foi assim, trajando apenas uma prosaica cueca branca, que Paul McIntire chegou à delegacia do bairro para reportar o crime ao cabo de plantão, mas este também não conseguia captar os detalhes de seu infortúnio.
Uma vez mais, a bendita barreira da língua.
Passou os dias seguintes no quarto do hotel, convalescendo daquilo que pensava ser uma feijoada mal digerida.
Não dava mais.
Uma semana após a sua chegada, desiludido e sem bronzeado (continuou chovendo no Rio), Paul Mc Intire voltou aos States.
Três dias em casa, e ele ainda estava febril, com o corpo dolorido. Acabou no leito de um hospital.
O diagnóstico médico causou surpresa entre seus pares, enterrando de vez o fascínio tupiniquim sobre Paul McIntire:
Ele havia sido picado por um mosquito inofensivo, de nome esquisito, um certo Aedes Aegypti.

***

A Música Que Toca Sem Parar:
João Bosco, em seu disco gravado ao vivo para a MTV, recita "E Então, Que Quereis?"(Maiakoviski) e emenda com Corsário, parceria dele com Aldir Blanc.

18 comments:

Lara Amaral said...

Pobre Paul. Perdeu-se nas "abundantes" belezas naturais dos trópicos e caiu feio no conto, ou melhor, na crônica, que diga-se de passagem, ficou ótima, Robert...inho, hehe.

Beijo, seu comédia!

Ps.: E aí, preparou um rango apetitoso?

Primeira Pessoa said...

assim eu não trabal;ho... fui la em cima... coloquei fogo nas brasas da churrasqueira... coloquei a batata doce pra cozinhar... retirei as costeletas que estavam marinando desde ontem... pra que fiquem na temperatura ambiente na hora de grelhar...

retirei os brocólis e a vagem da geladeira... vou ter que aparar as pontas... cozinhá-las na água quente e, depois, salteálas no azeite alho, quentaço, numa frigideira...

o cuba-libre tá aqui, na minha mão... tremendo, chacoalhando pro gelo se espalhar... como se eu sofresse do mal de parkinson...

rs

Jorge Pimenta said...

Mesmo assim, não perco a vontade de conhecer o Brasil e o Rio, em particular :-).

Abraço luso, cronistão!

Jorge Pimenta said...

A propósito, lancei-te um desafio (que me havia sido lançado a mim) no viagens de luz e sombra. Passa lá e, caso tenhas vagar e apetite, replica.

Um abraço!

Primeira Pessoa said...

Jorge,
o Brasil são tantos...
quando for ao Brasil, arranje um tempinho para ir a Ouro Preto, Minas Gerais.

Mas o litoral do Brasil é lindo, sim.
Você vai se sentir em casa.

Primeira Pessoa said...

Poeta de Braga,
vou ao seu blog aceitar o desafio...


ah, tô tentando arranjar uma maneira de ir ao rock in rio lisboa assistir a reunião dos trovante... preciso contar minhas patacas, pra ver se dou conta... tenho uma viagem em maio...

como farei isto?
ainda não sei.
mas vou me virar ao avesso pra isso acontecer.

Jorge Pimenta said...

Ena, Portugal, um país tão pequenino e tão festivaleiro :-). Temos dezenas de festivais, alguns dos quais com impacto internacional, como deves saber. É o caso do Rock in Rio que, como sabes, tem a mãozinha brasileira. Pois, imagino o encanto de reencontrar Trovante... Não me tentes, pois (hehehe).
Um abraço!

A propósito, Roberto, estranho que a Ana Salomé não te tenha respondido... é alguém extremamente simples e com um coração tão imenso quanto a sua Poesia. A nossa amizade tem já quase 10 anos e tive o privilégio de apresentar os seus dois primeiros livros de poesia, tendo ela prefaciado e apresentado o meu.
Não estou com ela há algum tempo, mas prometo fazer uma reclamação, hehe!
Um abraço!

Primeira Pessoa said...

Jorge, quem sabe não nos vemos no Rock In Rio-Lisboa.
Tomei algumas iniciativas por aqui e saberei, nos próximos dias, se vou, ou não.
Eu quero ir. Quero muito ir. Sou completamente apaixonado pelos Trovante, que ocupam um lugar muito especial na minha vida.

Preciso só me desvencilhar de um compromisso pessoal aqui nos EUA. Te deixo sabedor.

Com relação a Ana Salomé... você a conhece bem. Devo tê-la apanhado num dia ruim (rs).

abração do seu amigo,

Roberto.

Fernando Campanella said...

Nossa, todos os males do Brasil caíram sobre o infeliz, rs....apesar de tudo, o Rio de Janeiro continua lindo, isto é, nos postais, na floresta da Tijuca, do alto do Redentor.

Muito boa a crônica, vc tem o dom de nos 'prender' e surpreender. Grande abraço.

Primeira Pessoa said...

tadim mdo cabra, fernando...
ainda bem que é ficção... tivesse eu um espaço maior, teria arrumado mais umas mazelas pra ele...
algo do tipo, cair de pára-quedas num show de tati quebra-barraco... algo assim...rs

bom mesmo é te ter por aqui.
abração, poeta!

R.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Bem que essa crônica poderia se chamar "Um turista aprendiz no Rio". O meu xará americano ficcional teria muito que aprender para não passar esses perrengues na Cidade Maravilhosa. Abração Roberto e excelente semana.

Primeira Pessoa said...

Ainda bem que é fictício o seu xará...rs
já imaginou o azar do sujeito?

Paulo Poeta, sempre um luxo, a sua presença por aqui.
abração,
R.

Assis Freitas said...

Férias frustradas, orra eu já passei por cada. Hoje sou mais precavido que jegue empacado. E se me dizem que é ali, volto na hora. Uma vez caminhamos mais de tres horas e o lugar era sempre ali, pertinho. Abraço.

Triste Flor said...

Encantada... parabéns pelo blog, essência que brota em palavras... , bjus

Primeira Pessoa said...

Esse é o "ali de mineiro".... (outros dizem que é o "ali de baiano".... quando me dizem que é é "ali", sei que é "lá"...

mico paguei em detroit, na copa do mundo disputada aqui. o brasil empatou coma suécia e tive que tividir um quarto de hotel com 4 pessoas absolutamente desconhecidas.

foi uma meleca, Assis.
to reclamando até hoje.

Primeira Pessoa said...

El,
nenhuma flor tem o direito de ser triste.
Alegre-se, que nos alegrará.


Obrigadíssimo pela visita ao blog.
Abração do
Roberto.

Lou Vilela said...

Delícia de texto! ;)

Beijos

Primeira Pessoa said...

obrigado, Lou!
Bom revê-la nesse minifúndio de quimeras.

viva!