Friday, March 5, 2010

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A Febre Que Só Eu Sinto

Erasmo Carlos escreveu brilhantemente num de seus grandes sucessos que é uma mentira absurda, a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil. Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Aterei-me ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo sequer imaginar. Entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de segunda-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moleton e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existe.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredon de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira, fumegando na xícara.
Escrevo essas mal-traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.

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14 comments:

Lara Amaral said...

Apesar da febre, da saudade da mãe e do colo que cura, sua crônica é linda, emocionante.

Acho que já li uma parecida sua, ou era esta mesmo?

De qualquer forma, palavras lindas.

Beijos.

Primeira Pessoa said...

é a mesma, larinha... estou respostando algumas crônicas do início do blog, para que frequentadores mais recentes possam lê-las (eu sei... dá uma preguicinha de esmiuçar o blog desde os primórdios...).
e, prometo, já-já começo a postar material inédito por aqui.

abração do
roberto.

Jorge Pimenta said...

Em boa hora repuseste as palavras, Roberto. Não tinha lido, ainda, esta crónica, pois ó feliz acaso trouxe-me até aqui há pouco tempo. Escrita de aço com tinta de açucena, sem dúvida!

Um abraço!

Mai said...

Teu texto me desmontou.Não sei se inspirada por tua crônica ou solidária a ti, digo-te que quando sinto saudades da minha mãe, eu gripo e quando estou gripada , é dela que lembro. Gripar é um álibi perfeito!
E não tem bom quando a saudade bate ou prá uma gripe dessas - Gripe é um parto nasal e tudo dói. Saudade de mãe lancina.
Teu texto tocou-me no átrio.

abraços, saúde!
bom final de semana

Dois Rios said...

Oi, menino!

Caramba! Teu texto me deu uma puta saudade de mim. Sim, saudade dos tempos em que eu era cuidada, olhada e amada incondicionalmente pela minha mãe.
Também ando no estaleiro. Não por gripe, que essa já fez o seu devido estrago no mês passado, mas por desânimo. Aliás, um baita desânimo!
Te escrevi. Não sei se recebeste ou se não quiseste responder, rsrs..
Saudades de ti também.
Muitos beijos,
Inês

Gil. said...

Em tempos assim, é bom senir saudades...
A saudade é boa... mas a febre, nem tanto...
Que teu ser se renove com a chegada da primavera...Momento propício para cuidar do jardim interior!!

Encantador! Li mais de uma vez!

Abraços!

:)

Primeira Pessoa said...

jorge, amigo lusitano, vinho de boa pipa...
suas palavras me alegram... realçadas com uma imagem poética de rara beleza: escrita de aço com tinta de açucena...
eu, que nasci num vilarejo chamado pedra corrida, município de açucena, no mais português de todos os estados brasileiros.

sua presença me acende um sorriso.
e o farol da amizade acende a minha noite.

abraço afetuoso do

roberto.

Primeira Pessoa said...

mai,
sei bem do que cê tá falando...
minha mãe vive em minas... vive em mim...

e não tem nada de edipiano nessa saudade que sinto dela. todos os dias.
receba meu abraço.
R.

Primeira Pessoa said...

anime-se, Inês...
como sua mãe gostaria de te ver... seja-se assim, esse pedaço de sol... essa noite de lua.

gripe?
vitamina c e cama.
receita antiguinha mas que funciona bem demais.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

gil,
acho que todas as saudades são todas boas, porque a saudade é reflexo tardio de algo bom que passou por nós (dentro de nós).

ninguém tem saudade da dor, por exemplo.

concorda?

abração do
roberto.

Mai said...

Nem tal coisa pensei.
É que choro de saudades e quan do sou flagrada respondo imediatamente que estou gripada, foi isto. Ao mesmo tempo quando estou - de fato - gripada, eu quero a minha mãe por perto. A minha mora em Recife e eu no Rio.

abraços, Roberto

Primeira Pessoa said...

rs...
a velha e boa desculpa do "tô gripada"...
homem também gripa, viu?

escrevi uma cronica pras mães... tá um pouquinho mais pra trás no blog... se tiver um tempinho, dê uma "zoiada"...
abração do
R.

Juliana said...

Érre,

Sempre tive um encanto especial pela Fênix. Esse pássaro que se consome mas ressurge dos próprios destroços, de suas dores e lágrimas com cores vibrantes e energia renovada.
Mas tinha alguma coisa ali que não se encaixava... e hoje, pensando sobre sua crônica, acho que entendi.
É essa auto suficiência. Essa solidão.
Falta à Fênix um tiquinho de colo, de mão estendida. Um pedaço de ombro pra recostar, alguém que lhe limpe o suor da testa, e que perca noites de sono ao seu lado. Alguém que lhe diga que apesar das cinzas "o sol há de brilhar mais uma vez"..., mesmo em vista da insanidade que seria acreditar em dias melhores.
A Fênix que me perdoe, mas a gente tem essa vantagem...
Nosso ressurgir das cinzas é feito a quatro, seis, oito mãos.
E aí incluo os que não podem estar ao nosso lado, mas que já estiveram e deixaram suas marcas. A saudade tem disso. Além de ser a marca de uma alegria que já houve traz em si a força de uma possibilidade futura.
E isso é o suficiente pra fazer crescer em nós o desejo de renascer.
Nosso ressurgir faz vibrar lembranças, boas energias. Traz pra perto pessoas queridas, nos faz criança e carentes de chamego...
Taí nossa diferença pra Fênix.
Nossas cores vibram antes do renascimento.

Falando em cinza... hoje o dia tá assim por aqui.
São Paulo diluvia pra variar um pouco.
Tô com uma saudade danada do mato.

Bjs
Diubs

Primeira Pessoa said...

diubs,
acho que renasço sempre depois dessas febres. quando menino, tinha um problema de amigdalas que me derrubava completamente, eu chegava a ter alucinações (e me lembro delas em cada detalhe... louco, né?), tão alta era a febre.
aí, arrancaram as duas pelotinhas (rs) e eu nunca mais tive a tal da febre altíssima.

às vezes sinto falta dela, sabia?

falei com renato tresantontem. notei-o triste.
senti falta de dar um abraço nele.

meu ano ta estranho, diubs...
muito estranho...

beijão de saudade do seu irmãozão...
érre.