Saturday, March 27, 2010

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Cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania.
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.

Pela noite
concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria Abençoada sejas!
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra tu
o seu novo sentido: significa rei.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.

Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.


Arsenynij Tarkovskij
Poeta e tradutor russo
(Elisavetgrad, 25 Junho 1907 – Mosca, 27 Maio 1989)

***

A Música Que Toca Sem Parar:
Antonio Vlleroy, Sinal dos Tempos, dele e de Bebeto Alves

18 comments:

Jorge Pimenta said...

A ilusão da felicidade... sempre tão efémera quanto messiânica... Apesar de todas as navalhas apontadas aos dorsos flectidos dos que crêem, haja o olhar sobre as ondas, neo-Jasões de velos de ouro. Sempre!

Um abraço, Amigo Roberto!

líria porto said...

um dos meus desejos é fazer poemas longos, dizer com propriedade sobre os sentimentos, os acontecimentos - essa minha alma de raio tinha que ser apressadinha???
besos

(eu vejo a lua que tu vês? - tenho um "poema para rina" que bem servia para ti também)

*

Magnolia said...

Um poema até as lagrimas, Roberto...
Beijo

Primeira Pessoa said...

então,
que chore o poema, magnólia...
que sangre e chore...
o poema...

Primeira Pessoa said...

lírica,
desde quando "tamanho é documento"? rs

ja ouviu falar de grandes perfumes em pequenos frascos?

prestenção no serviço... e continue fazendo o que c6e faz tão bem.

beijos,
R.

ps: a lua ontem tava linda... de cristal, juro! era quase 8 da noite e ainda não tinha escurecido por aqui... dia com lua... aquela restinga de dia...
de se pregar na parede...

Primeira Pessoa said...

jorge, nosso poeta nortenho...

o poema é bonito, né?
e a imagem do destino perseguindo, com uma navalha na mão, tem muito de morte e foice...

são fatalidades, amigo...
e, muito de fragilidade, da nossa parte.
somos presas fáceis.

abração,

R.

lírica said...

Caramba Roberto
Este poema é belo!
bj

Primeira Pessoa said...

belo, belíssimo, lírica.
bom te ver por aqui.
Abs,
R.

Sylvia Araujo said...

Incrível, derramante... Sintonia fina - a sua e a minha - a de soprar um amor desse tão inteiro no mesmo dia. Que bom que as nossas almas clamam por ele, esse impávido colosso - o amor! O que seria da vida sem ele?

Meubeijopravocê

Fernando Campanella said...

Beleza de poema. Imagens profundas de um poeta com o coração em êxtase.O verso final é surpreendente:

'...Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.'

Nunca vi um definição tão acurada do tempo. Um louco com uma navalha na mão....eis o absurdo da vida, queremos a eternidade do estado feliz mas paira sempre o tempo sobre nós.

Grande abraço, meu irmão.

Eliana Mora [El] said...

agradeço
até porque não o lera

o 'sentimento' do poema rasgado, em suas palavras
[dele]
que beleza!

beijo.

Primeira Pessoa said...

é verdade, sylvia,
o que seria da vida sem o amor, nas suas mais variadas formas de manifestação.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

o tempo e o destino serão a mesma coisa, fernando?

escrevi numa cronica, aqui mesmo, que às vezes acho que o tempo é Deus.


ou, então, proprietário de tempo e destino.

abraço, poeta.
R.

Primeira Pessoa said...

Eliana,
apesar de consagrado e muito apreciado no mundo inteiro, Arsenynij Tarkovskij era novidade pra mim.

agora que o descobri, quero mais e mais.

abração do
roberto.

LauraAlberto said...

Roberto:
fiquei apaixondada por este texto, que foi novidade para mim!
Boa semana!
Beijinhos

Primeira Pessoa said...

Laura,
trata-se de um texto cheio de imagens fortes, né?
Gosta dessa poesia visual que alguns poetas fazem tão bem.
É o caso da imagem falando em poucas, tanto quanto, mil palavras.
Abração do
Roberto.

Tainah Negreiros said...

Arseni além de nos dar lindos poemas, trouze ao mundo dos artistas mais encantadores de todos os tempos. O jeito que Andrei filma usando as imagens de Arseni é coisa linda.

um abraço!

Primeira Pessoa said...

é verdade, Tainah...
do filho do poeta gosto especialmente de The Killers, que vi outro dia no canal sundance e Solaris, muito lindo.
bom te ter por aqui.
volte sempre que apetecer.
a casa é sua.

abração do
roberto.