Wednesday, March 17, 2010

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Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

*

Sem outra palavra para mantimento
Sem outra força onde gerar a voz
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede
Que cavaste no meu canto, amo-te
Sou cítara para tocar as tuas mãos.
Podes dizer-me de um fôlego
Frase em silêncio
Homem que visitas
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo
O lume em toda a casa e na paisagem
Fora da casa
Pedra do edifício aonde encontro
A porta para entrar
Candelabro que me vens cegando.
Sol
Que quando és nocturno ando
Com a noite em minhas mãos para ter luz.

*

Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

*

Daniel Faria nasceu no dia 10 de Abril de 1971 em Baltar, Paredes, Portugal.
Quando faleceu, no dia 9 de Junho de 1999, era noviço no mosteiro de Singeverga.



A Música Que Toca Sem Parar:
Beto Guedes e Caetano Veloso, cantando ao vivo no Rio de Janeiro, Luz e Mistério, de autoria dos dois.

17 comments:

Tais Luso said...

‘Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.’

Lindo este fragmento, mostra amor e carência. Uma das coisas boas desta imensa rede de blogs é que ao lermos cada vez mais os poetas, vamos treinando nossa sensibilidade, amolecendo nosso coração. Dá pra ver, nestes momentos a vida com menos crueldade. É um descanso. Tudo escrito por poetas é doce e não agride, embora eles mostrem, também, as brutalidades.

bjs
tais luso

Cosmunicando said...

não conhecia o poema nem o poeta.
maravilhoso.

Jorge Pimenta said...

"Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede
Que cavaste no meu canto, amo-te"
Conheci Daniel Faria num daqueles acasos em que folheava, na Fnac, livros. Detive-me por instantes e, quando dei por mim, o tempo tinha-se ido embora sem avisar. Jamais o esqueci. Estes dois versos são como que a síntese vital. Tenho-os anotados num caderninho.

Obrigado por os teres trazido para fora da memória.

Um abraço, Roberto!

LauraAlberto said...

Confesso a minha ignorância, nunca tinha lido nada do Daniel Faria. Gostei bastante do que li. Uma vez mais, obrigada Roberto.
Beijos

Juliana Vinagre said...

Gostei muito Èrre...
Passagem breve mas muito bonita do Daniel pela vida...
A palavra escrita tem disso - fica gravada na história pra sempre, rastro de quem passou por aqui, testemunha eterna.
Saudadocê panguá.
Beijo
Diubs

Primeira Pessoa said...

diubs,
eu ja tava sentindo sua falta por aqui, pangaroa.
tenho descoberto tantos poetas fantásticos, diubs... tomara que uma hora dessas respingue um cadiquim de inspiração em mim.

beijão,
R.

Primeira Pessoa said...

laura,
o que ignora é aquele que sabe, mas não presta atenção... que ignora... ou finge que não vê.

quem tá sempre de portas abertas pra novas coisas, não pode se considerar um ignorante...rs

agora que você já foi "apresentada" ao Daniel, que sejam "amigos"...

abração do
R.

Primeira Pessoa said...

Jorge,
esses autores que a gente descobre assim, meio que por acaso, são, geralmente, os que causam os maiores impactos.

abração, amigo.

Primeira Pessoa said...

moça cosmunicante,
daniel faria tem um trabalho lindo. e tem muita coisa dele espalhada pela blogosfera.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

taís,
daniel faria era de uma profundidade ímpar e sabe, como poucos, traçar esses paralelos, esmiuçar os sentimentos da alma humana.

que bom que curtiu!

Assis Freitas said...

Junção de poesia, a canção de Daniel e o canto de Beto e Caetano. Focos celestes/luz e mistério. Fica o abraço.

Primeira Pessoa said...

assis,
quando voce gosta... pra mim ja valeu a pena...
abraços,
R.

Magnolia said...

Outro poeta que eu gosto tanto... Bj

Primeira Pessoa said...

você conhece do ramo, magnólia....

líria porto said...

uma beleza estes versos!!

(estou em araxá, a terra de beja - minha neta é um foguete!)

besos

Primeira Pessoa said...

dona beja me ligava todo dia (rs)... mas o imperador era ciumento demais...

líria, come umas compotas por mim...
saudades d'ocê.

bjs,
R.

Eliana Mora [El] said...

Um poema dele que não lera. Lindo, deveras lindo.
Comovente.

obrigada por isso.
beijo.