Tuesday, March 23, 2010















Isabella Sonhava

Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão?
Gostaria de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia?
Qual seria a sua fábula infantil favorita?
Será que seu cabelo ficava bonito amarrado por laço de fita?
Usava trancinhas? Tererês?
Será que ela gostava de sorvete de morango?
Será que comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de inocência e nuvens, será que ela conversava com animais de estimação?
Falaria com anjos?
Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? O amiguinho imaginário? Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o seu primeiro dentinho?
Quando caiu o primeiro?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? Gostaria de ter um?
Amaria passear pelo zoológico?
Gostaria de livros, de desenhar? Gostaria de flores?
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava Isabella Nardoni?
Os irmãos? Bichinhos? Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? Já teria pintado suas unhas?
Será que algum dia mergulhou no oceano? Teria gostado do carinho das águas deslizando pelo corpo?
Gostaria de mar e brisa, de vento e verão?
Seria fogo ou água, essa menina tão linda?
Qual seria o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne no rosto? Sardas quando exposta ao sol?
O que estaria escondido nas cartas da cartomante, ou nas linhas desenhadas na palminha de sua mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez? Estaria, em seu futuro, reservado um grande amor?
Que profissão teria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? Trabalharia num banco? Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? Seria dona de casa?
Se casaria? Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voou.
Foi atirada do 6º andar do edifício em que vivia com o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voou. Virou anjo.
Como aqueles com os quais conversava nas noites em que sonhava.
Sim, Isabella sonhava.

.

A Música Que Toca Sem Parar:
ancorando um coral de crianças, Milton Nascimento... Benke

19 comments:

continuando assim... said...

Convite

O livro "Continuando assim...", foi maltratado...

Resolvi por isso, e porque tanta gente não encontra o livro onde deveria estar (nas livrarias), recontar a história
Lá no …. Continuando assim…
www.continuandoassim.blogspot.com

Vamos em metade da história, o livro reescrito, não está igual (nem poderia!) ao que foi editado.
Obrigada a todos os que vão seguindo (pois só assim vale a pena).
Um obrigada especial a quem ainda não conhece e chega de novo

Uma reflexão em relação a todo este assunto entre livros, autores e editoras, e um conselho, se é que me é permitido:

--- quando vos pedirem dinheiro para editar as vossas palavras, simplesmente digam que não ---
BJ
Teresa

Primeira Pessoa said...

Teresa,
pra que dar dinheiro a editores velhacos (são verdadeiros cafetões da palavra), quando temos isso aqui, gratuitamente: um "único" livro que gira de "mão em mão" pelo mundo todo, e não pára de girar?

Se quiserem imprimir suas palavras (sentimentos e idéias), que dividam com você o que for "rateado". (essa palavra calhou bem)

Perdoe-me a franqueza (e a "chuleza"):
Pagar pra publicar?

Nem fodendo!

Abração do
Roberto.

Jorge Pimenta said...

Dom Roberto!
Tenho andado meio atarefado, com este final de período - são as avaliações na escola e um jornal escolar que dirijo e que finalmente saiu (sabes que a Laura, quando esteve na minha escola, fez parte da equipa, também? Ainda hoje escreve lá). Só agora tive algum tempo para espreitar, com os olhos que os textos merecem, os blogues dos amigos. Agradeço-te as réplicas ao desafio.
Cheiro a maconha? ahahah! Admito já aqui a minha ignorância; tive de ir ao dicionário verificar o sentido da palavra (que julgo não termos em português de Portugal). Dizer-te, ainda, Roberto, que o teu cosmopolitismo se espelha na tuas respostas, sempre música para os meus ouvidos.
Dos cheiros que anuncias, sublinho um: o do golo! (e este ano, então, com o meu Benfica em grande, hehehe. Como vocês por aí dizem: belezaaaaaaaa!).
Um abraço!

Jorge Pimenta said...

A quantas Isabellas é arrancando o sonho, com e sem voo, com varanda e sem ela, mas invariavelmente com o que de pior o coração humano pode gerar...

Um abraço!

LauraAlberto said...

Roberto:
Já tinha lido esta crónica aqui, mas ainda hoje arranca de mim as lágrimas e a revolta!
Beijo
Laura

Primeira Pessoa said...

Jorge,
primeiro quem paga o pão. Depois, com quem se bebe o vinho. Algo assim. Sei do desfio da multiplicação do tempo. Nem sempre conseguimos.
Você não sabia o que é maconha? Nem eu (rs).
É aquilo que aí em Portugal chamam charro.
Aquilo que Bill Clinton fumou, mas não tragou...

Pois bem... To longe de ser um cosmopolita. Nasci nas montanhas de Minas, no interior do Brasil, e caí no mundo muito cedo. Algumas coisas, você incorpora por osmose. Outras, por imposição. Outras, você finge que são suas, que fazem parte de você.
Não foi pessoa quem disse que o poeta é um fingidor?
Eu gosto (aliás, acho que gosto... ja nem sei mais) mesmo é da vida pacata das montanhas mineiras.

Eu me diverti com o desafio. Mais na frente fazemos outro e extendemos a outros. Acho que as respostas tem que rodar, sendo postadas no blog de todos os participantes.

você é benfica? aí tem dois jogadores que sairam do meu glorioso cruzeiro: ramires e luizão. os benfiquistas, são os corintianos (ou flamenguistas) de portugal.

aí em portugal eu gostava do vitória de guimarães, porque ele tinha um jogador brasileiro que marcava muitos "golos", o paulinho cascavel.

meados dos anos oitenta, jorge.
fosse uma década antes e voce ainda era anjo.

abração do seu amigo

roberto.

Primeira Pessoa said...

Laura,
esta semana pai e madrasta estão sendo julgados no Brasil, pela morte da menina Isabella Nardoni.
E o país inteiro está acompanhando.

Nenhuma justiça feita a trará de volta.
Disso eu tenho a certeza.

Que o veredito, pelo menos, lhe dê descanso. Aonde ela estiver.

Abração,
Roberto.

Primeira Pessoa said...

Jorge,
tenho uma filha de 8 anos com o mesmo nome: Isabella.
Aliás, tenho 3 filhas. E quando leio sobre um acontecimento assim, não tenho como não pensar nelas, no bem-estar delas.

Minhas filhas eu protejo com a minha vida.
Acho que no amor de pai e de mãe nos igualamos e podemos generalizar esse sentimento único. Não consigo conceber um pai (ou uma mãe) que não seja assim.

Abração do
Roberto.

Em@ said...

1º prendeu-me o perfil, pois temos algumas coisas me comum.
depois prendereram-me algumas crónicas que fui lendo.
Falta dizer que lhe vi o rasto na LauraAlberto e no blog do Jorge Pimenta.
E porque gostei, vou estar atenta.
Em@

Assis Freitas said...

O que sonham os anjos? Eu não sei, eu nunca sei sobre essas coisas. Mas, mudando o rumo da prosa, também gosto do cheiro da marijuana, sou capaz de pressentí-lo a quilômetros. e que fique claro, eu também nunca traguei. Ou como disse o velho Tim: eu não bebo, não fumo, não curto droga, só tenho um defeito: contar umas mentirinhas. abraço.

Sylvia Araujo said...

Linda homenagem, Roberto. Às vezes fico inconsolável com a capacidade do ser humano de destruir tudo em que toca. Até o que pra mim seria indestrutível, como Isabella e tantos outros anjos.

Um beijo no teu coração

J. said...

Não sei se estou sensível demais, mas me peguei chorando, agora, enquanto lia seu texto. Vou confessar uma coisa: eu não assisto a jornais. Também não os leio. Porque em todas as vezes que tentei, fiquei deprimida e triste demais, chorei muito. Porque eu não consigo entender como podem existir pessoas que cometem atrocidades como essas. Ninguém nunca vai saber o que realmente aconteceu, a não ser quem estava lá. E a menina nunca vai poder experimentar dessa vida, essa mesma da qual a gente costuma reclamar tanto. Triste. Um triste fim para alguém que não escolheu nascer e que não tinha culpa nenhuma de nada. Crianças são as criaturas mais puras, sinceras e encantadoras que podem existir. Nada é culpa delas, até que elas tenham discernimento para entender, escolher e decidir.

Entristece-me também ver o quanto as pessoas julgam os parentes da menina. Outro dia li alguém criticando a mãe por ter posado para uma foto ao lado do túmulo da filha (a Ana Carolina e a Isabella). Quem sabe como as pessoas lidam com as próprias dores? E a dor de perder um filho deve ser absolutamente devastadora. Fere a ordem natural. Eu leio um blog chamado "Para Francisco", em que a Cristiana, que perdeu o pai do filho quando estava grávida de sete meses, escreve para o bebê, falando sobre o pai que ele não conheceu. Nunca vi ninguém a acusando de querer atrair pra si qualquer tipo de atenção. Fazem isso com a mãe da Isabella. As pessoas são incapazes de entender e respeitar essa dor sem tamanho.

E acho justo que seja muito veiculado, que as pessoas protestem, que a mãe solte o verbo e fale mesmo sobre a filha, sobre o crime e sobre a dor da perda. Porque as pessoas precisam entender que todos somos diferentes e encaramos a vida de formas diferentes. E isso não faz de um modo certo ou errado. São apenas diferentes. Precisamos aprender a respeitar isso.

Desculpe o (enorme) desabafo.

Um beijo.

Juliana.

Primeira Pessoa said...

Sylvia,
tava lendo no banheiro, há pouco, um livro de ferreira gullar. abri numa página qualquer e me saltou esse verso (frase):
"A VIDA MUDA COMO A COR DOS FRUTOS
LENTAMENTE
E PARA SEMPRE"

compartilho com você (e demais leitores do blog) essa constatação: mudamos. muitos de nós, na maioria das vezes, para pior.

abração.
R.

Primeira Pessoa said...

Juliana,
muito comovente o seu desabafo.
Não quero cair na armadilha de tentar achar, aqui, culpas e culpados. Não cabe a mim fazer isto. Mas vou te falar de um acontecimento na minha família, que define (acredito) minha maneira de ver e sentir essa relação de amor entre pai-mãe-filhos:

veja bem:
minha mãe teve cinco filhos.
minha irmã mais velha, um irmão acima. uma irmã abaixo. e outro irmão fechando a fatura. ou seja: sou o do meio.

meu irmão que nasceu antes de mim morreu quando eu tinha 1 ano e ele, 3.
quando eu tinha 4 anos de idade mamãe perdeu a filha recém nascida.

o caçula viria a nascer quando eu tinha 6 anos de idade.

tenho 47 anos de idade e me acostumei, desde menino, flagrar minha mãe chorando pelos cantos da casa. um choro miúdo, mas muito sentido.

quando eu tive idade para atender e, diante de minha insistência em saber seus motivos do pranto (aparentemente motivado por nada), ela me explicou:

ela chorava os filhos que se foram. e ela ainda chora, até hoje, com 70 anos de idade.

olha, escrevi esta crônica um dia após o episódio envolvendo a menina isabella. publiquei-a no jornal para o qual trabalho.

e repostei esta semana, com o início do julgamento em são paulo.

culpas? culpados?

nada trará a menina isabella de volta.
nada,
absolutamente, nada...

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

assis,
os anjos, se eles existem, eles sonham, sim.

cheiro de maconha? (que na juventude a moçada chamava de maresia) é agradável ao olfato...

só acho que, quem fumou, deve tragar. e pode até mentir um cadinho, como o tim maia... rs

a última vez que senti o aroma em questão, a terra era plana e o galícia, uma força do futebol baiano.

abração, poeta.

abraçao...

Primeira Pessoa said...

ema,
agora que descobriu o caminho, venha sempre.
tem uma turma bacana marcando encontro aqui. e depois a gente sai se visitando uns aos outros.

repartimos palavras, como quem reparte um pedaço de pão.

abração do

roberto.

Wilson Torres Nanini said...

Roberto,

realmente pouco sabíamos dessa menininha linda. Mas todos sentimo-nos um pouco seu pai, seu tio, seu avô. Tornamo-nos irmãos de sua mãe, que certamente tem um despenhadeiro transitando por dentro dela.

Você que lida com a imprensa deve saber melhor que todos como isso é impactante na vida dos justos, de cujo grupo espero fazer parte.

Por mais imparcial que seja, não posso me furtar ao sentimento bélico que me nasce toda vez que, vendo fotografias com seu sorriso, saiba que seu brilho não está mais sobre este mundo.

Por isso, meu caro amigo, que gosto de minha profissão: em muitas oportunidades participamos da justiça sendo feita.

Abraços!

Primeira Pessoa said...

ah, wilson, nossa prosa hoje duraria horas.
sou filho de um soldado da pm mineira, ja te contei, né?

e um amigo de infância, de alma de poeta, que acaba de sair da ativa pra cavalgar em direção ao por do sol, confidenciou-me, que finalmente irá fazer o que quer de sua vida: matriculou-se numa aula de violão, vê um filme por dia, lê um livro por semana e até reaprendeu a namorar (é divorciado).

queria eu uma polícia cheia de poetas. falo isso me chega à memória a revolução dos cravos, em Portugal... cravos foram colocados no bico das espingardas... e o povo marchou às ruas destituindo um ditador.

que a terra seja leve a Isabella...

hoje, só me resta abraçar você.
abração, nanini.

Eliana Mora [El] said...

me pegaste e aqui fiquei;
as questões, tã bonitas

sim...decerto seria feliz [assim sonhemos]


beijo,
El