Thursday, July 8, 2010

3 Poemas de David Mourão Ferreira























Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.


David Mourão Ferreira
À Guitarra e à Viola
(1954-1960)


Apenas uma boca. A tua boca


Apenas uma boca. A tua boca
Apenas outra, a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca


Ternura


Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!


A Música Que Toca Sem Parar:
Mark Knopfler e seu Notting Hillbillies, Your Own Sweet Way.

21 comments:

Tania regina Contreiras said...

Maravilhosos os poemas, e como gostei de tantas bocas no poema!
Abraços,
Roberto

J. said...

Ó eu aqui traveiz... rs

Os poemas me fizeram, por algum motivo, talvez a temática, lembrar dos textos do Arnaldo Antunes, do livro novo, "NDA", já leu? É bme legal, vale a pena.


Saudades daqui, viu?
Ah! E adoro receber seus e-mails musicais! Alegram meus dias.

Beijinhos.

Mirze Souza said...

Belíssimos poemas!

Que bela escolha, Roberto!

Vou guardar este nome.

Beijos

Mirze

Jorge Pimenta said...

oh, mourão-ferreira... irresistível! deixo-te aqui um pequeno poema do seu "música de cama" que me eriça a pele sempre que o leio/escuto:
"depois de tudo ser tudo
quando a pele é mais que pele

toda velada e veludo
só me pedes que te vele."

um abraço, poeta amigo!

nina rizzi said...

ai zizuis, que coisa, menino. esses portugueses me dilaceram. e a música, ah...

beijos.

Primeira Pessoa said...

esses caras não são moleza, nina. o autor também assinava (se n~~ao me engano) como David mMestre... é isso mesmo, Pessoa fez escola...

e a música é de um gripo paralelo que o mark Knopfler manteve durante um tempo.
gosto muito... é suavezinho... como guaraná.

grande beijo do
roberto.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
o que seria de nós, homens que apreciam poesia, se não fosse esse buraco negro da blogosfera?

fico me perguntando essas coisas, porque até pouco tempo atrás eu não sabia quem era esse e tantos outros autores da nossa língua.

doido, né?

abraços,
r.

Primeira Pessoa said...

mirze,
como disse pra nina, ele também escrevvia assinando david mestre.
e é cada trem bonito...

beijo grande do

r.

Primeira Pessoa said...

juliana,
ainda não fiz um juízo definitivo sobre arnaldo antunes.

na maioria das vezes, acho que ele é mauis (muito) mais atitude do que poesia.
mãs reconheço (muitos) méritos nele.

mas prometo investigar. vai que eu goste?

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

ou, tantos poemas na boca?

bom te ver por aqui, toda roxo-violeta, taninha.

beijão do
r.

contagotas said...

Que bom ter-se lembrado do David Mourão Ferreira. Adoro tanto a sua poesia como a sua prosa. Foi uma figura controversa do nosso meio literário, criando alguma polémica pelos seu casos de "ternura". É que todos adinhavam a pressa com se despiam quando estavam sós: Mexeriquices!

Primeira Pessoa said...

conta-gotas...
tanto faz descascado quanto vestido, quando a palavra aparece nua.

é só isto o que conta.

beijo pra você.

r.

Assis Freitas said...

Porque hoje estamos sem Vinicius há trinta anos. Acho também que este poema será um presente prá ti.

abração

Soneto ao caju

Amo na vida as coisas que têm sumo
E oferecem matéria onde pegar
Amo a noite, amo a música, amo o mar
Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo.

Por isso amo o caju, em que resumo
Esse materialismo elementar
Fruto de cica, fruto de manchar
Sempre mordaz, constantemente a prumo.

Amo vê-lo agarrado ao cajueiro
À beira-mar, a copular com o galho
A castanha brutal como que tesa:

O único fruto – não fruta – brasileiro
Que possui consistência de caralho
E carrega um culhão na natureza.

Hollywood, 28.09.1947

Primeira Pessoa said...

assis,
tentando advinhar o que cê escrevia, antes mesmo de te ler, pensei que cê tivesse escrito um poema pro cazuza...rs

bicho tomei 3 gin tônicas enquanto cozinhava, sozinho em casa, e já me lamentando... a partir de segunda ficarei afastadíssimo da birita, do tabaco e de outras cositas mais...rs

e daí, passei o dia inteiro pensando em vinícius... putz... sei umas estórias engraçadas dele... amigos que o conheceram mandam uma no cravo e outra na ferradura... mas essas, no nosso encontro eu te conto. ( e esse encontro vai rolar, poeta de amaralina)

ah, fico feliz pela dedicatória do poema.
belo soneto.
saboroso. suculento.
caiu bem.

beijão, assis.

r.

líria porto said...

o bonito de todos estes poemas, para mim, é escorrerem como água cristalina - pura simplicidade!
besos betinho.
inté!

ah - te vi lá no tanto mar - gracias!

Primeira Pessoa said...

é incrível a naturalidade (e a transparencia) que ele consegue neste ajuntamento de palavras e sentimentos.

nada ali é forçado.
nada.

ah, sim... no tanto mar, por amar o blog.
hoje e sempre.

beijão
do
r.

Marcantonio said...

Roberto, se você louva a blogosfera, a internet, como caminho para as suas descobertas poéticas, por minha vez louvo o Primeira Pessoa como atalho para as minhas buscas pessoais. As suas recomendações em forma de amostra grátis, me tornam cobiçoso e dissipam a minha preguiça. Rs. Os três poemas são bons, mas o "Apenas uma boca. A tua boca." é bom demais! Todo construído nesse rima sôfrega.

Abração, sempre desejando a você o melhor!

Magnolia said...

É sempre bom voltar a tua casa...especialmente com visitas como o David...
Beijo amigo Roberto

Primeira Pessoa said...

ô,
magnólia... você que sabe tudo de poesia...

você que me alegra com suas visitas.

você que é rara.

receba um abraço meu.

r.

Primeira Pessoa said...

marcantonio,
não fosse a blogosfera não estaríamos espichando esta corrente de bem-querer por aqui, por aí... pelo mundo todo.

e este dar as mãos nos permite o compartilhar de idéias e encantamentos. casa dia incorporamos algo novo.

e é tão bão, né?

abraço você.


r.

OutrosEncantos said...

Roberto!

Você escolheu tão bem!
Eu amo esse poeta desde pequeninha (eu sou pequeninha... rsss)
Gosto da sensualidade da sua poesia!

Lindissimos todos os poemas que escolheu, particularmente o último!

Também o tema musical, lindissimo.
Beijo, Roberto.