Thursday, July 1, 2010

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Carta Aberta a Um amigo Distante


Newark, um dia qualquer do outono de 2007.

Zé de São Raimundo,
hoje tive muita saudade de você.
E tive saudade da gente naquele espaço-tempo, e de tudo aquilo em que acreditávamos.
Saudade da nossa juventude e de você com aquele cabelo djavaneado, besuntado de creme japonês, formigueiro andante pelas ruas de Governador Valadares.
Saudade das minhas camisas floridas - vela aberta ao vento -, fita do Senhor do Bonfim no pulso esquerdo, e a incerteza pulsando naquele coração que flertava com o futuro mais oculto.
Num tempo em que vivíamos na poesia, ingênuos, incautos, verdes, acreditávamos que sobreviveríamos da palavra e que encontraríamos no ritual de esculpir verbos um meio de vida e sobrevida.
Ledo engano, Zé, como tantos outros.
Achávamos que um governo petista resolveria os problemas maiores do nosso país.
Víamos em Lula a figura de um novo Messias e por incontáveis momentos reconhecemos em José Dirceu a sabedoria de um rei Salomão.
Fomos logrados, caro amigo. Feliz ou infelizmente, o tempo é o senhor de todas as verdades.
O PT caiu na vala comum e sei que já não acendemos velas para a estrela solitária.
Perdemos a inocência ao sabor das decepções.
Viver é doce e é amargo, é esta a lição tirada.
E assim vamos somando e subtraindo, botando e tirando coisas do embornal.
Das coisas que me caíram do alforje, sua amizade e presença constante estão entre as que mais fazem falta.
Perdi um referencial, um espelho no qual eu via refletir minha vontade de mudar o mundo. Baixei os braços, Zé.
Quixote sem Sancho, hoje eu toco na banda apenas pelo dever de cidadão. O que é louvável e me deixa honrado da cabeça aos pés. Mas transformei-me num contente.
Mais um.
Sinto falta de nossa amizade. Sinto falta de você em meu cotidiano conflituoso, briguento. Faz me falta o ofício de sonhar. Faz-me falta a luta.
Ao meu modo, venho vencendo a peleja pelo pão e pelo conforto. Tenho consciência disto. E gratidão.
Sempre tive certeza de que conquistaria isto (mesmo nos dias mais chuvosos!) e, apesar de minha preguiça, indisciplina e limitações mais gritantes, o fracasso já não é uma possibilidade, posto que estou no lucro faz muito tempo.
Mas, te confesso, caro amigo, que de vez em quando, adormeço com o céu azul de Minas Gerais nas retinas. E sonho com as muriçocas de São Raimundo, os lambaris da Biquinha, o ardido da pinga de Coroaci, a névoa aos pés da santa anunciando a chuva e a água cor de barro do 'rião' que ainda desliza em direção ao Espírito Santo e ao mar.
Quimera?
Quem me dera, amigo Zé.
Quero te ver em breve, se a vida assim nos permitir. Vá guardando a cachaça, que eu providencio o tira-gosto para a prosa da boa.
Vê se não some mais.
Abraço e amizade perene do
Roberto.


A Música Que Toca Sem Parar:
Caetano Veloso e Nicinha, Alguém Cantando.

26 comments:

Tania regina Contreiras said...

Eta, moço, que você sabe falar ao coração da gente, heim? A carta e a música que até diz quem é você, Roberto:

"A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza..." Eis a sua voz,
Roberto!

Abraços,
Tânia

nina rizzi said...

gosto de textos assim, roberto, verdadeiros como é a verdadeira saudade. e eu tenho saudade de tanto e tudo até o não-vivido...

ontem assisti um filme no cine-ceará; festival ibero-americano de cinema: o último comandante. é bem isso, um sujeito que foi guerrilheiro na nicarágua, pelegou bruto e vive feliz como professor de chachacha, oculto e invisível como nós e nossos sonhos que se vão com a nossa inocência diante das decepções...

um abraço, camarada, irmão.
e meu beijo.

te juro, palavra de verificação: militio.

beijos mais.

Primeira Pessoa said...

taninha,
sou o cara mais fácil de ser sacado. faço cara de cu quando não gosto... sei sorrir, quando gosto...
às vezes impaciente, às vezes paciente...

às vezes fácil, às vezes difícil... se pudesse me definir, diria, EU "às vezes", quase tudo.
mas transparente, sempre.


sou esses dois reais de pessoa que você lê (e vê).

beijos,
r.

Marcantonio said...

Não sei não, Roberto, o que a gente faz com essa vontade de ser o outro que era antes. Eu me pergunto, às vezes mergulhado de saudades até a altura do peito, se há aqueles que vivem a vida como se fossem esses aviões da esquadrilha da fumaça:entre uma pirueta e outra, deixam um rastro aéreo que logo se desfaz no azul do céu e... Sempre em frente! É, talvez fosse bom.
Mas a vida dispõe esse labirinto de doces memórias e puxa um fio de ariadne incapaz de nos guiar a qualquer retorno concreto.
Como julgar essa nostalgia? Ela é indício de alguma coisa? Ela é um sintoma ou só um vapor que embaça a vidraça por onde vemos a paisagem de agora? Sei lá.

Abração!

Primeira Pessoa said...

marquinho,
como me livrar dessa sina de cachorro que anda em círculos, tentando morder o próprio rabo?

ô, na boa? se eu soubesse que minha vida seria esta que tenho, teria cravado coluna do meio na loteca? saiu-me de ótimo tamanho.


quando surgi, precoce pra caráleo, ouvi pessoas dizendo que eu seria isso ou aquilo, tudo sempre muito maior e mais alto do que meus dedos puderam tocar neste quase méio século de respirar, comer e descomer.

aí, a árvore cresceu e ficou deste tamanho, um quase coqueiro-anão...rs... sei que decepcionei uns quantos, mas comigo mesmo, sinto uma brisa de paz.

na boa? ainda mais na boa? posso até lhes pedir desculpas. a eles.... mas sou esse arbusto de raiz bem fortinha... flori flores bonitas, marcantônio... flori! e nem é o cuba libre que fala por mim, apesar da úlcera...rs... e dos quatro myers and coke que detonei, desafiando o doutor Patel (semi-dono de mim).

sou eu mesmo, falando prum cara que poderia ter crescido ao meu lado, maior, mais frondoso, cheio de cores... sim, marcantonio, te olho com olhos de admiração.

ah, sim, tenho pequenos arrependimentos, clarol. não comi a miss brasil. perdi uns três capas da playboy e umas três vizinhas bonitas...rs e não fiz, até hoje, a primeira comunhão.

mas tenho três gurias lindas, cara. que se dependuram no meu pescoço (pelo menos as menores...rs... a amior chegou quase tarde demais) e as tr6es - não sei se pra me agradar - dizem que sou do bem...

sim, são novinhas... 8 e 6... não conheci abraço melhor... e outra de 30.

viverei nelas?
sei lá eu...

ando sorumbático pra caráleo.
e, pelo menos cinco minutos por dia, ainda desafio a vida.

beijão, marcancônio.

r.

ps: paunocudoserra... e desse índio tabajara aí.votasse ainda? cravaria um triplo na marina.
será que me desperdicei no obama?

Paulo Jorge Dumaresq said...

Texto atualíssimo, caro amigo, especialmente no que tange ao PT e seus desvios no poder.
Cara, agora essa música de Caê cantada por Nicinha foi pra lascar meio mundo.
Adoro.
Tá lá no Bicho.
Discaço do gênio da raça.
Roberto, eflúvios positivos para ti.
Abração, irmão das Gerais.

Andrea de Godoy Neto said...

sabe, roberto, penso que começamos a crescer de verdade quando as apostas que fazemos (não os sonhos, que esses às vezes são só sonhos mesmo), as coisas em que acreditamos, as bandeiras que levantamos, caem por terra bem diante do nosso olhar incrédulo. E apesar da decepção, do chão que nos foge, do beco que parece sem saída, temos que seguir em frente.
Talvez o que diferencie a vida adulta (ou pelo menos deveria...rs), seja a capacidade de ainda acreditar em coisas novas, mesmo quando nos sentimos traídos.

não acho que tu sejas um quase coqueiro-anão, parece-me mais uma árvore mais frondosa, frutífera, dessas que crescem em parques ou passeios públicos, e quem quiser, passa por ela e se alimenta.

lindo esse teu texto. melancólico, um tanto dolorido. uma volta a um tempo em que tudo parecia possível e a imortalidade, atributo nato.

parece que a fragilidade te bateu à porta, né, moço? às vezes é importante, faz a gente reembrulhar muitas coisas com o papel certo.

quanto a vida, prefiro sempre tê-la como aliada. gosto de pensar que andamos de mãos dadas, eu e ela, hora por onde eu escolho, hora por onde ela me leva...

vai aí um abraço gigante cheio de boa energia pra ti, porque te gosto.
se cuida...e se puxa!

(e, ptz, escrevi duas vezes esse comentário, na primeira se perdeu...rs)

Luciana Marinho said...

creio que encontrei um irmão de nostalgia :) teu texto me deixou morando mais ainda na fotografia, que já abre o post quebrando o tempo presente.

e aquele papel amassado juntinho da máquina é uma rosa branca.

beijoca, roberto!

líria porto said...

só pra reforçar a saudade:

melancólico
líria porto

enrolava a saudade
umas quatro ou sete voltas
fazia quase um novelo

enrolava-a mais um pouco
cansava do sofrimento
dava outras tantas voltas

e enrolava a saudade
enrolava-a enrolava-a enrolava-a
para atirá-la ao vento

eis que então ficava preso
a saudade se agarrava
às pontas do seu cabelo

*


besossssssssssssssss

Assis Freitas said...

brother, a tua resposta pro Marcoantonio é uma outra cronica, e pejada, invoquei com essa palavra, de sentimentos e reminiscências.

abração

p.s. vai ter laranjada ou o canarinho vai amarelar? to na concentração naquele bar do e-mail, lembra?

ah,ah a palavra de verificação é vingsha, hahahaha,

Primeira Pessoa said...

ô, assis, a laranjada azedou...rs
fazer o que, né?

rapaz, às vezes sinto-me um escravo do menino que fui... do rapaz... e do homem que jamais cheguei a ser.

pink floyd explica.

Primeira Pessoa said...

vixe... ela não se agarra aos meus cabelos...
ela, a saudade, me pega sempre é pelo pé, lírica.

é pelo pé que a saudade me pega... rs

suadade, é que nem bicho de pé, né?
incomoda, dá coceira... mas até que é bão...rs

Primeira Pessoa said...

lu, que bela imagem esta do papel amassado, luciana... juro, não tinah pensado nisto.

desde que li seu post, passei a ficar olhando pra cima, tentando desenhar com nuvens...

eita ofício custoso, esse nosso...rs

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

nina,
não sou de mentir.
omito, às vezes, confesso...
e sei que seria capaz de mentir para salvar a vida...

mas é que ando meio desanimado. e nunca me senti assim. n-u-n-c-a.

a vida cobra um preço caro. e dá em troca, em dobro.
quero melhorar um cadiquim. e sei que tudo vai ficar bom demais.


se preocupa comigo, snão. só não me falte. você e todos os que sei serem meus (e eu de vocês).

já militei, ma sosbrou esse meio-sorriso-blasè...rs

serra e índio?

só se for o aritana.

beijussssssssssssssss

r.

Primeira Pessoa said...

andrea,
é foda essa sensação de que os sapatos ficaram menores que os pés. acredite-me: aprendi que a grama nem sempre é mais verde do outro lado da cerca.

teremos ficado mais pessimistas?
terá se perdido a fantasia e a utopia na nossa luta diária por um pedaço de pão?

como diria guimarães rosa, "viver é muito perigoso"...

tementes, acabamos aprendendo a dançar conforme a música.

aprendemos.
e dançamos.

entendeu? rs

beijão.

Fernando Campanella said...

Roberto, ler tua crônica, ouvindo esta voz maravilhosa de Nicinha, Caetano ao fundo, é para lá de bom... Melhor só a lembrança de um verdadeiro amigo.
Abração.

Primeira Pessoa said...

ah, campanella... os verdadeiros amigos... estes que cabem numa mão (e eu que queria ser um polvo... oito braços... quarenta dedos)...
eu, que queria abraçar todos vocês...

este, hoje e sempre, amigo dos amigos...
r.

Sylvia Araujo said...

Ah, que bonito, Roberto... Trazer no peito uma saudade é não deixar que se perca na estrada boa parte do que fomos, pra assim continuarmos sendo - mesmo na lembrança, né?

Coisa linda, querido.

Uma beijoca

Dois Rios said...

Roberto, não vou me alongar muito porque isso não cabe nas coisas de coração. Ao contrário, vou ser sucinta, objetiva, clara e quase invejosa.

Enfim, queria muito, mas muito mesmo ter sido objeto de toda essa prosa. Ou melhor, pra ser mais sincera ainda, quisera eu fazer parte de toda essa tua saudade.

Beijo,
I.

Zélia Guardiano said...

Roberto amigo
O que mais gosto nos teus escritos é o fato de serem eles feitos da matéria prima chamada coração... Penso assim.
Enorme abraço!

Primeira Pessoa said...

zélia,
você é uma querida.
a matéria prima (tá lá, no teste de dna) de zélia guardiano é uma mistura azul (que é a cor mais azul que existe) de amor, gentileza, carinho e bem-querer.

e mais não direi.

beijo grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

sylvia,
"Trazer no peito uma saudade é não deixar que se perca na estrada boa parte do que fomos, pra assim continuarmos sendo"...

cê escreveu um trem danado de bonito e profundo.
mais que uma constatação, uma lição.

beijo procê,
r.

Primeira Pessoa said...

Inês,
costumo dizer que um cão cheira o outro... e pelo rabo...rs
em qualquer tempo seríamos amigos. em qualquer tempo teríamos (tantas!) convergencias e similaridades.

em qualquer futuro, teríamos saudades até do que não chegamos a ter sido.

beijo,
do
r.

Primeira Pessoa said...

ô, paulo poeta...
só agora vi que não respondi seu post...
fiquei igual aquele personagem do humorístico na tv da minha adolescência (acho que interpretado pelo agildo ribeiro) que ficava repetindo o bordão, após perder as melhores oportunidades do mundo.. ah é, é?

rs...

beijão, poeta da praia de pipa.

r.

d'Angelo said...

Roberto, a inveja é um sentimento feio, mas não tem como escapar dela diante de "Faz me falta o ofício de sonhar". Abraços.

Primeira Pessoa said...

d'angelo,
não é inveja. é carinho. bem sei...

abração do
roberto.