Sunday, July 25, 2010

3 Poemas de Vasco Gato

.























haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

**

dedos e dedos


voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem


quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

***

imensamente nos deitamos um no outro

e não mais nascemos para a mão escura

que tapa o sol e afoga a lua

estamos como se tudo estivesse connosco

e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram

flor rio azul estrela terra

*


A Música Que Toca Sem Parar:
Secret Garden, Elan.

25 comments:

Andrea de Godoy Neto said...

ah, roberto!
E há o que dizer diante desses versos? Uma lindeza só


nem me fale do jogo, pior do que empatar com o cruzeiro é empatar num dia em que o inter ganhou (por mísero 1x0)...haja paciência pra aturar os colorados..rs

e meu cabelo está 'quase' liso de tanta chuva por aqui

beijo enorme pra ti

Marcantonio said...

Esse Vasco Gato terá mais de sete vidas poéticas. Impossível dizer qual o melhor dos poemas. E a sua sensibilidade para essas escolhas é mais uma vez confirmada.

Eu não comentei nas duas postagens anteriores, mas li, hein!

Abração!

Primeira Pessoa said...

andrea,
pior que empatar com o gremio em casa é constatar que meu time tá sem time pra disputar o título (rs)...

em new jersey é verão. tento aproveitar . aqui aprendi a respeitar e a apreciar as quatro estações do ano. o brasil é um país de tantos verões, né?

beijo grande do

roberto.

Primeira Pessoa said...

esse vasco não é o da gama, marcantônio.
mil vidas, tem a poesia deste jovem poeta português (nasceu em 1979).

um milhão de vidas tem a minha admiração por você.

abraço grande do

roberto.

Jorge Pimenta said...

robertílimo, vasco gato soou nos meus ouvidos, pela primeira vez, na voz pianíssima da ana salomé. passou, então, a ser um nome a reter. como ela, pedro sena-lino (fantástico), gato apresenta-nos recortes de um quotidiano interior, íntimo, que a todos acaba por tocar, porque a todos, de modo mais ou menos notório, pertence.
um abraço e uma felicitação especial por mais uma escolha certeira.

p.s. agora é o farias? xi, a juntar ao edcarlos, o cruzeiro vai ter um timaço, hehehe!?

Primeira Pessoa said...

ah, jorgíssimo, nosso time produz jogadores que são titulares por aí (você sabia que ronaldo, o fenômeno, foi revelado pelo cruzeiro?)... você, que tem no benfica ramires e luizão...
putz... como moeda de troca, recebemos jogadores que são reservas em seus respectivos clubes...
este ernersto farias é bom? é bonzinho?
seria esta uma boa troca? um bom negócio?

bom negócio é ler vasco gato. tão jovem. tão bom. como certos vinhos, que já são perfeitos para degustação ainda novinhos em folha.


abração, bardo do minho.

r.

Iara Maria said...

nossa menino,

esse último poema é digno de ser nomeado pela primeira vez por algum nome que ainda não exista, de tão lindo que é.

também senti saudades de tudo isso aqui!

beijão!

Paulo Jorge Dumaresq said...

O Gato de asas, Roberto.
Asas da imaginação para construir versos dessa qualidade.
Parabéns pela escolha dos poemas e do poeta.
Tão jovem, tão bom.
Abração ao sabor dos ventos que empurram as jangadas no Potengi.

Assis Freitas said...

esta tua alma portuguesa não cansa a navegar e oferecer novas especiarias, tal qual o fizeram dantes as almas viajantes d'além por outros mares. eis que fito os versos do felino transmudado e me tomo de assombro, uma espécie de obnubilação diante o mister insondável das imagens,

abraço-te pois,

Tania regina Contreiras said...

Oi, Roberto, que belezura é ssa desses poemas, heim???
Estava viajando, por isso a ausência, mas já estou de volta e vou ler as postagens anteriores e também verificar que músicas perdi rsrs
Beijo, Roberto

Ada Fraga said...

Vasco Gato, escreve lindamente!

Gostei!

Beijos

LHÚ WEISS said...

Olá! eu o encontrei por acaso e gostei de passar por aqui! acho que vou passar sempre...posso?
vou te seguir se assim o permitir.
No meu blog tenho uma história (LORD CASPEL BARYE)que é um causo de um mineirim. passe por lá e se gostar, deixe seu comentário, vou adorar.
Abraços
Lhú Weiss
(sua nova seguidora)

Primeira Pessoa said...

Lhú Weiss
passarei por seu blog, sim. tenha certeza disto. e vou ler a história do conterrâneo. comentarei.

fico grato pela visita. por aqui passa uma turma bacana. serão seus amigos, também.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

ada,
vasco gato é uma descoberta recente. talentoso e jovem.
escreve com emoção.

abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

pô, tânia... demorô pacas, ein?
ja tava preocupado. to como a mãe do assis, saiu, cuspo no chão.
tem que voltar antes da saliva secar...rs

música? que música? rs

beijão,
roberto.

Primeira Pessoa said...

assis,
tenho esse lance meio lusitano, essa admiração pelos caras que criaram esta que é, ao meu ouvir (e ler), uma das mais bonitas do mundo.
o idioma português é uam letra que já nasceu com música.

abraço procê, ô de amaralina.

r.

Primeira Pessoa said...

paulo poeta,
este vasco não é o da gama...rs

como escreve o vasco gato!
no que posto a resposta, fico pensando na água azul do seu estado e de um bar, que conhcei, na minha última passagem pela cidade. era uma choperia (chaplin).

nada como o seu bardalo's, obviamente.

abraço grande, poeta da barra do potengi.

r.

Primeira Pessoa said...

Iara,
c6e tava fazendo falta. muita falta. ainda bem que retomou o compartilhamento das palavras, do bem haver.

cê fica bem (ainda melhor) entre os nossos iguais.

beijão,
r.

Luciana Marinho said...

os três poemas escolheram bem seu divulgador! belos.

abraço, roberto!

"estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra"

Primeira Pessoa said...

nasci pra carrregar o violão da poesia, luciana.
sou uma espécie de "roadie" da estrela da companhia. não, não brilho.
a luz que desce sobr eo palco não se derrama sobre mim.

mas eu tô tão pertinho dela, sabia? tô tão pertinho que partículas de ouro caem em meus ombros.
fazem luzir minha lapela.

beijos, bela!

jad said...

Boa tarde, Roberto.

Hoje deixo pegada:) para dizer que
"o idioma português é uam letra que já nasceu com música" é a mais bela carcterização da língua com que nos reconhecemos lusófonos.

Acresce que, se houvesse dúvidas quanto à ligação umbilical à língua mãe e à poesia bastariam os poemas de Vasco Gato e esta "eu tô tão pertinho dela, sabia? tô tão pertinho que partículas de ouro caem em meus ombros.
fazem luzir minha lapela".

Bravo, Roberto. É sempre entusiasmante vir aqui, com ou sem pegada.

Abraço

Cosmunicando said...

eu não conhecia esse gato, digo, vasco... e levo todos os dedos pro literapura sem deixar nem ao menos os anéis... rs
ó, eu não sou assombração viu, estou aqui mesmo visitando seus escritos, não é miragem do cosme provocada pela marvada :)
eu sumo, mas vorto!
beijão

Primeira Pessoa said...

esse vasco gato não é tão gato assim.. mas escreve bem que é uma beleza, mercedes.

beijo grande procê!

Primeira Pessoa said...

jad,
isto aqui fica mais bonito quando você salpica umas letrinhas sobre nós.

beijo meu.

r.

Primeira Pessoa said...

luciana,
adoro partilhar as palavras, como quem reparte um pedaço de pão.

mineiramente, de queijo.

beijão,
r.