Wednesday, July 21, 2010












Tramas de um tema fugidio

Nem sempre quem vive do ofício de escrever consegue traduzir em palavras as suas visões, obsessões e sentimentos.
Eu já me frustrei em várias situações, vendo-me obrigado a enterrar temas que julgava bons.
Alguns eram de cunho pessoal, outros meramente circunstanciais.
Os circunstanciais costumam passar.
Os de cunho pessoal, não.
E ficam ardendo em quem não teve lastro para parir seu invento, marcando na pele da alma como se ferro quente fosse.
Quando minha avó morreu, eu quis escrever uma crônica declarando a ela todo o meu amor. Tínhamos uma história maior do que aquelas normalmente inerentes - e que já são imensas, por si - a uma avó e seu neto.
Eu, que nasci à luz de uma lamparina numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, tive em Ana Emília a parteira.
Foi por suas mãos que vim ao mundo.
Ela foi a primeira pessoa a me tocar e a embalar um choro meu.
Cresci apreciando seus frangos ao molho pardo, seus biscoitos de polvilho e a habilidade de alinhavar versos de encantadora pureza.
Acho que meu gosto pela poesia veio dali, daquelas singelas trovinhas de Ana Emília.
Mas Ana Emília se foi.
Ao contrário de tanta gente que pede a conta da vida, paga e sobe, contente, Ana Emília driblou, o quanto pode, o “garçom” do viver.
Tinha 104 anos quando se viu obrigada a assinar a fatura.
Deixou saudades, lições preciosas, e uma lacuna impossível de ser preenchida.
Senti tanto sua morte, que não logrei escrever absolutamente nada que traduzisse o que sentia - e sinto - por ela.
Sentava-me à frente do computador e não conseguia digitar mais do que meia dúzia de frases. Lia em voz alta, relia, tentava costurar palavras às emoções e apagava tudo, logo a seguir.
Mais de um ano depois de Ana Emília nos ter deixado, vira e mexe, a vontade de escrever alguma coisa para ela renasce.
E me ilude, uma vez mais.
Como uma brasa acesa pela brisa da saudade, a fogueira da inspiração chega a se insinuar. Mas bate um vento mais forte que a tudo apaga, bloqueando as emoções.
E uma chuvinha fina, a do desânimo, começa a respingar sobre as idéias, arrefecendo o desejo de homenagear minha avó.
Mas esta não é a única frustração neste, digamos, “departamento”.
Existem outros temas que também não foram bem resolvidos, mas que o precisam ser.
Durante um bom tempo de um tempo bom da minha vida, pensei em escrever uma história de amor.
O palco: Santana dos Ferros, terra de Roberto Drummond, uma figura definitiva em minha trajetória de operário da palavra.
Como um pupilo que provocasse o mestre, eu queria surpreender Roberto, que tinha obsessão pela morte. Seus livros evocavam isto:
Quando Fui Morto em Cuba, A Morte de D.J. em Paris, O Dia em que Ernest Hemingway Morreu Crucificado, Os Mortos Não Dançam Valsa, sua última publicação, atestam bem essa obsessão.
E eu queria algo que evocasse e celebrasse a vida.
Uma estória que, ao contrário das suas, tivesse um final feliz.
Uma estória simplória como a água da chuva, cuja sofisticação residisse justamente nessa singularidade.
Não haveria eletrizantes perseguições policiais, mas uma charrete rodando numa estrada de pé-de-moleque, ao som da percussão das ferraduras batendo nos cubos de pedra.
Ao invés de ditadores e espiões truculentos, crianças correndo pelo jardim forrado de margaridas, lírios e jasmins.
Ao invés de assassinos de aluguel, seresteiros.
Ao invés do estampido de tiros de pistolas, espingardas e metralhadoras, a suavidade de cavaquinhos, bandolins, violões e uma flauta.
Ao invés de golpes de estado, saraus.
E uma lua cheia cuja luz atravessasse a vidraça e a cortina do quarto desta aludida casa das margaridas, e iluminasse um casal trocando beijos e juras de amor eterno.
Mas sei que Roberto Drummond acharia essa idéia ingênua demais.
Ele certamente não me permitiria escrevê-la, até o fim.
Meu mestre sempre preferiu beber da água turva do caos.
Ou a morte pela sede, com a dramaticidade apropriada de um personagem seu.



A Música Que Toca Sem Parar:

Milton Nascimento canta, de Clara Sandroni e Leo Masliah, o manifesto desta legião de adoráveis tão perdedores quanto eu... Guardanapos de Papel.



Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados
Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas
Não desejam glorias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro

23 comments:

Lídia Borges said...

Adorei os textos, em especial o primeiro, que me está muito próximo...
Sei dessa "chuvinha fina [e do] desânimo [que, muitas vezes,] começa a respingar sobre as idéias".

L.B.

Paulo Jorge Dumaresq said...

As lembranças das avós ficam marcadas como tatuagens em nossa memória de emoções, Roberto.
Para sempre.
Quisera eu ainda ter as minhas.
Comovente a crônica.
E você é a mais completa tradução do talento de Drummond, o Roberto.
Abraço apertado, caro mestre.

Juliana Vinagre said...

Érre,

Ando tão cansada ultimamente que me falta disposição até pra escrever. As palavras vão se embaralhando dentro de mim na luta pra sair, e eu resistindo, carcereira impiedosa. Mas sempre passo por aqui - isso o cansaço não me levou ...
Meu dia começa à base de pão com manteiga molhado no café (péssimo hábito que carrego da infância) e crônicas-de-roberto-lima.
Hoje vc me despertou uma saudade doce, sem tamanho, da Dona Adélia, minha avó. Enquanto escrevo, olho sua foto no meu mural, imagem impressa no meu DNA: vestidinho estampado, cantando e tocando seu fiel bandolim.
Dona Adélia era assim: portas escancaradas, mesa posta o dia inteiro, parada obrigatória pra todos que passassem pela rua, e cantoria animada ao cair da tarde.
Não tenho registro de dor maior na minha história que a que vivi quando ela se foi. Seis meses antes de sua partida, em uma conversa em meio à cantoria ela me disse com lágrimas nos olhos: "- Tenho tudo que pedi à Deus: filhos maravilhosos, netos, bisnetos... Sou muito, muito feliz. Minha única tristeza é saber que estou mais perto de ir do que de ficar". Seis meses depois assisti incrédula a sua partida. Uma mulher forte, com saúde de ferro e esbanjando alegria... Foi preciso um aneurisma pra arrancá-la da vida que tanto amava. E ela, mulher brava, esperou em coma que os filhos e netos que moravam distante tivessem tempo de chegar em Coronel Fabriciano. Só depois de todos estarem reunidos, deu seu último suspiro.
Muito do que sou foi desenhado com olhos de ternura e admiração por "Donadélia".
Quero um dia poder fazer uma homenagem à altura de sua passagem por minha vida.
Qualquer dia te falo mais sobre ela, Érre.
Obrigada por me emocionar logo cedo.

Beijo
Diubs

PS: E essa música... foi minha "de cabeceira" durante um bom tempo. Casamento lindo entre melodia e poesia. Se fosse um colo, seria onde eu encostaria minha saudade.

Lara Amaral said...

Uau, que texto! Me pegou desprevenida, mas aqui me sinto segura, não importa o tanto que me surpreenda, amigo, estou contigo! Me encanto com essa força de suas palavras.

Beijo.

Jorge Pimenta said...

querido amigo, sei que a eterna avó e o drummond imortal não precisariam da crónica que forja a escrita para se sentirem homenageados; tenho a certeza, porque de todas, a mais nobre homenagem é a dos afectos, mesmo que silenciosos, e de que tu és mestre e senhor! e essa não a regateaste, nunca.
em todo o caso, deixa-me (se me permites) dizer-te que esta crónica não é um lamento pela (in)capacicdade; ela é a tal homenagem que sentes vir faltando.
um abraço, roberto amigo!

Assis Freitas said...

escrevemos com nossos antecedentes criminais, a frágil diligência do que vivemos seja na territorialidade dos sentidos ou da linguagem, tudo se vive. mesmo que os naufrágios sejam muitos e nas órbitas dos olhos saltem cachoeiras e vertigens. confesso que vivi, como afirmou Neruda.

abração

Primeira Pessoa said...

lídia,
nós que gostamos de escrevinhar coisas nos identificamos nestas nossas similaridades.
fico feliz de te encontrar aqui.
abraço grande do
roberto.

Primeira Pessoa said...

paulo, meu poeta preferido da barra do potengi...
nossa memória afetiva é um lugar onde habitam aqueles que nos amam e que nos fazem bem.
de imenso.

e nós os arrastamos na nossa saudade, mesmo quando estão próximos.
infelizmente, eles partem sempre.
e cedo demais.

abração deste seu amigo das terras altas de minas, o
roberto.

Primeira Pessoa said...

diubs,
a homenagem está aqui, não apenas no seu texto emocionado, mas na memória... ja notou como dona délia está sempre presente?
não é a primeira vez que você me fala dela e eu já gosto dela, como se fosse parte da minha própria família.

existem certas coisas que extrapolam a fronteira biológica.
coisas que vem de um lugar onde, certamente, nenhum homem, nenhuma mulher, jamais pisou ou haverá de pisar.

eu me rendo a dona adélia, diubs.

e me rendo também a você.
desde sempre, esse seu broda from anodamoda...

érre.

Primeira Pessoa said...

larinha,
e eu me encanto com esse seu jeito generoso de ver e sentir a vida.

cê sabe... sou seu fã.

abraço carinhoso do
roberto.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
permita-me aqui discordar (mesmo querendo concordar), ainda vou escreveu algo decente pra ana emília.
representamos, ela e eu, as duas pontas da corda da vida.
e te explico, depois e mais amiúde, certas peculiaridades desta sina, minha e dela.

algo assim, de vida e de morte, poeta bracarense.

este que te abraça com carinho, sempre, o

roberto.

Primeira Pessoa said...

ah, assis...
cê consegue captar tão bem este sentimento... você traduz tudo de uma forma muito tranquila.
e eu vou aprendendo, amigo.
juro que vou aprendendo.
abs,
r.

Fernando Campanella said...

Escrever à memória de alguém querido torna-se muito difícil pois podemos cair na obviedade, no 'que já foi dito, bem dito, mal dito....' Algo como um tema de redação imposto por nossas antigas mestras de Língua Portuguesa.
Mas uma hora sai a homenagem, de uma forma até indireta e interessante como a que vc usou, abordando a dificuldade do tema.
A homenagem foi feita, então, Roberto, e muito me agrada tudo que vc disse, pois há entes queridos em minha memória também, esperando, talvez, para saírem da condição de bons fantasmas e ganharem vida na prosa, ou na poesia.
Grande abraço, meu amigão.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Delima,
"Como uma brasa acesa pela brisa da saudade" - ainda lhe roubo umas frases qualquer poema desses pra fazer canções...
Roberto Drummond, eu li anos a fio suas crônicas estampadas em papéis de chocolate, doces jornais que ele ajudava a vender embrulhados em sonhos, ele que sonhou tantos sonhos...
Prazer imenso passear nessas páginas de novo, poeta...

Abraço embrulhado na amizade,
Ramúcio.

Márcia Cristina Lio Magalhães said...

"Como uma brasa acesa pela brisa da saudade, a fogueira da inspiração chega a se insinuar..."

Essa vai ficar para a posteridade!
Dizer mais o quê?

Aquele tal abraço...

Márcia

Primeira Pessoa said...

gerana,
roberto drummond foi um grande escritor e um grande sujeito.
tivemos uma história de amizade muito bonita e pude participar do processo da "fazeção" do Cheiro de Deus desde o seu início. numa era pré-internet, roberto lia trechos do livro, era muito legal.
tenho tantas saudades, que vez em quando me pego falando nela.

beijo procê, do
r.

Primeira Pessoa said...

gerana,
roberto drummond foi um grande escritor e um grande sujeito.
tivemos uma história de amizade muito bonita e pude participar do processo da "fazeção" do Cheiro de Deus desde o seu início. numa era pré-internet, roberto lia trechos do livro pelo via embratel. era muito legal.
tenho tantas saudades, que vez em quando me pego falando nela.

beijo procê, do
r.

Primeira Pessoa said...

a brisa que acende a brasa da saudade assopra bem devagarinho, marcia.
mas quando "levanta a voz", vira furacão.

tava com saudade de te ler por aqui.

beijão do
r.

Primeira Pessoa said...

pois é, da rama...
uma frase solta, aqui e acolá, foi tudo o que herdei da poesia...rs
o cronista é uma espécie do filho bastardo da poesia, do romance, do conto... o cronista, a menos que seja ruben braga ou algum outro gênio, só serve pra compor o elenco, preencher laudas de jornal...

num é fáqcil não, meu amigo querido.
ó, tava pensando que ce tava de mal e não colocava mais os pés por aqui.
é bom te servir um café.
beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

fernando,
me lembrei, todo pimpão, que faturei (numa daquelas gincanas da escola) em barra do cuieté, no grupo escolar maria ortiz, os pontos para a "equipe azul".
na prova de redação tendo como tema "Meu Brinquedo Favorito"(rs), fui favorecido por um diálogo entre o menino que pedia à mãe uma bola de futebol...rs

foi meu único prêmio literário.
apesar de "laureado", não consigo escrever uma cronica homenageando alguém que eu conhecia tão bem... rs
como você disse tão bem, um dia sai.

beijão, fernando.

r.

Márcia Cristina Lio Magalhães said...

Perdoe-me! Não tenho visitado os amigos com a assiduidade que gostaria por conta da correria das revisões do livro, viagens de trabalho e tals... Até o meu blog tá meio abandonadim... deixo posts agendados.

Tu sim, sem dúvida faz falta lá no poetar, gosto de suas argumentações afiadas...e tuas crônicas mesmo que não deixe coments, leio todas ainda que tardiamente...

Abraço mineiro!
aparece pra tomar um cafezim com pão de queijo... ;-)

Gerana Damulakis said...

Cadê meu comentário?
Falei sobre o frango a molho pardo, sobre Roberto Drummond... fiquei triste por não encontrar meu comentário.

Juliana M. Mesquita said...

Com surpresa recebo com um largo sorriso mais um "seguidor". É um presente porque ao buscar informação sobre quem é esta pessoa, descubro mais um belo lugar. Desde que comecei neste mundo blog estou descobrindo mundos lindos, pessoas e palavras em conjunções delicadas que me fazem sorrir. Estive lendo alguns textos, feliz, mais uma boa leitura. Apazigue seu coração, seu texto sobre sua "vózinha" deixa as marcas do amor que dá pra sentir aqui por trás do meu coração (onde repousam os sentimentos mais sinceros). Muito lindo. Obrigada por aparecer por aqui :) Assim também pude conhecer seu cantinho. Até breve!