Sunday, July 11, 2010

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Um coração balançando entre dois rios

Sou cidadão americano. Sou cidadão brasileiro.
No meu coração existe amor de sobra para os dois.
Nasci no Brasil, numa casa às margens de um rio no interior de Minas Gerais.
Pedra Corrida é meu vilarejo íntimo, e o rio cuja correnteza embalou o meu nascer é chamado Rio Doce.
Mas fui abraçado por uma cidade às margens de um outro rio.
Vinte e um anos depois, foi como se tivesse dormido no Brasil e acordado num outro planeta.
Não sofri, juro.
Tudo foi se incorporando, se misturando, virando produto final e gerando um aprendizado que guardo com carinho em meu relicário.
Minha vinda para os Estados Unidos foi mais que um renascimento.
Foi mais que um reaparecimento.
Ou o reencontro com um amor que me havia sido prometido, sei lá eu por Quem.
Amei este chão que me abraçou logo à primeira vista.
E ele a mim, não tenho dúvida.
Newark acolheu-me com o carinho reservado aos filhos diletos.
E o rio que corre em seu leito, cortando as ruas cidade, é o mesmo que circula em minhas veias e eles chamam Passaic.
Sempre tive um rio em minha vida.
Um, não.
Dois.
Dois rios.
Duas pátrias.
Duas mães.
Amo as duas. E esta é uma canção de amor.
Trabalho laboriosamente de sol a sol.
Pago meus impostos.
Jurei amor a essa bandeira. A essa pátria.
E àquela que me viu nascer.
Por elas eu vou à Guerra. Por elas eu empunho um fuzil.
Eu, que trabalhei aqui desde o dia que cheguei.
Eu, que passei toda a minha vida adulta entre gente vinda dos quatro cantos do mundo.
Eu, que lavei pratos, fiz paellas num restaurante espanhol, carreguei tijolos e massa de concreto como servente de pedreiro da construção civil.
Eu, que operei empilhadeiras, carreguei caixas recheadas de computadores e componentes eletrônicos.
Eu, que servi em mesas de um restaurante e fundei, junto com dois companheiros, um jornal que existe há mais de 20 anos.
Eu, que resumi em um parágrafo minha trajetória de trabalhador nos Estados Unidos e que exprimo com alegria e gratidão o amor por esta terra. Um amor do mesmo tamanho que sinto pelo lugar que nasci.
Essa minha história pequena, sem maior importância, e que se confunde e se entrelaça com a história de vida de milhões de outros americanos adotados, que amam este torrão com a gratidão dos acolhidos.
E este sentimento que faz deste país essa grande nação.
Ingleses, irlandeses, escoceses, italianos, poloneses, portugueses, latinos, cada um representando uma peça do mosaico étnico dessa América-mãe onde estou.
Daí, quando vejo um sujeito de sobrenome O’Something, Mc'Qualquercoisa, Risoli, Risotto, ou outra “iguaria” italiana qualquer, todos eles americanos de segunda ou terceiríssima geração tratando os novos imigrantes como escória, não sinto outra coisa, que não seja decepção e tristeza.
Os antepassados destas pessoas não nasceram aqui.
Eles chegaram aqui.
Foram acolhidos e incorporados como somos hoje, ajudando a fazer desta nação o que ela é.
Ainda não vi nenhum índio americano, esses sim, os nativos originais desta terra, subindo em palanque para desancar imigrantes "legais" ou não.
E isto é, por si, uma grande lição de tolerância e vida.
Tem muita gente precisando aprender com eles.


A Música Que Toca Sem Parar:
Milton Nascimento, dele e de Márcio Borges, Benke.

Beija-flor me chamou: olha
Lua branca chegou na hora
O Beija-Mar me deu prova:
Uma estrela bem nova
Na luminária da mata
Força que vem e renova

Beija-Flor de amor me leva
Como o vento levou a folha

Minha Mamãe soberana
Minha Floresta de jóia
Tu que dás brilho na sombra
Brilhas também lá na praia

Beija-Flor me mandou embora
Trabalhar e abrir os olhos

Estrela d’Água me molha
Tudo que ama e chora
Some na curva do rio
Tudo é dentro e fora
Minha Floresta de jóia

Tem a água
tem a água
tem aquela imensidão
tem sombra da Floresta
tem a luz do coração
Bem-querer!!!

* Essa canção é o nome de um curumim do povo Kampa e é dedicada pelos autores a todos os curumins de todas as raças do mundo

38 comments:

líria porto said...

betinho
acabo de descer da minha arrogância - e por ti, nunca mais esculhambo os americanos nem os chamo de gringos.
besos

Francisco de Sousa Vieira Filho said...

Por cá também são dois rios... mesopotâmia de minha vida...

;)

Primeira Pessoa said...

eu sei, francisco... num braço seu corre o "Velho Monge", no outro, o Tejo.
aliás, o Tejo é um dos mais charmosos (e tristes) rios de que dei conta até aqui.

abração, poeta do piauí.

Primeira Pessoa said...

lírica,
fica a impressão pro mundo de que este é um país de george bushes... e não é... isto aqui é uma colcha de retalhos, uma panela de pressão (tem muito de sampa isto aqui... ou vice-versa) imensa, com gente do mundo inteiro se misturando.
e é um lugar que dá oportunidade às pessoas.
não seria exagero afirmar, pragmaticamente que, o que as pessoas precisam, pra começo de conversa, é de uma oportunidade.
o resto se faz no talento ou no calo da mão.

um dia eu te conto o que vi e vivi.

ó, seu post me enterneceu. sei de que pipa você tira o seu vinho. rs

beijo grande

r.

Tania regina Contreiras said...

Ah, Roberto, porque é você quem diz e creio na sua forma de olhar as coisas, flexibilizo e tento mudar um pouco esse olhar torto aos americanos...Tento. Mas não abro mão de reivindicar você pra nós,não, para o Brasil, para as Minas Gerais. Não tem isso não de "de lá e de cá", não:vc é daqui, ainda que lá. Sempre releio, naturalmente, seu perfil, quando aqui chego e olha: brasileiríssimo! Não, abro mão não de sentir comorgulho que Roerto é Brasil.
Beijos, Roberto!
P.S.: música que toca eu adoro ouvir...

Marliborges said...

Bravo! Bravissimo!
Se fosse possível eu assinaria embaixo. As pessoas tem parar de uma vez por todas, de tecer julgamentos generalizantes baseados em pequenas amostragens. Cada caso é um caso. Isso parece uma sina, né?
Beijo grande, linda crônica, lindo blog.
Obrigada por sua visita, volte mais vezes.

nina rizzi said...

tão verdadeiro, e comovente, que ellenizo.

beijos.

Assis Freitas said...

é terno o rio que banha a minha aldeia em seu curso universal, é terna a vida de dois corações amalgamados, somos sempre singular e plural, cidadão de muitas tribos,

abração

Mirze Souza said...

Lindo, Roberto!

Essa dualidade, faz parte da vida em seu show. Meu irmão também teve duas pátrias e morava em New Jersey. Passou por tudo isto.

É bonito seu texto, chega a comover. Já tinha lido na NINA, mas reli.

Parabéns por seu bom humor e poesia em sua trajetória.

Beijos

Mirze

Fernando Campanella said...

È isso, Roberto, vc disse tudo, e de uma maneira tocante e singela. Diz Mário de Andrade 'Pátria é o acaso de migrações e do pão nosso onde Deus quer...' Eu digo, '...por que faço da imagem a pátria da minha vida?'.

A propósito, a foto 'doida', rs, de minha mais recente postagem são reflexos de folhas amarelas em um rio. Dá pra acreditar? Foi tirada em Santa Rita do Sapucaí, cidade vizinha daqui. E o rio também é nosso vizinho ancestral, chamado de 'Sapucaí'.
Abração, 'mermão'.

Andrea de Godoy Neto said...

Roberto, eu fiquei tocada com essa tua trajetória resumida. Importante teu olhar a abrir nosso coração para um país que, para muitos, se veste sempre de vilão.

que bom que tu está por aqui, pra nos mostrar essas coisas que, às vezes, um certo bairrismo não nos permite perceber.
afinal o mundo é um só, né? e todos nós, náufragos nessa imensa ilha solta no espaço

beijão pra ti

Maria Vieira said...

que beleza... emocionante.

Primeira Pessoa said...

maria,
beleza é ver meus amigos aqui no blog... deixando um tantão de afeto...

retribuo.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

andrea,
um dos lances mais legais deste país é exatamente este. no Brasil que eu vivi, um lava-pratas com outros talentos pode passar a vida inteira lavando pratos, sem ter outra oportunidade.

tenho trocentas histórias pra contar neste departamento.

mas entendo de onde vem essa má-vontade com os eua... até certo ponto justificada.

o brasil, nosso brasil, país de paz, também tem uma história obscura.
minha geração vem desta semente.

nasci no dia 4 de dezembro de 1962. quase dois anos antes da "revolução".

enfim...

é o que é.

é saber saparar o jôio da jóia.

e viver em paz com as nossas escolhas.

beijão do
roberto.

Zélia Guardiano said...

Lindo depoimento, Roberto!
Mais ainda o admiro!
É didático um texto assim... Afinal, estamos cá, distante, e estamos habituados a ouvir de tudo...
Obrigada, amigo!
Enorme abraço.

Primeira Pessoa said...

zélia,
viver fora do lugar onde a gente nasce (mesmo dentro do próprio país da gente) é um desafio.
mas é sossegado, se o coração está tranquilo e se está certo do que se quer.
como diria o renato teixeira, é bom em todo canto.

beijo procê,

r.

Primeira Pessoa said...

fernando,
no outro dia me descobri mais cruzeirense do que torcedor da seleção brasileira.
falávamos exatamente disto por aqui.
cê acredita um trem destes?
não vale é dizer que, com um time dirigido por dunga é fácil desertar...rs

mudando de assunto, achei aquela foto muito especial, fernando. aliás, cê tem um olho... tem um olhar....

abração, poeta!

r.

Primeira Pessoa said...

mirze,
se seu irmão viveu aqui em new jersey é provável até que nos conheçamos.

por aqui, todo mundo se conhece... é como se vivêssemos numa pequena vila... num little brazil...
rs...

transmita-lhe um abraço meu.

pegue um só procê.

r.

Primeira Pessoa said...

é verdade, assis...
somos tantos, numa pessoa só... e nem precisa entrar nesse papo de bipolaidade... não é disto a que nos referimos, tenho certeza.

a propósito de bipolaridade, eu tenho um amigo tão bipolar, mas tão bipolar, que toda vez que ele e a mulher transam, ela tem um menage...rs

beijo procê, poeta de amaralina.

r.

Primeira Pessoa said...

poxa, nina...
cê não tem idéia do quanto fiquei feliz de ver meu texto no ellenismos (eu que sou freguês de carteirinha do seu blog, que adoro).

ô, sou muito grato por me ajudar a carregar minhas dores e sentimentos bons.

compartilho contigo da (minha) alegria de me ler lá.

vontade do seu abraço.

r.

Primeira Pessoa said...

marli,
entendo o que muios amigos pensam (e o porque) deste país aqui.
existe uma estória (e uma história), um fato que alimenta um boato (e vice-versa) nessa coisa da besta capitalista, no tio sam, um cara babaca, ainda presidente de um país de babacas que comer o fígado do resto do planeta.

ó, este é um país de trabalhadores e sou testemunha disto. um povo que rala pra caráleo e que, como caetano diz tão bem na canção, é (também)responsável por muito do bom e de ruim que acontece neste mundo.

te deixo um beijo.
e registro a alegria de te receber neste minifúndio de afeições.

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
crescer é adquirir a capacidade de mudar de idéia.
quando mais jovens tendemos a aceitar menos as dierenças, ou sermos mais tolerantes, mais compreensivos.

fiquei feliz de te ler. saiba disto.

beijo procê.
r.

ps: te mando o benke. cê quer?

Tania regina Contreiras said...

Manda, sim, Roberto, adorarei!
Abraços,
Tânia

líria porto said...

só pra falar - 'dia, betinho!
besos

Jorge Pimenta said...

amigo roberto, ao ler-te fui desfiando um fio autobiográfico que me ajudou a perceber de ondem vem a corrente dos rios que deixas deslizar por dentro e fora de ti. mas a tese, a essência, essa estava reservada para o final; como nas obras dos grandes, dos maiores.
um grande abraço, roberto de lima ou, melhor dito, robert steel file :)

Jorge Pimenta said...

amigo roberto, ao ler-te fui desfiando um fio autobiográfico que me ajudou a perceber de ondem vem a corrente dos rios que deixas deslizar por dentro e fora de ti. mas a tese, a essência, essa estava reservada para o final; como nas obras dos grandes, dos maiores.
um grande abraço, roberto de lima ou, melhor dito, robert steel file :)

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
trata-se de uma história pequena, menor... mas ainda assim uma história e toda história deveria ser contada pelo menos uma vez. e, a gente é, ao final do dia, o que comemos, o que vimos, o que testemunhamos, o que fizemos, o que partilhamos e experimentamos... e, muito especialmente, o que sentimos.

é mais ou menos por aí, quero crer.
abraço imenso pra ti, bardo do norte.

seu amigo,
r.

Primeira Pessoa said...

dia, querida lírica.
com direito a pingado e pão de queijo, logo pela manhã.

beijoca,
r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
cê manda em mim.
já seguiu o milton.
beijao,
r.

líria porto said...

na mosca - é o que mais gosto quando levanto - coisa de roceira mezzzzzzzzz...
besos

ah, tu e eu no mesmo dia lá na nina - bão que dói...

Lara Amaral said...

É essencial e bonito ter amor e gratidão pela terra onde se "finca", sem nunca se esquecer da terra de onde veio.

Beijo, tio querido.

contagotas said...

Li quem você era e esqueci! Olhei meus visitantes e descobri que alguém, algures no mundo, em continente americano, acima do equador, se dava ao trabalho de abrir meu espaço.
Hoje descobri ser voçê. Ao ler seu texto, belíssimo, como sempre. Leve na leitura, denso de conteúdo.
Mistério desvendado, sono mais tranquilo.
Abraço

Primeira Pessoa said...

contagotas, esquenta não... rs
o importante é que estive no seu espaço e pude absorver um pouco da forma com que você sente a vida.

e você me visitou também. Isto me alegrou do lado de cá.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

lírica,
procê ser perfeita, só faltava torcer pelo cruzeiro...

esta diferença me aterra. rs

beijos

r.

Tania regina Contreiras said...

Obrigadaço pelo envio da música. Tenho que te ler sem som, senão já viu: vc me encanta uma metade e a outra metade, aí fico toda encantada e acabo querendo a música aqui! rs
Valeu, Roberto!

Primeira Pessoa said...

tania, cê nao é a única a pedir cantigas daqui.
e compartilho com o maior prazer.
é só pedir, que mando na hora.

não faz sentido ser ser feliz sozinho...rs

beijo procê.

r.

Primeira Pessoa said...

larinha,
de onde venho, aprendemos ainda criança a sermos gratos e a apreciar os gestos carinhosos, a generosidade das pessoas...

aprendemos a apreciar pessoas assim como você.

beijo grande do

r.

12 de julho

OutrosEncantos said...

Amei teu post Roberto.
Há muita gente precisando aprender muuuita coisa com a pureza dos nativos, sim.
Mas saiba que por vezes se emigra dentro do próprio país, das aldeias para as importantes cidades, ou até de cidades para cidades e também aí existe desse mal que você fala, um racismo interpessoal, incompreensivel e insuportavel.

Abração, Roberto.